Disfarce, risco e identidade roubada nas naus dos Descobrimentos
Para atravessar o mar, teve primeiro de desaparecer
Por: Armindo Guimarães
Nem todas as mulheres ficaram em terra. Algumas partiram — não por direito, mas por necessidade. Para embarcar, tiveram de abdicar do nome, do corpo reconhecido e da própria identidade. Vestiram-se de homem, falaram menos, baixaram os olhos, aprenderam a ocupar pouco espaço. Foi assim que algumas conseguiram entrar nas naus e caravelas dos Descobrimentos.
Não iam em busca de glória. Fugiam.
Da miséria, de casamentos impostos, de violências silenciosas, de uma vida já decidida à partida. O mar, com todos os seus perigos, oferecia-lhes algo raro: possibilidade.
A bordo, cada dia era risco. O disfarce exigia vigilância constante. Um gesto errado, uma doença, um descuido na intimidade podiam revelar tudo. Se descobertas, o castigo era severo: expulsão em porto estranho, prisão, humilhação pública ou coisa pior. Ainda assim, muitas arriscaram.
Viviam numa solidão absoluta. Não pertenciam ao mundo masculino que imitavam, nem podiam ser mulheres ali. Eram identidades suspensas, corpos em trânsito, sobreviventes por antecipação. Aprendiam tarefas duras, suportavam fadiga, medo e violência — tudo para manter o segredo.
Algumas foram descobertas.
Outras conseguiram atravessar oceanos inteiros sem nunca serem desmascaradas.
Quando chegavam a terra, a fuga não terminava. Em portos distantes, muitas continuavam a viver como homens; outras revelavam-se e desapareciam nos interstícios das novas sociedades. Poucas deixaram rasto escrito. A História não sabia onde colocá-las — e por isso ignorou-as.
Mas a sua presença desmonta a ideia de que os Descobrimentos foram um mundo exclusivamente masculino. Essas mulheres provaram que a exclusão não as impediu de partir — apenas as obrigou a fazê-lo às escondidas.
Não entraram nos relatos oficiais porque não deviam existir.
Mas existiram. E cruzaram mares pagando o preço mais alto: o de não poderem ser quem eram.
Presenças documentadas, vidas quase apagadas
Apesar do silêncio das crónicas, alguns nomes sobreviveram nos arquivos. Um dos casos mais conhecidos é o de Catarina Fernandes, registado na Casa da Índia no século XVI. Embarcou para o Brasil vestida de homem e foi descoberta a meio da viagem. O processo descreve o "escândalo" causado pela revelação, mas também a competência com que desempenhava as tarefas marítimas — reconhecimento raro, vindo dos próprios oficiais que a julgaram.
Outro exemplo é o de Isabel Madeira, que não se disfarçou de homem, mas comandou um grupo de mulheres na defesa de Diu, em 1546. A sua presença militar, mencionada por Diogo do Couto, mostra que a participação feminina no ultramar era mais complexa do que a narrativa oficial admite. A surpresa dos cronistas revela o quanto estas figuras contrariavam as expectativas de género do seu tempo.
Há ainda registos dispersos de mulheres que tentaram embarcar clandestinamente rumo à Índia ou ao Brasil, sendo detidas antes da partida. Algumas aparecem apenas como "moça vestida de homem", sem nome, sem origem, sem destino — sombras administrativas que confirmam o fenómeno sem lhe dar rosto.
E, fora do contexto português, mas iluminando o mesmo gesto de transgressão, surge a célebre Catalina de Erauso, a "Monja Alférez", que viveu anos como soldado no Novo Mundo. A sua autobiografia, embora literária, demonstra que a travessia de género era uma estratégia de sobrevivência num mundo que lhes negava mobilidade e autonomia.
Estes casos, raros mas reveladores, mostram que as mulheres que partiram às escondidas não foram meras curiosidades. Foram parte de um padrão silencioso, apagado pela historiografia tradicional, mas essencial para compreender a verdadeira dimensão humana das viagens marítimas. Cada uma delas confirma aquilo que este texto afirma: a História não as registou porque não sabia onde colocá-las — mas elas existiram, e a sua presença altera o mapa moral e simbólico dos Descobrimentos.
*Nota do Editor – Portal Splish Splash* Este texto integra uma série dedicada às presenças ocultas dos Descobrimentos portugueses, dando voz a quem participou à margem da História oficial.
- - -
As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
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Disfarce, risco e identidade roubada nas naus dos Descobrimentos
Para atravessar o mar, teve primeiro de desaparecerPor: Armindo Guimarães
Não iam em busca de glória. Fugiam.
Da miséria, de casamentos impostos, de violências silenciosas, de uma vida já decidida à partida. O mar, com todos os seus perigos, oferecia-lhes algo raro: possibilidade.
A bordo, cada dia era risco. O disfarce exigia vigilância constante. Um gesto errado, uma doença, um descuido na intimidade podiam revelar tudo. Se descobertas, o castigo era severo: expulsão em porto estranho, prisão, humilhação pública ou coisa pior. Ainda assim, muitas arriscaram.
Viviam numa solidão absoluta. Não pertenciam ao mundo masculino que imitavam, nem podiam ser mulheres ali. Eram identidades suspensas, corpos em trânsito, sobreviventes por antecipação. Aprendiam tarefas duras, suportavam fadiga, medo e violência — tudo para manter o segredo.
Algumas foram descobertas.
Outras conseguiram atravessar oceanos inteiros sem nunca serem desmascaradas.
Quando chegavam a terra, a fuga não terminava. Em portos distantes, muitas continuavam a viver como homens; outras revelavam-se e desapareciam nos interstícios das novas sociedades. Poucas deixaram rasto escrito. A História não sabia onde colocá-las — e por isso ignorou-as.
Mas a sua presença desmonta a ideia de que os Descobrimentos foram um mundo exclusivamente masculino. Essas mulheres provaram que a exclusão não as impediu de partir — apenas as obrigou a fazê-lo às escondidas.
Não entraram nos relatos oficiais porque não deviam existir.
Mas existiram. E cruzaram mares pagando o preço mais alto: o de não poderem ser quem eram.
Presenças documentadas, vidas quase apagadas
Apesar do silêncio das crónicas, alguns nomes sobreviveram nos arquivos. Um dos casos mais conhecidos é o de Catarina Fernandes, registado na Casa da Índia no século XVI. Embarcou para o Brasil vestida de homem e foi descoberta a meio da viagem. O processo descreve o "escândalo" causado pela revelação, mas também a competência com que desempenhava as tarefas marítimas — reconhecimento raro, vindo dos próprios oficiais que a julgaram.
Outro exemplo é o de Isabel Madeira, que não se disfarçou de homem, mas comandou um grupo de mulheres na defesa de Diu, em 1546. A sua presença militar, mencionada por Diogo do Couto, mostra que a participação feminina no ultramar era mais complexa do que a narrativa oficial admite. A surpresa dos cronistas revela o quanto estas figuras contrariavam as expectativas de género do seu tempo.
Há ainda registos dispersos de mulheres que tentaram embarcar clandestinamente rumo à Índia ou ao Brasil, sendo detidas antes da partida. Algumas aparecem apenas como "moça vestida de homem", sem nome, sem origem, sem destino — sombras administrativas que confirmam o fenómeno sem lhe dar rosto.
E, fora do contexto português, mas iluminando o mesmo gesto de transgressão, surge a célebre Catalina de Erauso, a "Monja Alférez", que viveu anos como soldado no Novo Mundo. A sua autobiografia, embora literária, demonstra que a travessia de género era uma estratégia de sobrevivência num mundo que lhes negava mobilidade e autonomia.
Estes casos, raros mas reveladores, mostram que as mulheres que partiram às escondidas não foram meras curiosidades. Foram parte de um padrão silencioso, apagado pela historiografia tradicional, mas essencial para compreender a verdadeira dimensão humana das viagens marítimas. Cada uma delas confirma aquilo que este texto afirma: a História não as registou porque não sabia onde colocá-las — mas elas existiram, e a sua presença altera o mapa moral e simbólico dos Descobrimentos.
*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Este texto integra uma série dedicada às presenças ocultas dos Descobrimentos portugueses, dando voz a quem participou à margem da História oficial.
As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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