Enquanto as naus partiam, ela vivia entre a espera, o silêncio e o rumor
"A espera também foi uma forma de naufrágio." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Quando as naus largavam do porto, a epopeia começava para uns — e ficava suspensa para outras. A mulher que ficava em terra não embarcava em caravelas nem atravessava oceanos, mas participava plenamente na viagem, pagando o preço mais longo: o da ausência.
Ficava com a casa incompleta, os filhos por criar, as contas por acertar e um estatuto indefinido. Não era viúva, mas também já não era esposa em pleno. Era mulher de um homem que podia estar vivo, morto, perdido ou simplesmente esquecido algures no mundo. E essa incerteza corroía mais do que qualquer tempestade.
Viviam de rumores trazidos por marinheiros de passagem, de listas incompletas, de nomes mal pronunciados. Um navio chegava e o coração acelerava. Outro partia e levava consigo a esperança recém-nascida. Não havia despedida final nem luto possível — apenas uma espera que se renovava todos os dias.
A cada vela que surgia no horizonte, a esperança subia. A cada vela que passava, o passado afundava mais um pouco.
Ela sabia distinguir o som de cada passo na rua. O dos vizinhos, o das crianças, o do padeiro que passava cedo. Mas havia um passo que nunca mais ouviu — e era esse silêncio que lhe moldava os dias. A casa parecia maior desde que ele partira, como se as paredes tivessem aprendido a ecoar a falta.
Guardava pequenos rituais para não se desfazer: acender a lamparina ao entardecer, dobrar a roupa dele como se fosse voltar a usá-la, espreitar o horizonte mesmo quando sabia que não veria nada. A esperança não era um sentimento; era uma disciplina. E a disciplina, às vezes, doía mais do que a saudade.
À noite, quando o vento batia nas portadas, imaginava que podia ser o som das velas a recolher, o rumor de um navio a aproximar-se. Nunca era. Mas continuava a ouvir, porque desistir de ouvir seria admitir que o mar tinha vencido. E ela não queria ser vencida. Não ainda.
As fontes da época pouco dizem sobre estas mulheres, mas os seus gestos sobrevivem na memória das comunidades. Não deixaram diários nem cartas de marear, mas deixaram marcas: contas feitas à luz de velas, decisões tomadas sem testemunhas, pactos silenciosos com o tempo. A historiografia regista rotas e batalhas; elas registaram ausências — e foi essa escrita invisível que manteve de pé muitas casas enquanto o mundo se alargava para além do horizonte.
Ela, como tantas outras, aprendia a medir os dias pela sombra do sol na soleira e pelas notícias que nunca chegavam. O tempo não passava: acumulava-se. Às vezes, ao entardecer, sentia que a espera tinha peso próprio, como se fosse mais um corpo dentro da casa. E, no entanto, havia uma espécie de poesia na persistência — uma fidelidade não ao homem, mas à esperança de que a vida não se desfizesse na maré.
E assim, entre o rigor das tarefas e a fragilidade das emoções, estas mulheres tornaram-se guardiãs de um quotidiano que ninguém celebrava, mas de que todos dependiam. A sua epopeia não se escrevia no mar, mas no intervalo entre duas certezas impossíveis: a de que ele podia voltar e a de que talvez nunca voltasse. E nesse intervalo, que era quase um território próprio, elas ergueram uma forma de coragem que raramente encontra nome nos livros, mas que ressoa ainda hoje — como um rumor antigo que o vento insiste em trazer de volta.
Essas mulheres tornaram-se gestoras da sobrevivência. Aprenderam a decidir sozinhas, a negociar, a proteger bens, a criar filhos com histórias incompletas. Muitas envelheceram à espera de um regresso que nunca chegou. Outras receberam o homem de volta — irreconhecível, marcado, distante — e descobriram que o regresso também podia ser uma forma de perda.
A História celebrou partidas e chegadas, mas raramente registou quem ficou no meio. No entanto, sem essas mulheres, não haveria casas para regressar, nem filhos para herdar nomes, nem memória para ser continuada. Elas sustentaram o quotidiano enquanto o mundo era explorado longe delas.
Não atravessaram mares. Atravessaram anos.
E quando a espera terminou — por morte confirmada, por regresso tardio ou por cansaço — poucas tiveram direito a palavra. Ficaram fora dos relatos, mas dentro da experiência mais dura da epopeia: a de viver sem resposta.
*Nota do Editor – Portal Splish Splash* Este texto integra uma série dedicada às presenças silenciosas dos Descobrimentos portugueses, aquelas que participaram sem partir e resistiram sem glória.
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Enquanto as naus partiam, ela vivia entre a espera, o silêncio e o rumor
Vímara Porto
Ficava com a casa incompleta, os filhos por criar, as contas por acertar e um estatuto indefinido. Não era viúva, mas também já não era esposa em pleno. Era mulher de um homem que podia estar vivo, morto, perdido ou simplesmente esquecido algures no mundo. E essa incerteza corroía mais do que qualquer tempestade.
Viviam de rumores trazidos por marinheiros de passagem, de listas incompletas, de nomes mal pronunciados. Um navio chegava e o coração acelerava. Outro partia e levava consigo a esperança recém-nascida. Não havia despedida final nem luto possível — apenas uma espera que se renovava todos os dias.
A cada vela que surgia no horizonte, a esperança subia. A cada vela que passava, o passado afundava mais um pouco.
Ela sabia distinguir o som de cada passo na rua. O dos vizinhos, o das crianças, o do padeiro que passava cedo. Mas havia um passo que nunca mais ouviu — e era esse silêncio que lhe moldava os dias. A casa parecia maior desde que ele partira, como se as paredes tivessem aprendido a ecoar a falta.
Guardava pequenos rituais para não se desfazer: acender a lamparina ao entardecer, dobrar a roupa dele como se fosse voltar a usá-la, espreitar o horizonte mesmo quando sabia que não veria nada. A esperança não era um sentimento; era uma disciplina. E a disciplina, às vezes, doía mais do que a saudade.
À noite, quando o vento batia nas portadas, imaginava que podia ser o som das velas a recolher, o rumor de um navio a aproximar-se. Nunca era. Mas continuava a ouvir, porque desistir de ouvir seria admitir que o mar tinha vencido. E ela não queria ser vencida. Não ainda.
As fontes da época pouco dizem sobre estas mulheres, mas os seus gestos sobrevivem na memória das comunidades. Não deixaram diários nem cartas de marear, mas deixaram marcas: contas feitas à luz de velas, decisões tomadas sem testemunhas, pactos silenciosos com o tempo. A historiografia regista rotas e batalhas; elas registaram ausências — e foi essa escrita invisível que manteve de pé muitas casas enquanto o mundo se alargava para além do horizonte.
Ela, como tantas outras, aprendia a medir os dias pela sombra do sol na soleira e pelas notícias que nunca chegavam. O tempo não passava: acumulava-se. Às vezes, ao entardecer, sentia que a espera tinha peso próprio, como se fosse mais um corpo dentro da casa. E, no entanto, havia uma espécie de poesia na persistência — uma fidelidade não ao homem, mas à esperança de que a vida não se desfizesse na maré.
E assim, entre o rigor das tarefas e a fragilidade das emoções, estas mulheres tornaram-se guardiãs de um quotidiano que ninguém celebrava, mas de que todos dependiam. A sua epopeia não se escrevia no mar, mas no intervalo entre duas certezas impossíveis: a de que ele podia voltar e a de que talvez nunca voltasse. E nesse intervalo, que era quase um território próprio, elas ergueram uma forma de coragem que raramente encontra nome nos livros, mas que ressoa ainda hoje — como um rumor antigo que o vento insiste em trazer de volta.
Essas mulheres tornaram-se gestoras da sobrevivência. Aprenderam a decidir sozinhas, a negociar, a proteger bens, a criar filhos com histórias incompletas. Muitas envelheceram à espera de um regresso que nunca chegou. Outras receberam o homem de volta — irreconhecível, marcado, distante — e descobriram que o regresso também podia ser uma forma de perda.
A História celebrou partidas e chegadas, mas raramente registou quem ficou no meio. No entanto, sem essas mulheres, não haveria casas para regressar, nem filhos para herdar nomes, nem memória para ser continuada. Elas sustentaram o quotidiano enquanto o mundo era explorado longe delas.
Não atravessaram mares. Atravessaram anos.
E quando a espera terminou — por morte confirmada, por regresso tardio ou por cansaço — poucas tiveram direito a palavra. Ficaram fora dos relatos, mas dentro da experiência mais dura da epopeia: a de viver sem resposta.
*Nota do Editor – Portal Splish Splash*
Este texto integra uma série dedicada às presenças silenciosas dos Descobrimentos portugueses, aquelas que participaram sem partir e resistiram sem glória.
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Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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