Rússia, Ucrânia e o cinema em tempos de guerra

Livro analisa como filmes russos e ucranianos representam a guerra, revelando perspectivas sociais, históricas e humanas do conflito atual.
 Capa do livro Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra

Como o cinema revela visões opostas e feridas abertas do conflito 


Os filmes mostram o que a cobertura diária não consegue tocar 


O cinema raramente falha em captar o espírito do seu tempo, e a obra “Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra”, do professor da UnB João Lanari Bo, abraça precisamente essa premissa. Recorrendo a uma linguagem acessível, o autor examina como cineastas russos e ucranianos retratam o conflito que marcou – e continua a marcar – a história recente dos dois países. O livro já está disponível na Amazon, no site da editora Confraria do Vento e na Livraria da Travessa.

Lanari observa que os filmes, sejam documentários ou ficcionais, conseguem oferecer testemunhos íntimos, vivências diretas e percepções que muitas vezes escapam da cobertura mediática diária. Para o autor, estas obras revelam nuances fundamentais do conflito, trazendo novas leituras sobre um tema que, visto de longe, tende a ser simplificado.

A publicação reúne artigos produzidos ao longo de vários anos, compondo um panorama amplo sobre o cinema russo e ucraniano tanto antes quanto durante a guerra. A seleção dos textos tem como critério não apenas a relevância artística, mas também a acessibilidade aos filmes — afinal, de pouco serve uma análise de obras praticamente invisíveis ao público.

Lanari explica que privilegiou filmes que dialogam com as guerras que marcaram o século XX, culminando no confronto atual. Ao mesmo tempo, a obra também toca nas chamadas “guerras culturais” que atravessam a Rússia contemporânea, um terreno onde política, identidade e narrativas se confrontam.

Entre os cineastas analisados estão nomes fundamentais como Aleksándr Dovjénko, Aleksei German, Nikita Mikhálkov, Aleksándr Sokúrov, Kiríll Serébrennikov e Andrei Zviáguintsev. A capa do livro traz justamente uma imagem de “Leviatã”, filme de Zviáguintsev lançado em 2014, cuja receção provocou forte disputa interna na Rússia. Para o professor, essa obra sintetiza a tensão cultural que percorre o país.

O livro também evidencia a ligação dos realizadores contemporâneos com a tradição do cinema soviético clássico — uma herança incontornável que moldou gerações e permanece como referência. Segundo Lanari, os cineastas atuais são ao mesmo tempo continuidade e ruptura: preservam o legado histórico, mas enfrentam novos temas, urgências e realidades.

Vieram depois quase quatro anos de guerra aberta, acompanhada diariamente pelo mundo. Nesse cenário, o cinema tornou-se mais do que arte: tornou-se testemunho. A produção ucraniana, limitada por condições extremas, conseguiu ainda assim criar filmes carregados de força simbólica e histórica. Na Rússia, por outro lado, os cineastas dividem-se entre apoiar ou rejeitar a invasão, refletindo um país internamente fraturado.

Com uma abordagem clara e um conjunto robusto de exemplos, “Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra” ajuda o leitor a perceber como cada lado projeta a sua visão do conflito e como essas obras dão voz aos impactos humanos e sociais da guerra. O objetivo do autor é simples: oferecer um roteiro de navegação para quem deseja compreender — e assistir — o que o cinema tem dito sobre este tempo turbulento.

SERVIÇO:
“Rússia, Ucrânia e o Cinema em Tempos de Guerra”
Autor: João Lanari Bo
Editora: Confraria do Vento
Páginas: 332
Preço: R$ 149
Onde comprar: Amazon, Confraria do Vento e Livraria da Travessa

O livro encerra com uma reflexão mais ampla sobre a própria identidade russa. Depois da queda do império soviético, em 1991, e após décadas sob o comando de Vladímir Putin, persiste a dúvida: estará a Rússia a procurar ser uma nação moderna ou um império pós-soviético? O cinema, mais uma vez, expõe as tensões desta pergunta, funcionando como espelho das disputas internas que moldam o país.

Sobre o autor:
João Lanari Bo é professor do curso de audiovisual da Universidade de Brasília. Publicou “Cinema Japonês: Filmes, Histórias, Diretores” (Ed. Giostri, 2016) e “Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos” (Ed. Bazar do Tempo, 2019).

Nota do Editor – Portal Splish Splash: Este livro relembra que, mesmo em tempos de guerra, o cinema continua a ser uma ferramenta poderosa para compreender o mundo. Entre sombras, silêncios e revelações, a arte insiste em mostrar o que a história tenta ocultar.
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