A gruta, a ilha: audiovisual expandido no Sesc Copacabana

Exposição A gruta, a ilha reúne vídeos, esculturas e instalações de Darks Miranda e Mariana Kaufman no Sesc Copacabana até fevereiro de 2026.
 Cartaz alusivo à exposição A gruta, a ilha no Sesc Copacabana com obras audiovisuais de Darks Miranda e Mariana Kaufman

Exposição de Darks Miranda e Mariana Kaufman cria universos imersivos entre ficção, arte e política 


Duas artistas, múltiplos mundos 


Em ambiente de penumbra cuidadosamente arquitetado, o público é convidado a entrar num território onde imaginação, ficção e deslocamento são palavras-chave. Assim se apresenta “A gruta, a ilha”, exposição de audiovisual expandido assinada pelas artistas e cineastas Darks Miranda e Mariana Kaufman, em cartaz a partir de 20 de dezembro na galeria do Sesc Copacabana, com curadoria de Anna Costa e Silva. Trata-se de uma experiência sensorial e narrativa que se constrói menos pelo que se explica e mais pelo que se vive.

A exposição parte da produção em vídeo das duas artistas, mas expande esse núcleo para esculturas, objetos e instalações que dialogam entre si como fragmentos de um mesmo universo. As obras não estão organizadas para serem vistas isoladamente: elas se contaminam, ecoam e se prolongam umas nas outras, criando um percurso imersivo que atravessa tempos, espaços e geografias imaginárias. Até 22 de fevereiro de 2026, o projeto será acompanhado por uma agenda de conversas com convidados de diferentes áreas, sempre aos sábados, no final da tarde.

“A gruta, a ilha” nasce dos pontos de contato entre as pesquisas artísticas de Miranda e Kaufman. Ambas trabalham a imaginação e a fantasia como forças políticas e poéticas, capazes de inventar outros modos de existir e de perceber o mundo. Ao tensionar evidências do contemporâneo a partir de perspectivas feministas e ambientalistas, as artistas não entregam respostas prontas: abrem frestas. O gesto crítico aparece entrelaçado à criação de linguagens próprias, sensíveis e indisciplinadas, convocando o espectador a sentir antes de compreender e a habitar o espaço expositivo como quem atravessa um limiar.

A afinidade entre as duas vem de longa data. Darks Miranda e Mariana Kaufman estudaram juntas cinema na UFF, em Niterói, e voltaram a se encontrar anos depois em formações na EAV Parque Lage e na pós-graduação em Literatura e Artes Visuais. Nesse percurso comum, aprofundaram pesquisas inspiradas por artistas e pensadoras como Hito Steyerl, Tacita Dean, Wislawa Szymborska, Donna Haraway, Mary Shelley, Claire Denis e Yoko Ono, referências que ajudam a compreender a densidade conceitual dos trabalhos apresentados.

Ao todo, a exposição reúne nove obras: quatro de cada artista e uma instalação inédita criada em colaboração especialmente para o projeto. O conjunto forma um amálgama de imagens, sons e volumes, no qual cada peça é parte de um organismo maior. O público é conduzido por filmes, esculturas e instalações que sugerem viagens por outras galáxias, faunas, floras e geografias do impossível, sem perder o vínculo com questões urgentes do presente.

Entre os trabalhos apresentados estão “A ilha do Farol” (Kaufman, 2017, em parceria com Jô Serfaty), exibido em monitor com fones de ouvido e intercalado com “A ilha” (Miranda, 2023); o filme “Mehr Licht!” (Kaufman, 2016), projetado em tela e intercalado com “A figura da quimera seria mais adequada” (Miranda, 2023, em parceria com Juno B.). Integram ainda a mostra a escultura “Corpo Mineral” (Darks Miranda), a instalação “Futuro” (Kaufman, 2016), os vídeos “Natureza Morta” (Kaufman, 2016) e “Uma noite perigosa na ilha de Vulcano” (Miranda, 2022), além da instalação inédita ainda sem título.

Pensada também sob o ponto de vista da acessibilidade, a exposição conta com todos os vídeos legendados em português. O som é reproduzido por fones individuais, favorecendo a experiência tanto de pessoas com deficiência auditiva quanto visual, além de preservar a atmosfera imersiva do espaço.

“A gruta, a ilha” não é uma exposição para ser atravessada com pressa. É um convite a desacelerar, entrar no escuro e aceitar o risco de se perder um pouco — porque, aqui, perder-se faz parte da experiência.

Nota do Editor – Portal Splish Splash: Num tempo obcecado por explicações rápidas e narrativas fáceis, esta exposição aposta no contrário: complexidade, silêncio e imaginação como atos de resistência cultural. Vale a visita sem manual de instruções.
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