Acúmulo de 'células-zumbis' pode causar danos ao coração e aos rins

Representação de células.


Células senescentes - aquelas que perderam a capacidade de se dividir - se acumulam com a idade e são os principais fatores de doenças relacionadas à idade, como câncer, demência e doenças cardiovasculares e renais

São Paulo – agosto 2022 - Objetos de muitos estudos recentes, as células senescentes – aquelas que perderam a capacidade de se dividir – são consideradas as chaves para entender o envelhecimento e muitas doenças relacionadas à idade, como câncer, demência e doenças cardiovasculares e renais. Um novo estudo publicado na Nature Structural & Molecular Biology  no começo de julho descobriu um mecanismo pelo qual as células senescentes, ou "zumbis", se desenvolvem. “O trabalho mostra pela primeira vez que o dano oxidativo aos telômeros - as pontas protetoras dos cromossomos que agem como tampas plásticas na ponta de um cadarço - podem desencadear a senescência celular. Essas descobertas podem eventualmente apontar para novas terapêuticas que promovam o envelhecimento saudável, preservando órgãos importantes como coração e rins, ou combatam o câncer”, explica a médica nefrologista Dra. Caroline Reigada*, especialista em Medicina Intensiva, pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, e em Clínica Médica/Medicina Interna. “Essas células ainda estão vivas, mas não podem se dividir, então não ajudam a repor os tecidos. Além disso, elas não são inofensivas. Elas secretam ativamente substâncias químicas que promovem a inflamação e danificam as células vizinhas. Órgãos como coração, cérebro e rins são altamente sensíveis ao acúmulo desse tipo de células, pois não conseguem ser reparados adequadamente e a inflamação produzida danifica esses tecidos, que são fundamentais para o bom funcionamento do corpo”, acrescenta a médica.

Segundo a médica, que integra o corpo clínico de hospitais como São Luiz, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Hospital Alemão Oswaldo Cruz, quando uma célula humana saudável se divide para formar duas células idênticas, um pequeno pedaço de DNA é raspado da ponta de cada cromossomo, de modo que os telômeros se tornam gradualmente mais curtos a cada divisão. “Os pesquisadores sabem há décadas que o encurtamento dos telômeros desencadeia a senescência em células cultivadas em laboratório, mas eles só podiam supor que o dano ao DNA nos telômeros poderia transformar as células em zumbis. Usando células humanas cultivadas, os pesquisadores descobriram que os danos nos telômeros levaram as células a um estado de zumbi depois de apenas quatro dias - muito mais rápido do que as semanas ou meses de repetidas divisões celulares que são necessárias para induzir a senescência pelo encurtamento dos telômeros. Luz solar, álcool, tabagismo, má alimentação e tudo aquilo que gera moléculas reativas de oxigênio e inflamação também danifica o DNA. As células têm vias de reparo para corrigir lesões de DNA, mas os telômeros são ‘extremamente sensíveis’ ao dano oxidativo. Os pesquisadores descobriram que os danos nos telômeros interromperam a replicação do DNA e induziram vias de sinalização de estresse que levaram à senescência”, explica a médica. Isso acontece em todo o corpo, segundo a especialista.

Agora que esse mecanismo foi esclarecido, a ciência começa a pensar em testar intervenções para prevenir a senescência. Medicamentos chamados senolíticos podem ser criados com a intenção de fazer uma varredura nas células-zumbi. “Pesquisadores também estudam maneiras de direcionar antioxidantes para os telômeros para protegê-los do dano oxidativo”, acrescenta a Dra. Caroline. “O que temos de mais efetivo hoje não é direcionado, mas é sistêmico e conseguido por meio da melhora dos hábitos de vida; a prática de exercícios físicos estimula nossa capacidade antioxidante para atuar contra os danos da oxidação celular; existem muitos alimentos, como frutas, legumes, verduras, especiarias e chás que têm polifenois, substâncias consideradas antioxidantes de primeira linha, combatentes de radicais livres e do dano oxidativo. Ao mesmo tempo, afastar-se de vícios como tabagismo e álcool, promotores de radicais livres, e manter bons hábitos de sono, que consegue reparar o corpo da melhor forma, são tarefas indicadas. Dessa forma, podemos reduzir o acúmulo de células-zumbis, que contribuem para doenças degenerativas, e podemos promover a ‘expansão de saúde’, apostando em uma longevidade saudável”, finaliza a médica.

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*DRA. CAROLINE REIGADA: Médica nefrologista formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro, com residência médica na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e residência em Nefrologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a médica participa periodicamente de cursos e congressos, além de ter publicado uma série de trabalhos científicos premiados. Participou do curso “The Brigham Renal Board Review Course” em Harvard. Integra o corpo clínico de hospitais como São Luiz, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Instagram: @dracaroline.reigada.nefro

 

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