Poluição pode causar infertilidade, doenças metabólicas e de pele

A poluição não está somente no ar, ela também pode ser encontrada na água, nos alimentos (com os agrotóxicos) e, também, nos produtos químicos


Combater a poluição deve ser um compromisso de todos, uma vez que são vários os danos no organismo

São Paulo – 25/07/2022 - Ninguém está imune à poluição, segundo alerta recente da Organização Mundial da Saúde (OMS): os níveis de poluentes estão tão altos que 99% da população respira ar que excede os limites de qualidade definidos pelo órgão. Mas a poluição não está somente no ar, ela também pode ser encontrada na água, nos alimentos (com os agrotóxicos) e, também, nos produtos químicos (cosméticos, produtos de limpeza e plásticos), os chamados desreguladores ou disruptores endócrinos – que podem afetar as funções hormonais e metabólicas do organismo, predispondo o aparecimento de diversas disfunções. “Todas podem causar impactos negativos à saúde da população e do ambiente. O problema se agrava nos países em desenvolvimento, como o Brasil, onde muitas vezes a legislação ambiental é deficiente, aliada à falta de infraestrutura de saneamento básico nesses países, que agrava o cenário”, explica a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez*, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). O contato com a poluição traz diversos danos à saúde, comprometendo não só o pulmão, ao causar doenças respiratórias, mas também sendo responsável por uma cascata de danos, que acometem o coração e os rins, causa doenças metabólicas e infertilidade, e – além disso – mesmo se desconsiderarmos a poluição que inalamos, o próprio contato dela com a pele já é o suficiente para causar problemas cutâneos. Abaixo, consultamos especialistas para explicar mais sobre os problemas:

Danos ao coração: Em 2018, um estudo científico da revista Circulation, da Associação Americana do Coração, fez um alerta preocupante: a poluição do ar foi responsável por cerca de 3,3 milhões de mortes no mundo decorrentes de doenças cardiovasculares em 2016 – esse número supera o de óbitos atribuídos a problemas crônicos, como tabagismo (2,48 milhões), obesidade (2,85 milhões) e diabetes (2,84 milhões). Segundo o trabalho científico, a poluição do ar é uma mistura complexa de poluentes que gera doenças cardiovasculares por diversas vias. O material particulado 2.5 (PM 2.5), menor que 2,5 micrômetros, ou seja, trinta vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano, por exemplo, é considerado um fator de risco cardiovascular, uma vez que viaja até o pulmão desencadeando uma cascata de efeitos fisiológicos, de forma que as micropartículas se alojam no sangue, causando inflamação e estresse oxidativo sistêmico, com risco de aumento da vasoconstrição, pressão arterial, frequência cardíaca e resistência à insulina. Suas micropartículas provêm de usinas elétricas, fábricas e veículos, ou seja, a poeira, a queima de combustíveis e os veículos automotores são as principais fontes desse tipo de poluente.

Problemas renais: O aumento da temperatura global, cujo principal responsável é a poluição, está contribuindo para maior número de casos de doenças renais, um problema que vem aumentando e tende a crescer ainda mais nos próximos anos caso não haja uma redução dos níveis da poluição, segundo a médica nefrologista Dra. Caroline Reigada*, especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira. “A sudorese induzida pelo calor e a consequente desidratação predispõem ao maior risco de desenvolvimento de doenças renais. Além disso, à medida que as temperaturas da superfície global continuam a aumentar devido à atividade humana, os impactos adversos são agravados para as pessoas que já têm doenças renais”, explica a Dra. Caroline  “Essa população é mais vulnerável à exposição ao calor e desidratação e aumento do risco de cálculos renais e lesão renal aguda. A má qualidade do ar também está associada à insuficiência renal crônica progressiva”, completa a médica nefrologista.

Doenças metabólicas: Segundo a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, um poluente pode ter vários tipos de ações e, dependendo do composto químico, ele terá diferentes impactos nas atividades hormonais ou metabólicas de acordo com o órgão alvo. “Vários estudos têm associado esse composto com alterações em nosso sistema reprodutivo, aumento do risco de obesidade, neoplasias e outras disfunções. Alguns destes compostos afetam a microbiota do indivíduo e acarretam disfunções metabólicas”, conta a médica.

Infertilidade: Com anos de exposição, os agentes ambientais tóxicos, substâncias nocivas (produtos químicos, metais e poluentes) encontradas na água, ar, solo, alimentos e produtos de consumo, podem se acumular e causar mudanças em seu corpo. “Agentes ambientais tóxicos podem afetar a fertilidade alterando os hormônios e o ciclo menstrual de uma mulher, interferindo na qualidade do espermatozoide ou causando alterações no desenvolvimento de um feto ou uma criança. Alguns agentes podem passar de uma mulher grávida para o feto e podem levar a mutações genéticas”, explica o Dr. Rodrigo Rosa*, especialista em reprodução humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e sócio-fundador do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. Um dos poluentes com efeitos mais danosos à fertilidade também é o material particulado 2.5 (PM 2.5), “Segundo estudos, a exposição gestacional a partículas finas (PM 2.5) de poluentes esteve associada a um aumento da probabilidade de perda da gravidez em diversas regiões do mundo. Além disso, homens e mulheres que trabalham ao ar livre (agentes de trânsito, taxistas, motoristas de ônibus etc.) em cidades grandes têm maior dificuldade em engravidar”, diz o Dr. Rodrigo.

Envelhecimento e alergias de pele: Segundo a dermatologista Dra. Paola Pomerantzeff*, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, diversos estudos epidemiológicos mostram o impacto da poluição na pele, principalmente por conta de partículas e micropartículas que causam diversos danos e inflamação. “Esses processos podem levar ao aumento de doenças cutâneas inflamatórias como acne, dermatites e psoríase, degradação do colágeno e envelhecimento da pele. O sabonete comum consegue eliminar as partículas maiores de poluição, no entanto as menores são capazes de adentrar os poros e causar danos. Por esse motivo, é fundamental incluir o uso de substâncias antioxidantes e antipoluição na rotina de beleza, especialmente no caso de pessoas que moram em grandes centros urbanos, metrópoles e megalópoles”, destaca a dermatologista Dra. Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Rugas, manchas, olheiras e flacidez são só mais alguns dos problemas que os poluentes podem causar. Segundo a médica, um grande problema mundial tem sido encontrar um meio de evitar as micropartículas – mais o uma vez o perigo é o PM 2.5. “Seu potencial irritativo para a pele é gigante: elas contêm fortes agentes que se depositam na pele, causando danos à barreira cutânea, formação de radicais livres e envelhecimento celular”, conta a Dra. Paola.

Para minimizar os impactos dos desreguladores endócrinos, a Dra. Marcella explica que é necessário: preferir alimentos cultivados sem agrotóxicos; evitar alimentos embalados em plásticos com policarbonato A (essa informação está no rótulo); não colocar potes plásticos no micro-ondas, nem em contato com alimentos e líquidos aquecidos, que não sejam indicados para isso, pelo fabricante; não comprar mamadeiras que não tenham selo do Inmetro; não comprar embalagens em mau estado e latas amassadas, pois toxinas podem entrar em contato com os alimentos. “Para se proteger, uma dieta equilibrada, variada e o mais natural possível é sempre o melhor caminho, dando preferência aos alimentos de cultivo orgânico, evitando o consumo de alimentos ultraprocessados e o excesso de embalagens e recipientes plásticos”, conta a médica nutróloga. Os hábitos saudáveis também minimizam o impacto da poluição no coração e nos rins, segundo a Dra. Caroline. “Para prevenção de doenças renais, além de aumentar o consumo de água e ter uma alimentação saudável, é importante visitar um médico de confiança regularmente para detecção precoce e intervenção de doenças renais genéticas e comorbidades como hipertensão e diabetes”, conta.

Combater a poluição é um compromisso de todos, mas quando o assunto é fertilidade você deve estar ciente de que o que você come, onde você mora e seu ambiente de trabalho podem afetar sua exposição a agentes ambientais tóxicos. “Alguns tipos de exposição estão fora de seu controle. Para limitar a exposição que você pode controlar, comece registrando o que você come, produtos de limpeza que usa e produtos químicos ao seu redor. Leia os avisos do rótulo, procure aconselhamento sobre possíveis efeitos e pense nas mudanças que você pode fazer para reduzir sua exposição”, diz o Dr. Rodrigo Rosa. “Um estilo de vida saudável, adotando uma alimentação balanceada, dormindo bem e praticando exercícios físicos com regularidade, é a melhor maneira de manter o bom funcionamento do organismo e assim melhorar a fertilidade e as chances de sucesso na gravidez. E, sempre que um casal tem dificuldade para engravidar após um ano de tentativa, o melhor a fazer é buscar ajuda de um médico de Reprodução Humana”, diz o médico.

Com relação à pele, por fim, existem cosméticos com ativos antipoluição. Eles podem ter diversos mecanismos, geralmente de reparação, e algumas substâncias são incorporadas a filtros solares, justamente porque ajudam a formar um filme de proteção sobre a pele, impedindo a penetração das micropartículas, explica a dermatologista Dra. Paola. Um exemplo é o ativo antipoluição Exo-P, um polissacarídeo altamente purificado de um micro-organismo da Polinésia Francesa e que pode ser manipulado em sabonete, espuma, fluido de limpeza, cremes e séruns anti-idade ou antioxidantes. “Exo-P é um antipoluente que reduz a adesão das PM 2.5, além de ‘sequestrar’ metais pesados. Além disso, o ativo reduz a atividade dos radicais livres, protege a pele e a integridade celular contra os poluentes, inclusive fumaça de cigarro. A concentração de 1% do ativo é suficiente, com uso preferencialmente noturno ou conforme orientação médica”, finaliza Maria Eugênia Ayres*, farmacêutica e gestora técnica da Biotec Dermocosméticos.

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*DRA. CAROLINE REIGADA: Médica nefrologista formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro, com residência médica na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e residência em Nefrologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a médica participa periodicamente de cursos e congressos, além de ter publicado uma série de trabalhos científicos premiados. Participou do curso “The Brigham Renal Board Review Course” em Harvard. Integra o corpo clínico de hospitais como São Luiz, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Instagram: @dracaroline.reigada.nefro
*DRA. PAOLA POMERANTZEFF: Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), tem mais de 10 anos de atuação em Dermatologia Clínica. Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina Santo Amaro, a médica é especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, e participa periodicamente de Congressos, Jornadas e Simpósios nacionais e internacionais. Instagram: @drapaoladermatologista
*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica Nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRMPR, Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. Instagram: @dra.marcellagarcez
*DR. RODRIGO ROSA: Ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. Membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), o médico é graduado pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Especialista em reprodução humana, o médico é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Instagram: @dr.rodrigorosa
*MARIA EUGENIA AYRES: Graduada em Farmácia Industrial pela Faculdade Oswaldo Cruz com Pós-Graduação em Farmacologia Clínica. Atua no Setor Magistral desde 2000 onde atualmente é Gestora Técnica da Biotec. CRF 33.424.

 

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