Lipoenxertia: investigamos se a transferência de gordura vale a pena

Temos uma relação muito curiosa com a gordura. Em certos lugares, não suportamos ter um centímetro a mais, e em outros, lamentamos uma vez que se foi.


Grande parte da gordura injetada permanece no corpo, diferentemente de outros procedimentos injetáveis que são completamente absorvidos após um período de 6 a 12 meses; não é só isso: a gordura é rica em células-tronco e ajuda a rejuvenescer. E tem mais: ela trata a dor (enxaqueca inclusive)

São Paulo – maio de 2022 - Temos uma relação muito curiosa com a gordura. Em certos lugares, não suportamos ter um centímetro a mais, e em outros, lamentamos uma vez que se foi. As bochechas são um exemplo: só quem já emagreceu demais ou já passou dos quarenta sabe o quanto a gordurinha ali faz falta – o rosto torna-se mais envelhecido. “Em nossa face, possuímos coxins gordurosos que perdemos com o envelhecimento. Eles funcionam como um arcabouço, dando estrutura, volume e sustentação para o rosto. Então é perfeitamente compreensível que pessoas que perderam essa estrutura, por idade ou por um emagrecimento rápido (lembrando que perdemos gordura no corpo todo, inclusive no rosto), queiram buscar métodos de repor o volume perdido, a fim de tratar o aspecto envelhecido”, explica o Dr. Paolo Rubez*, cirurgião plástico, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. “Geralmente são utilizados injetáveis como ácido hialurônico e bioestimuladores de colágeno para essa finalidade, mas a melhor opção ainda é a lipoenxertia, a injeção da gordura tratada do próprio paciente”, acrescenta o médico.

Não há benefícios apenas quando aplicamos no rosto. Embora possamos não querer gordura corporal extra em torno de nossas cinturas, para remodelar os seios e o bumbum, um pouco de gordura pode ajudar. “As transferências de gordura autóloga, ou seja, do próprio paciente, não têm risco de rejeição e oferecem um preenchimento totalmente natural, que realmente dura”, explica o médico. Abaixo, tudo que você precisa saber do procedimento:

Tudo começa com uma ‘lipo’

Uma transferência de gordura envolve a retirada de tecido adiposo de uma parte do corpo e redistribuição para outra. “Pense em uma transferência de gordura como o procedimento “Robin Hood” do mundo cosmético, roubando áreas ricas em gordura de nossos corpos para dar aos pobres. Simplificando, a gordura é removida por lipoaspiração de áreas onde não é desejada e, em seguida, tratada e 'colhida' para ser usada para esculpir áreas que podem ter deficiência de volume”, diz o Dr. Paolo. “Através de pequenas agulhas, injetamos a gordura no local desejado, em um procedimento que é feito, quando necessário, sob anestesia local, sendo assim livre de dor ou desconforto”, explica. “Mesmo sabendo que cerca de 50% do material enxertado pode ser absorvido pelo organismo, a quantidade restante é repleta de células-tronco capazes de melhorar a qualidade e o aspecto da pele”, afirma o cirurgião plástico.

Áreas-alvo

Rosto, seios, glúteos, mãos e coxas são áreas mais comumente injetadas com gordura para rejuvenescimento ou para adicionar volume. “No geral, os enxertos de gordura facial tendem a ter uma taxa de aceitação mais alta do que as transferências feitas no corpo”, diz o médico. “No rosto, a gordura é considerada um preenchimento orgânico. Podemos adicionar gordura em áreas de depressão, como a área temporal, bochechas, sulcos nasolabiais, linhas de marionete e, às vezes, no próprio lábio ”, diz o médico. “Com relação ao seio, a mamoplastia de aumento pode ser realizada com transferência de gordura natural para um aumento muito sutil no tamanho do seio. Também pode ser particularmente útil corrigir a assimetria leve da mama. Mas o volume não é, obviamente, comparável ao implante de silicone”, explica.

Nas mãos, a gordura é eficaz para o rejuvenescimento das mãos com aparência natural, especialmente em pacientes mais velhos quando a gordura se atrofia, deixando uma aparência fina, com veias e tendões evidentes. Segundo o Dr. Paolo, a gordura injetada nas mãos resulta na redução da flacidez da pele e torna as veias superficiais menos visíveis.

Nos glúteos, o procedimento é controverso. “Há um risco de embolia gordurosa que pode levar à morte. Esse é um procedimento proibido em alguns países, como Reino Unido, e feito com mais frequência nos Estados Unidos; lá é chamado de Brazilian Butt Lift e tem o objetivo de contornar o quadril”, explica o médico. A lipoenxertia ainda pode incluir o abdômen ou as coxas para corrigir defeitos de contorno causados por cirurgias anteriores, como lipoaspiração, remoção de câncer ou trauma.

No campo do tratamento de dores crônicas e enxaqueca, ela tem bons usos. “Vários benefícios dos tratamentos com enxerto de gordura já foram publicados – e muitos deles para a dor. Um estudo, de março de 2019 (Therapeutic Role of Fat Injection in the Treatment of Recalcitrant Migraine Headaches), publicado no Plastic and Reconstructive Surgery Journal, concluiu que os sintomas da enxaqueca foram reduzidos com sucesso na maioria dos casos com injeção de gordura. O tratamento feito realizado em pacientes que persistiam com alguma dor após a cirurgia de descompressão de nervos. Diferentes moléculas secretadas por células-tronco do tecido adiposo apresentam um efeito anti-inflamatório, melhorando a regeneração dos nervos, levando ao sucesso do resultado clínico. A dor foi melhorada em 7 de 9 pacientes no seguimento de 3 meses, segundo estudos”, diz o Dr. Paolo Rubez. A lipoenxertia foi apontada, em um estudo publicado em 2019 no Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open, como um tratamento de resultados promissores no caso de dores neuropáticas. “Nos últimos anos, os cirurgiões exploraram vários caminhos cirúrgicos para melhorar os resultados. E um deles tem relação com a lipoenxertia (enxerto de gordura), que vem sendo usada para aliviar os sintomas da dor neuropática”, afirma o cirurgião plástico Dr. Paolo Rubez. De acordo com o médico, o mecanismo preciso do papel da lipoenxertia na modulação da dor neuropática ainda não está claro. “A teoria mais aceita é de que há uma redução dos níveis de dor através dos efeitos anti-inflamatórios e de regeneração tecidual das células-tronco derivadas do tecido adiposo”, diz o médico.

Quanto de gordura permanece?

A quantidade de gordura que permanece no corpo é altamente dependente da anatomia do paciente, bem como da técnica e experiência específica do cirurgião. “Geralmente, 30 a 50% da gordura injetada permanecerá. Alguns pacientes se beneficiarão de uma segunda sessão”, diz o médico. “Muitos pacientes nos quais fiz enxerto de gordura para o rosto voltam muitos anos depois com perda mínima de gordura”, completa. Segundo o médico, a ‘fixação permanente’ da gordura é algo que conseguimos ver após seis meses. “Depois desse período, as células de gordura que permanecem devem continuar a longo prazo. Devemos pensar na transferência de gordura mais como um processo regenerativo do que uma simples injeção. Não pense em quanto tempo a gordura permanece no corpo em termos de duração ou quanto permanece em termos de porcentagem ou volume, porque não é só essa a questão”, explica ele. “Além de 'adipócitos', ou células de gordura maduras, a gordura também contém outros elementos importantes, como células-tronco, células precursoras ou progenitoras que eventualmente crescem e se tornam células de gordura totalmente formadas, fibroblastos, vasos sanguíneos microscópicos, e as próprias fibras - todas as quais parecem desempenhar seus próprios papéis nesse processo regenerativo e rejuvenescedor”, conta o médico.

Descobertas relatadas em um estudo no Plastic and Reconstructive Surgery Global Open  afirmam que, com a transferência de gordura, a presença de novo suprimento sanguíneo, crescimento celular, teor de fibras e outras coisas associadas à gordura são observadas na pele por volta dos seis meses, e estas mudanças parecem ser de longa data. “Isso significa que a gordura injetada continua a criar um novo crescimento de tecido após ter sido injetada, o que parece ser um tecido regenerado vivo e funcionando normalmente. Embora a transferência de gordura passe por um processo de reabsorção, o percentual de reabsorção pode variar de paciente para paciente, de procedimento para procedimento e do local da enxertia. No entanto, normalmente a parte restante da transferência de gordura pode durar para sempre”, diz o médico.

Pequenos ajustes

Alguns dispositivos e técnicas permitem que os médicos dividam a gordura em porções menores para criar injeções de “nanogorduras”. “Podemos então injetar usando uma agulha de calibre 30, que é a mesma agulha que usamos para injetar toxina botulínica. Dessa forma, ela ainda ajuda a rejuvenescer e esculpir áreas do corpo, como ajudar a corrigir os recortes das alças do sutiã para pacientes com seios maiores”, diz o médico.

Por fim, o cirurgião destaca que a lipoenxertia tem se mostrado minimamente invasiva com poucos riscos, de fácil execução, além de um procedimento seguro, tolerável e eficaz no tratamento do envelhecimento da pele, da redução ou eliminação completa da neuropatia persistente e da enxaqueca. “Esta técnica demonstrou melhora significativa de sintomas, permitindo uma melhora importante da qualidade de vida com menos efeitos colaterais de drogas”, explica o médico. “Mas sempre procure um médico”, finaliza.

*DR. PAOLO RUBEZ: Cirurgião plástico formado pela UNIFESP, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (ASPS), Dr. Paolo Rubez é Mestre em Cirurgia Plástica pela Escola Paulista de Medicina da UNIFESP. O médico tem 7 Observerships com o Dr. Bahman Guyuron em Cirurgias Plásticas Faciais, em Cleveland – EUA.. Instagram: @drpaolorubez

 

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