Graffiti contra Enchente reúne comunidade para pré-estreia de documentário

Eles começaram a chegar cedo. O hip-hop dos porta-malas de carros surrados domina a quebrada, ao lado do Córrego Pirajussara – paisagem e ameaça constante dos moradores de Taboão da Serra. Nesse sábado, dia 04, eles estavam unidos à espera de um documentário que contaria sua própria história. Momento de assistir a uma gente que disse não à água barrenta da enchente. Um não em forma de luz, cor, som e movimento. É o Graffiti Contra Enchente contando sua história.

Eles começaram a chegar cedo. O hip-hop dos porta-malas de carros surrados domina a quebrada, ao lado do Córrego Pirajussara – paisagem e ameaça constante dos moradores de Taboão da Serra. Nesse sábado, dia 04, eles estavam unidos à espera de um documentário que contaria sua própria história. Momento de assistir a uma gente que disse não à água barrenta da enchente. Um não em forma de luz, cor, som e movimento. É o Graffiti Contra Enchente contando sua história.

Essa sinfonia tem um maestro que dorme e acorda olhando para o córrego. Da sacada de onde mora a sua família – uma espécie de centro de referência cultural da cidade - ele avista diariamente o córrego maltratado, feio e rabugento. O nome é Gamão e não há quem não o conheça. O visual agressivo não consegue esconder a alma solidária que só os grandes líderes cultivam. Ele dá bom dia e boa noite para o Pirajussara, mas não se curva... olha tudo de cima.

Eles chegam junto com o sol, a partir das 7h da manhã, ocupando pedaços de um muro marrom como a lama, prestes a se transformar em um afresco urbano dos mais diversos. @maestrografite desenha o que vem a mente, não planeja nada. @curioartes parte de uma foto que viu na internet e acrescenta seu toque, suas cores. @image_erc cria pinups negras com olhos de mangá.

O mesmo Pirajussara dá uma trégua naquele dia lindo e especialmente solar. Parece fingir que não é sobre ele o que pintam, que não é sobre seus transbordamentos que falam e cantam aqueles artistas. Ele simplesmente segue o seu curso, enquanto gente de outras quebradas (da zona leste e até do interior), vai chegando para dizer ao córrego como se sentem.

@frankgraffit pinta um conjunto de letras estilizadas coloridas e ali, como que escondido, um certo ‘K’. É o nome de Kethy sua filha e inspiração, hoje com 19 anos, a quem o grafiteiro prometeu homenagear a cada intervenção. @megazbangjump é empresário que venceu apesar de tudo e todos. Seu hobbie é procurar portas metálicas de imóveis para deixar seu nome gravado em letras grafadas em tons de rosa.

Um peixe protegido com máscara de oxigênio diante de lixo ameaçador chega com a marca de @leoramos037 e @paulozits. Já @alemao_stencil optou por um lindo pássaro azul, enquanto @tufones compõe a imagem estilizada de um amigo morador do Taboão da Serra, sobre um mosaico de símbolos.

O rango chega graças a um comerciante cuja fachada foi grafitada com as marcas do que vende. Pelos bairros que sofrem com as enchentes, é o grafitti o responsável por dar forma aos negócios. É a linguagem visual predominante, que todos conseguem ler, assimilar... É do grafitti a marca da prosperidade e o grito por um amanhã melhor.

@garcianalata aponta o spray para o alto, paralelamente à parede e cria ondas psicodélicas, salpicadas por gotas de tinta branca, onde nada uma baleia com barbatanas infinitas. @pauloterraartes usa o compressor para dar forma a um carro, enquanto @edyhp.arte com o pincel retoca detalhes geométricos. E por falar em geometria, causa espanto como @jorge_bts consegue riscar com spray seus primeiros contornos, exatos como uma planta arquitetônica.

Cai o dia e o sol escaldante dá lugar à sombra e a noite mais fresca. Diante de um muro da escola convertido em tela de cinema as pessoas vão chegando, sentando porque o filme vai começar. Momento de rever os seis anos que separam aquela tarde da pior enchente da história da cidade, em 2014. Momento de lembrar como foi importante resistir.

Moradores dos bairros Jd. Silvio Sampaio, Jd Leme, Trianon, Jd Clementino, Parque Pirajussara, Parabá e do centro de Taboão da Serra viram seu patrimônio, seus sonhos e até suas vidas em meio às enxurradas. O vídeo lembra que o córrego está prestes a derramar sua lama, caso o lixo continue nas suas margens e bueiros. Caso o poder público não cumpra suas eternas promessas.

Essa inércia levou Gamão e sua trupe às ruas, aos muros e, da quebrada, eles ganharam o mundo. Em cinco edições, o Grafitti contra a enchente já reuniu mais de 2000 grafiteiros do Brasil e da América Latina, Japão, EUA, Alemanha, mais de 50 grupos musicais e um sem-número de manifestações culturais (teatro, poesia, atividade com crianças etc).

Com a Pandemia do Covid 19, ainda não foi possível repetir o evento no seu formato tradicional. O pré-lançamento do documentário, aconteceu em versão pocket, evitando aglomerações. Entretanto, novos temas chamam a atenção desses artistas. A violência contra a mulher, por exemplo, acabou alcançando outra dimensão, com o isolamento. É preciso quebrar esse silêncio e os muros não se calarão

Mesmo assim esses artistas deixaram naquele muro um recado para o Pirajussara, para os governos e para todos os que tem olhos para ver. É preciso cor para mudar o mundo. E a periferia segue na resistência, com foi em 2014, como foi nesse dia 04, como sempre será. 

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