Maçãs envenenadas

Em O Processo, Kafka começa assim a história de Josef K.: “Alguém devia ter caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito nada de mal”. Bancário competente, o personagem ascendia na carreira quando se vê em inusitada situação; é acusado, não dizem sua culpa, não recebe um olhar, nem atenção e nem palavras, enquanto mergulha numa burocracia muda e no tribunal atordoante cujo chefe fica na escuridão.

Por: Hilda Simões Lopes (*)

Em O Processo, Kafka começa assim a história de Josef K.: “Alguém devia ter caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito nada de mal”. Bancário competente, o personagem ascendia na carreira quando se vê em inusitada situação; é acusado, não dizem sua culpa, não recebe um olhar, nem atenção e nem palavras, enquanto mergulha numa burocracia muda e no tribunal atordoante cujo chefe fica na escuridão. A situação desumana e injusta é relatada de modo massacrante, o leitor também não enxerga a realidade com clareza, e, como Josef, vai imerso nas brumas. Perdido no desespero, Josef K. pede para morrer. 

Vivendo em nação autoritária, Kafka simboliza nessa obra os abusos sufocantes da burocracia e da corrupção. Em nossos dias, a ceifa atinge patamares mais complexos. As maçãs da Branca de Neve – envenenadas para tirar do caminho quem é invejado, quem se quer submisso ou sumido, ou quem pessoas sádicas e doentias anseiam em massacrar - são distribuídas com fartura. Assim é dentro de empresas, instituições e grupos de trabalho, em escolas e universidades, nas famílias e entre companheiros de toda ordem; onde há várias pessoas atuando, pode haver algumas adoecendo - e não percebendo - por serem abusadas e sofrerem as dores emocionais e físicas da violência subterrânea; a qual, sendo sutil e escamoteada tende a ser pior do que a explícita.

À semelhança do personagem kafkiano, as vítimas de abusos emocionais são dominadas pelo predador com silêncios opressores e nunca explicados, olhares irônicos, palavras enviesadas, gestos de descaso; a violência é invisível e as vítimas são fragilizadas pelo veneno nelas inoculado. Se questionado, o abusador diz nada haver, e acusa: o outro inventa o inexistente, é um desequilibrado. A vítima sente-se culpada e vai se fragilizando, vem a angústia, as palpitações e a falta de ar, as vertigens, começam os remédios, a depressão e os médicos, às vezes o hospital.

Nas relações privadas e profissionais, muita gente adoece emocionalmente e cria doenças físicas, algumas chegando à morte e outras se suicidando, por terem as emoções envenenadas por alguém próximo. É difícil a pessoa abusada perceber a relação tóxica, afinal, pessoas perversas são hábeis em mascarar as atitudes.

A armadilha predileta de abusadores é inverter a situação, fazendo a vítima sentir-se algoz. Reclamando e se auto vitimizando, eles se queixam da verdadeira vítima dizendo-a transtornada.

Por que é assim?

Vivemos a Barbárie Civilizada, onde a competição é cruel e desmedida, cercados por guerras militares, culturais e políticas (a reflexão do estadista foi substituída pelos gritos panfletários da ignorância), onde ódio e crueldade são disseminados por tecnologias e redes sociais. Tal realidade é temperada por valores escorregadios e de espetáculo, onde ser verdadeiro é ser “babaca” e ser enganador é ser “esperto”; a maioria das relações são “instrumentais” num meio onde amigos são buscados como instrumento para alcance de poder, de mais ter e de mais aparecer. Morte e vida viraram coisas banais, e mentira e corrupção entronaram-se nos poderes e ensaiam coroar-se.

Hoje, há muitos Josefs K. arrastando-se por cenários cruéis, confusos e depressivos onde o meio esquece a dignidade humana e dissemina a pessoa-mercadoria. Palavras veladas, falsidade, inversão de valores e manipulações afiadas devastam, e as pessoas sofrem encaixotando seus sonhos.

Costumamos chamar os sofrimentos absurdos de “kafkianos”. Agora, porém, sejamos honestos: Josef K., o personagem de Kafka, comparado ao viver nessa incrível era do silício e do algoritmo, mais parece um aprendiz em preparo à vida num mundo pantanoso. Porque de mundos pantanosos, quem entende somos nós.

(*) Hilda Simões Lopes - Bacharel em Direito, Mestre em Sociologia, pesquisadora e professora universitária. Tendo cursado a Oficina de Criação Literária da PUC/RS, passou a coordenar Oficinas Literárias das quais se originaram centenas de escritores do extremo sul, alguns deles tendo recebido importantes prêmios, como o Prêmio Açorianos de Literatura pelo romance “A superfície das águas”, e foi finalista no mesmo prêmio com o livro de crônicas “Cuba casa de boleros”. Coautora em livros de contos e poesias, também publicou dois ensaios de sociologia: “Senhoras e senhoritas”, “gatas e gatinhas”, sobre a evolução do papel da mulher na sociedade, e do abandono à delinquência, uma análise originária de trabalho científico sobre menores de conduta desvio no DF. Além de um “Manual de criação literária”, é autora do livro de contos “Expulsão”, da novela “Um silêncio azul”, dos romances “A anatomia de Amanda” e “Tuiatã”. Sua mais recente obra é “A Maçã da Rainha Má”, que trata de relacionamentos tóxicos e abusos.

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