Apagaram-se as luzes, perdi o show

DO TEXTO: Os olhos do cantor loirinho Roberto Leal que tantas alegrias me deu na adolescência se fecharam em 15 de setembro de 2019.

Meu pai só gostava de músicas sertanejas, mas quando o cantor Roberto Leal aparecia na TV, ele me chamava para assisti-lo e ficava ouvindo junto.



Por: Celina Moraes*


Meu pai só gostava de músicas sertanejas, mas quando o cantor Roberto Leal aparecia na TV, ele me chamava para assisti-lo e ficava ouvindo junto. Ele sabia que aquele loirinho era o ídolo da filha de 15 anos. Numa época sem Internet e YouTube, eu dependia da TV para ver meu cantor predileto e das rádios para ouvir suas músicas. Seus discos me inspiraram a criar diários e a sonhar com o amor. Um dia lhe escrevi uma carta. A resposta veio rápida e com uma foto autografada. 


Aos 17 anos, mudei-me para São Paulo. Estaria mais perto do ídolo, mas continuei o vendo só pela TV e ouvindo suas músicas pelas rádios, porque assistir a um show para mim era um luxo na época. O tempo passou e substituí o ídolo da adolescência por outros da minha juventude. As décadas passaram e ao passar de meio século de vida, eu tive uma crise de flashback. Mergulhei nas profundezas do tempo e na descida encontrei algumas frustrações e tristezas que deixei no fundo do mar do passado onde já estavam naufragadas. Para a superfície, resgatei alguns tesouros, como a paixão pelo ídolo dos 15 anos.


O ano era 2017 e, na ânsia de dar vida a desejos antigos, decidi assistir a um show do cantor. 365 dias voaram. Adiei o desejo para 2018. Mais um ano voou e veio 2019. Prometi que daquele ano não passaria. Eu estava certa. Jamais passaria de 2019. Um dia, olhando mensagens no celular, uma notícia me paralisou. A vida tinha me dado uma rasteira por ter me esquecido do hoje e confiado no amanhã. Os olhos do cantor loirinho Roberto Leal que tantas alegrias me deu na adolescência se fecharam em 15 de setembro de 2019. Não o vi e jamais o verei num palco. Restou a imortalidade do ídolo.


Eu não sabia da luta do cantor contra o câncer. Mas sabia que a morte é a realidade da vida. No vídeo de seu último show, Roberto Leal disse que jamais se imaginou cantando sentado e eu que sempre me imaginei aplaudindo-o de pé. Um ano após sua morte, o consolo é a foto autografada emoldurada e os vídeos no YouTube.


Os sonhos são os combustíveis da vida. Existem aqueles sonhos mais singelos e acessíveis de curto prazo e os grandes de longo prazo. Não importa o tamanho e o tempo de um sonho, o importante é não se iludir com mais 365 dias de um ano vindouro para dirigir alguns quilômetros rumo a uma casa de show ou para dar pequenos passos diários rumo aos grandes sonhos de longo prazo. A luz da vida do cantor se apagou. As músicas brilharão para sempre. Vira-vira! Arrebita! Aplausos ao show da vida!


(*) Formada em Letras, Celina Moraes é escritora e cronista. Autora dos romances “Jamais subestime os peões” e “Lugar cheio de rãs”, que foi vencedor do Prêmio “Lúcio Cardoso” em 2010 pelo 3º lugar no concurso internacional de literatura promovido União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ). Leia Mais sobre a autora...

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NOTA DA REDAÇÃO DO PORTAL SPLISH SPLASH
O Portal Splish Splash, como site luso-brasileiro, não podia ficar indiferente ao presente artigo de Celina Moraes, que muito nos sensibilizou. Por isso, decidimos aproveitar esta oportunidade para não só felicitar a autora por tão sentido texto, mas também para prestar aqui uma pequena mas significativa homenagem ao luso-brasileiro Roberto Leal, cuja obra fala por si. Paz à sua alma!
Criamos uma playlist com 27 temas de Roberto Leal que abaixo discriminamos:

Roberto Leal - Ai Verdinho! Meu Verdinho
Roberto Leal - Arrebita
Roberto Leal - As mocinhas da cidade
Roberto Leal - As Pernas Da Carolina
Roberto Leal - Bate com Fé
Roberto Leal - Bate o pé
Roberto Leal - Caninha Verde (1976)
Roberto Leal - Carimbó Português (1977)«
Roberto Leal - Dá cá um beijo
Roberto Leal - Fadinho da Ti Maria Benta
Roberto Leal - Gente da Minha Terra
Roberto Leal - Menina Faceira
Roberto Leal - Moreninha Linda
Roberto Leal - Na casa da Mariquinha
Roberto Leal - Na Casa de um Português
Roberto Leal - O Malhão
Roberto Leal - Roda Roda Vira
Roberto Leal - Terra da Maria
Roberto Leal - Tiro-Liro-Liro
Roberto Leal - Todas me Querem
Roberto Leal - Verde Gaio
Roberto Leal e Daniel - Vinho Verde
Roberto Leal e Elba Ramalho
Roberto Leal e Gilmelândia - De Jorge Amado a Pessoa
Roberto Leal e Joana - Só nós dois
Roberto Leal e Martinho da Vila - Chora Carolina
Roberto Leal e Quim Barreiros - Arrebenta a festa

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