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8/13/2020

Uma pandemia dentro da outra

Problema da obesidade afeta cerca de 700 milhões de pessoas no mundo

A Covid-19 está agravando outra doença de proporção mundial: a obesidade. O problema atinge 600 milhões de adultos no planeta e no Brasil mais da metade da população está acima do peso normal. Com a necessidade de isolamento, as pessoas estão se movimentando menos e comendo mais por ansiedade, médicos já prevêem um aumento da incidência da doença


Ainda sem vacina e com o mundo aprendendo a lidar com este “novo normal”, a Covid-19 está agravando uma outra pandemia: a da obesidade. A doença crônica atinge mundialmente mais de 600 milhões de adultos e 100 milhões de crianças, causando a morte de 4 milhões de pessoas todos os anos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, o problema já acomete um em cada cinco habitantes, sendo que mais da metade da população está acima do peso normal. Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) aponta que o número de obesos no País aumentou 67,8%, entre 2006 e 2018.

De acordo com o cirurgião gastro-robótico Adilon Cardoso (CRM GO 9616), o problema da obesidade ganha contornos ainda mais graves nos dias de hoje já que, além dos obesos representarem um dos principais grupos de risco da Covid-19, especialistas médicos já percebem e prevêem um surto de sobrepeso e obesidade pós-pandemia. “O que nós médicos percebemos no consultório é que o ganho de peso está acontecendo com as pessoas em casa, lidando com uma nova rotina em que se movimentam menos, se exercitam menos. A ansiedade também faz o indivíduo comer mais, e com mais tempo em casa a pessoa tem um acesso mais fácil ao alimento. Tudo isso irá trazer para pessoas um alto preço, que vai além da questão estética”, afirma o médico. O especialista afirma ainda que mesmo sem comer muito ou mantendo uma dieta saudável há o risco de ganho de peso. “Muitas vezes engorda-se mesmo sem comer mais somente por diminuir as atividade física”, lembra.

Conforme o médico Adilon Cardoso, apesar de não haver ainda estudos sistematizados que estimem o quanto a obesidade afetará as pessoas num cenário pós-pandemia da Covid-19, o impacto já é evidente. “Na mesma proporção em que se percebe que as doenças psicológicas, como a depressão, têm afetado fortemente as populações no mundo inteiro, a obesidade também está tendo e terá  um enorme impacto na saúde das pessoas, e junto com ela vêm todas as suas comorbidades como hipertensão, diabetes e apneia do sono”, frisa o especialista.

Qualidade do sono
O médico ressalta que toda vez que uma pessoa ganha uma certa quantidade de peso, além do que é ideal para seu organismo, isso resulta numa complicação. “A obesidade é uma doença crônica e progressiva. Num primeiro momento há o aumento da pressão arterial e a piora dos índices diabéticos. Depois vem os desgastes das articulações, afetando coluna, joelhos, quadris. E então temos problemas mais graves como risco de infarto, de AVC [Acidente Vascular Cerebral] e uma infinidade de doenças”, pontua.

Segundo o cirurgião gastro, um dos efeitos mais avassaladores da obesidade para o organismo humano é o comprometimento da qualidade do sono. “O paciente obeso tem sério risco de fazer apneia e com isso o corpo não tem uma ventilação adequada enquanto dorme e isso por sua vez leva a um cansaço crônico, um aumento progressivo da irritabilidade e outros problemas”, afirma.

Dicas
Mas mesmo com a necessidade de isolamento, Adilon Cardoso diz que é possível sim controlar o peso e combater a obesidade, desde que se haja disciplina para se ter hábitos alimentares saudáveis e criatividade para se manter um mínimo de atividade física dentro de casa.  “Uma primeira dica importante é fugir dos alimentos muito calóricos, como doces e frituras. Uma sugestão para evitar este alimentos é simplesmente não comprá-los, então repensa sua lista de supermercado e veja o que você consumido que é altamente calórico e pode ser eliminado. Outra dica importante é comer pequenas porções e numa maior frequência ao longo do dia, a cada duas ou três horas, mesmo nas principais refeições do dia, como café da manhã e almoço, tente reduzir a quantidade de comida, já que estamos nos movimentando menos, não há um gasto tão grande de energia, então precisamos de menos alimento”, explica.

Quanto a prática de exercício,  o médico Adilon Cardoso sugere alguns exercícios simples que podem ser feitos até sentado em frente à TV. “Sugiro muito para os meus pacientes o uso de elásticos para treino, que é um produto barato, se comparado com equipamentos típicos de exercício como esteira e bicicleta ergométrica, e proporciona um gasto calórico muito bom. Há exercícios que você pode fazer até sentado assistindo a um programa de TV e com 40 minutos de atividade com um elástico você pode gastar de 500 até 700 calorias. O que precisa ter é criatividade e disciplina para estar fazer esses exercícios mesmo em casa”, orienta o médico.

Atenção multidisciplinar
Adilon Cardoso explica que felizmente a obesidade tem sido alvo de amplos estudos no mundo todo e isso tem trazido novos e eficientes tratamentos para o combate dos diversos tipos de obesidade. Porém ele lembra que um tratamento isolado, seja clínico, cirúrgico ou medicamentoso, não irá solucionar o problema. Ele explica que a obesidade é uma doença que requer uma atenção multidisciplinar, envolvendo o trabalho coordenado de várias especialidades.

O especialista afirma que antigamente o entendimento das Sociedades e Associações médicas de Endocrinologia era de não aceitar a cirurgia bariátrica como tratamento contra a obesidade e as sociedades de cirurgia bariátrica tinham o entendimento de que o procedimento cirúrgico poderia curar definitivamente o problema.  Mas segundo o cirurgião este entendimento dos médicos mudou recentemente e o procedimento cirúrgico é hoje mais uma opção de tratamento contra a obesidade. “A partir do começo de 2019, a Sociedade Americana de Endocrinologia passou a aceitar a cirurgia bariátrica como mais uma das opção de tratamento. A partir de então passou-se para um consenso de que todos deveriam atuar junto. Os tratamentos cirúrgicos e clínicos são complementares um ao outro, pois o paciente que é operado não estará curado definitivamente e por isso precisará do acompanhamento do endocrinologista e muitos casos apenas o tratamento clínico não é suficiente”. 

O médico lembra ainda que hoje existem procedimentos cirúrgicos, em especial a cirurgia robótica, que são bem mais precisos e menos invasivos, que trazem resultado excelentes, mas ele alerta que mesmo com uma cirurgia bem feita, o paciente não pode deixar de reavaliar e mudar seus hábitos alimentares, mantendo uma rotina de atividade física. “Em relação à obesidade não existem milagres, há sim várias opções que precisam ser levadas em conta de acordo com o quadro do paciente, mas o sucesso de qualquer tratamento dependerá efetivamente da disciplina e da atenção da pessoa em relação a seu estilo de vida”, frisa.

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