ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

8/22/2020

As mentiras que os filhos contam


Por: Sueli Bravi Conte*

O limite é uma experiência afetiva que atinge tanto pais quanto filhos. Ninguém sai ileso e muitas vezes é difícil mesmo dizer um “não”. Sentimos pena, hesitamos e, às vezes, acabamos cedendo. A criança percebe tudo, inclusive nossa insegurança. Mas, nem por isso devemos deixar de impor limites. Frustrar é altamente saudável e, também, necessário para a constituição do ser humano. Ao mesmo tempo, a falta de limite é o pior estado de angústia. Ao estabelecer os limites é preciso sustentá-los com firmeza. 

À primeira vista essas afirmações podem parecer duras, mas são a pura verdade. Se você, pai ou mãe, concorda com as afirmativas acima, então está no caminho certo na tarefa de colocar limites nos filhos e possibilitar que eles respondam pelos próprios erros e comecem, assim, a construir sua autonomia. 

Não existe uma receita pronta que mostre como criar e educar os filhos. Atualmente é mais difícil do que parece. Precisamos saber que toda autoridade é construída pela palavra e é por meio dela que construímos as regras junto com os pequenos. Se eles são informados a respeito, é legítimo cobrá-los e exigir que as regras sejam respeitadas. Afinal, todo limite que você coloca para seu filho é para o bem dele e seu também. 

Em meio a tudo isso, há um processo que dificulta o respeito às regras: são as mentiras. Os pais ficam de cabelo em pé quando percebem que o filho está mentindo. A primeira reação é dar bronca, colocar de castigo e depois tentar uma conversa. Mas, qual seria a melhor reação dos pais quando descobrem uma mentira contada pelo filho? 

De início devemos saber que crianças de até cinco anos de idade não conseguem separar a fantasia do real. A imaginação faz parte do desenvolvimento normal da criança e é base para o pensamento lógico que o adulto tem. Com o passar dos anos, porém, a fantasia dá lugar à noção de realidade, sem desaparecer totalmente. 

A partir dos seis anos, a criança ainda brinca com a sua imaginação e cria situações que não são reais. Nesse período, as invenções já são bem menores. A mentira se torna algo intencional a partir dos sete anos, quando a criança já adquiriu noções de valores sociais e sabe exatamente a diferença entre verdade e mentira e quando ela, a mentira, pode prejudicar o outro. 

Normalmente, as crianças maiores mentem por temer repreensões e castigos, para fugir das suas responsabilidades ou chamar a atenção dos pais. Ou seja, uma criança vai mentir que está doente para não ir à escola, inventa que tem milhares de amigos no Facebook ou que fez uma viagem maravilhosa com os pais no fim de semana simplesmente para não ficar “por baixo” dos amiguinhos. 

Mesmo que a criança, desde pequena, ainda não saiba diferenciar a fantasia do real, os pais devem lhe mostrar o que é mentira e o que é fantasia. Se a criança na fase pré-escolar traz um material didático estranho e diz que a amiguinha lhe deu de presente, confirme se a história é mesmo real. Se não, diga à criança que aquilo não é seu e que não lhe foi dado, fazendo-a devolver para a colega. A criança inventou uma história, mas ainda não sabe distinguir o real da fantasia. Assim, a verdade precisa ser mostrada de maneira orientativa. 

Outro aspecto que precisa ser observado é que o exemplo dos pais pode levar as crianças a mentir. Se os pais mentem pedindo para o filho dizer que não está quando o telefone toca ou são tolerantes quando o pequeno mente, a criança poderá achar natural mentir e fica sujeito a fazê-lo. 

Se tiver dúvida sobre a história da criança, não insista, peça que conte a história horas mais tarde e compare as versões ou faça perguntas amplas como: “O que aconteceu na escola?” em vez de “Te bateram na escola?”. “A professora gritou mesmo com você?” e “O que você fez para ser encaminhado à diretoria?”. 

A criança deve sentir que ao contar a verdade terá a admiração e confiança dos pais, professores e amigos e que a mentira “tem perna curta” e logo será descoberta e desaprovada por todos. 

Broncas severas ou castigos podem levar a criança a mentir mais vezes para não receber novamente esse tipo de punição. Mostrar os benefícios da verdade e os prejuízos que a mentira traz para a própria criança e para as outras pessoas é o melhor caminho. Quando o comportamento mentiroso é muito frequente ou se estende muito além dos sete anos, uma ajuda profissional deverá ser procurada. 

Nesse universo, os psicólogos concordam sobre “as falas dos adultos afetarem a autoimagem, a autoestima da criança e, muitas vezes, determina o seu caráter, a sua personalidade e até mesmo o seu destino”. Segundo os especialistas, há uma conexão direta entre o modo de as crianças sentirem e o modo de se comportarem. Quando elas se sentem bem, se sentem aprovadas, admiradas, respeitadas, se comportam bem. 

Alguns profissionais ainda concordam que a capacidade de dizer mentiras a partir dos dois anos de idade é um sinal do desenvolvimento rápido do cérebro e significa que essas crianças estão propensas a serem manipuladoras e usarem as informações que a cercam como vantagem. Essa capacidade está ligada ao desenvolvimento das regiões do cérebro que permitem que as funções executivas aflorem, o que fará dessa criança um grande empresário no futuro ou um indivíduo dinâmico, porém, marginalizado. 

Portanto, atenção pais para as pequenas mentiras que, com o tempo, poderão ganhar proporções que dificultem uma vida de convivências saudáveis. 

*Sueli Bravi Conte é especialista em educação, mestre em neurociências, psicopedagoga, diretora e mantenedora do Colégio Renovação, instituição com mais de 35 anos de atividades do Ensino Infantil ao Médio, com unidades nas cidades de São Paulo e Indaiatuba

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