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3/22/2019

Autor brasileiro bate-papo com Demian Rugna

Foto - Rugna, Del Toro e Gervasi 

Entrevista com o cineasta argentino Demian Rugna, por M.R.Terci

Sem dúvida nenhuma, o ano de 2019 será um ano muito especial para os cinéfilos, especialmente para os fãs de filmes de terror. A lista de filmes do gênero é bem longa: muita coisa está prestes a ser lançada e a expectativa só aumenta. Nesse ponto, destaque para o filme Terrified, produzido por Guillermo Del Toro, remake do filme argentino Aterrados (2017), escrito e dirigido pelo premiado cineasta Demian Rugna.

O cinema de horror sul americano cresce em qualidade e quantidade. Nos últimos anos, trabalhos notáveis ganham projeção internacional com promessas de revolucionar o gênero. Pois bem, Demian é um desses visionários que tocam o terror e conquistam cada vez mais espaço no cenário do Horror Internacional. Neste mês, M. R. Terci, autor de Imperiais de Gran Abuelo, poeta, roteirista e fã incondicional do gênero horror fez uma entrevista com o cineasta, confira!

M. R. Terci: Todos nós, fãs brasileiros, estamos ansiosos para conhecer um pouco mais de seu trabalho e quais as próximas novidades.

Demian: Certamente eles verão o Remake de Aterrorizados nos cinemas, suponho que será uma estréia importante, já que a Fox Searchlight está por trás. Depois do remake eu não sei, é muito provável que eu comece a trabalhar na 2ª parte de Aterrorizados ou talvez eu retome meu novo projeto de terror chamado "Quando o mal espreita". Mesmo assim tenho um filme inédito que fiz antes de Aterrorizados e espero lançar em breve, se chama: "Você não sabe com quem está falando", é humor negro que parodia um pouco os filmes de gênero, acho que os fãs de horror (como eu) vão gostar. Mas não se preocupem: meus próximos 2 ou 3 projetos serão puramente terror.

M. R. Terci: Literatura, quadrinhos e cinema. Quais as referências para o trabalho de Demian Rugna? Quais as suas influências dentro do gênero do horror fantástico?

Demian: Eu cresci lendo Stephen King, Poe e Lovecraft. Então cheguei ao meu Clive Barker e Cortazar. Eu acho que (especialmente nos meus primeiros filmes) a influência dos dois últimos é perceptível. No nível comic, eu venho da história em quadrinhos, quero dizer, toda a minha vida, minha abordagem para o cinema foi desenho em quadrinhos, estudei 3 anos para me profissionalizar. Eu não sou dos super-heróis, esse ramo não me pega, eu sou mais o comic europeu que foi bem desenvolvido na Argentina, o quadrinho mais autoral. Mas eu deixei minhas ambições de desenhista para ser diretor de cinema. E baseado no cinema, minha escola foi o cinema fantástico dos anos 80, acompanhei fervorosamente os filmes com seus diretores clássicos de gênero. Raimi, Craven, Carpenter, Spielberg, Cronenberg, Argento, Verhoeven e mais nos anos 90, Peter Jackson e Guillermo del Toro. Essa é a minha escola.

M. R. Terci: O que é o sobrenatural para Demian Rugna?

Demian: Eu prefiro que não tenha forma definitiva, me refiro com isso (pelo menos em Aterrorizados) a não facilitar a atribuição de forma a "um fantasma" ou "uma maldição", acredito que o sobrenatural não pode ser definido facilmente em sua origem. Sinto que é falta de respeito com o espectador quando se contrói uma história e então se diz simplesmente: tudo é causado por um fantasma. Eu sinto que o sobrenatural não pode ser explicado tão facilmente. Porque nós nem sequer sabemos (como seres humanos) de onde realmente viemos e por que estamos neste planeta. Pelo menos em Aterrorizados, tento não tomar o espectador como estúpido com uma explicação categórica e instantânea de algo inexplicável.

M. R. Terci: O horroré um gênero cinematográfico e literário muito ligado à fantasia e à ficção especulativa. No filme Aterrorizados, você aborda a questão de outros planos interdimensionais e as terríveis consequências de contata-lo. Nessa linha de raciocínio, você expõe crenças próprias?

Demian: Não. Mas devo admitir que pouco tempo depois do lançamento, um jornalista me transmitiu a informação de que meu filme tinha muitos elementos de um fenômeno, muito comum e que ocorre com muitas pessoas, chamado: "paralisia do sono". Eu não sabia nada sobre isso, mas através dessa pessoa aprendi que se tratava de um fenômeno que acontece quando você acorda no meio da noite, incapaz de mover seu corpo, mas podendo abrir os olhos, vê uma figura alta, careca e desajeitada, às vezes usando um chapéu, te observando. Então você realmente acorda e está na mesma posição. O incrível de tudo isso é que passei por um episódio assim, muito tempo depois de escrever o roteiro, sofri a paralisia do sono uma noite, vi aquela figura me observando. Mas eu sempre relaciono isso com um pesadelo. Até que eu descobri que isso é algo muito comum, comecei a pesquisar e me pareceu incrível.

No caso de Aterrorizados, tentei criar minha própria mitologia, longe do simbolismo religioso e das teorias fantasmagóricas. É por isso que não há nenhuma ouija no meu filme. Isso é simples: dimensões que se filtram entre si e esses seres estão conhecendo nosso ambiente, são eles que estão experimentando e tentando descobrir o que é o nosso mundo. O problema é que esses seres não têm a nossa moral, para nós, eles são selvagens, porque se precisarem abrir uma pessoa em dois para ver o que tem dentro, eles farão. Assim como fazemos com um inseto, sem ser mal, mas curioso.

M. R. Terci: A Fox Searchlight colocou Sacha Gervasi para escrever Terrified, um remake de Aterrados.O filme será produzido por Guillermo Del Toro. Você escreveu e dirigiu o original, e agora irá liderar o remake. Como foi esse contato, como está sendo essa experiência e o que pode nos adiantar a respeito do remake?

Demian: Ainda estamos trabalhando no roteiro, posso dizer-lhe que cada uma das cenas do terror está sendo projetada para ser muito mais espetacular. Queremos respeitar a versão original, já que é um filme que funciona e não vamos desperdiçar isso. O interessante é que eu serei o diretor do remake, então não vou deixar que machuquem meu bebê. Me dou muito bem com Sasha, ele é muito engraçado e isso é algo que eu pedi a Del Toro, alguém com humor, já que acho que um pouco de humor nos piores momentos faz o espectador relaxar um pouco para que, em seguida, possa atacá-lo com um choque de terror. A experiência está sendo muito boa. Imagine só, sou fã do gênero desde menino, aos 16 anos eu fiz uma tatuagem de Jason Voorhes, e desde criança eu sonhava em filmar em Hollywood. Então, hoje eu me deparo com meu ídolo produzindo um filme para mim. É muito louco poder discutir ideias com pessoas que admiro como verdadeiras ídolos e achar que não concordo em tudo também é muito estranho. Às vezes eu pergunto a mim mesmo "como posso contradizer as idéias de Guillermo Del Toro?", mas ele deixou muito claro, desde o começo, quando me disse: "Eu confio plenamente em seu instinto" e isso dá forças para acreditar em mim mesmo.

M. R. Terci: Após a conclusão do remake, quais os próximos projetos?

Demian: Parte 2 de Aterrorizados (eu ainda não sei qual versão, se espanhol ou inglês), "Quando o mal espreita" e libero o filme de humor negro, já filmado, chamado "Você não sabe com quem está falando".

M. R. Terci: Como você interpreta o atual momento do cinema do horror?

Demian: Uma maravilha! Eu acho que o avanço das redes sociais fez com que os fãs do gênero parassem de se sentir marginalizados, percebemos que existem muitos mais doentes mentais como nós que querem ver todos os filmes de terror do planeta, comprar o Blu-ray e colecionar as bonecas. Eu acho que isso fez o gênero fantástico se consolidar muito mais. O púbico foi fortalecido e até as críticas pararam de desrespeitar os filmes do gênero. Nesse sentido, crescemos em audiência. Então, com relação ao conteúdo, é eclético, como todos os filmes, há bons e ruins em todos os gêneros. Eu acho que o autor no gênero está ganhando espaço e isso é ótimo.

M. R. Terci: Para Demian Rugna qual foi a era de ouro dos filmes de terror?

Demian: É uma boa pergunta, mas minha resposta não é objetiva, eu amo o gênero nos anos 80, mas talvez seja porque eu cresci lá, porque foi o começo de uma revolução nos FX (efeitos especiais). Também temos de observar tudo o que exalava o horror até ali e, então, após essa parte, o que James Wan alcançou com SAW. Mas talvez venham os fãs da Hammer e queiram me linchar pelo que disse! Eu não sei, é muito pessoal, mas eu fico nos anos 80.

Sobre o autor: M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta.  Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito Militar e mestrado em Direito Internacional, Ciência Política, Economia e Relações Internacionais. Autor de Imperiais de Gran Abuelo, publicada pela Pandorga, e o criador da série O Bairro da Cripta, lançada anteriormente pela LP-Books, obras que reforçaram seu nome como um dos principais autores brasileiros de horror da atualidade. Com base em fatos históricos, Terci substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, numa verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira. Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas estórias permite.
Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplicada e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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