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2/27/2019

Histórias do trajeto do maestro Eduardo Lages (3)


Histórias do trajeto do maestro Eduardo Lages (3) 
Entrevista in OFUXICO
4 de março de 2015
Elegante, de fala tranquila e de uma generosidade ímpar. Assim é o Maestro Eduardo Lages. Aos 67 anos, comemora 50 de carreira, com o espetáculo Sobre o Musical, Eduardo Lages & Orquestra – o Maestro do Rei, Toda Brasileira é uma Diva onde é o grande protagonista, embora diga que os protagonistas são todos que dividem o palco com ele. Maestro e arranjador que acompanha Roberto Carlos há 37 anos, ele chega ao palco para emocionar e divertir com sua orquestra, atores e uma trupe de cantores, tudo dirigido por Ulysses Cruz. A reportagem de O Fuxico conversou com este grande profissional, fã dos Beatles e da MPB, nascido em Niterói, Rio de Janeiro, em 11 de março de 1947. Logo no início da entrevista ele brinca:
“Daqui uma semana serão 68 anos já!”.Eduardo Lages contou um pouco de sua escolha pela música, falou de suas realizações, do encontro e parceria com Roberto Carlos, entre outros fatos que marcaram sua trajetória como músico. Outros projetos? Confira o que ele disse!
O Fuxico:  O que te levou a escolher a música como seu instrumento para toda a vida? 
Eduardo Lages: Nada me levou. Na verdade foi meu pai e minha mãe, pois eles me colocaram, aos 4 anos, numa escola de piano. Uma criança com essa idade não tem a iniciativa de querer estudar piano. Meu pai era médico, minha mãe professora e os dois tocavam piano, então, naturalmente, queriam que o filho tocasse também. Isso foi muito bom para mim. Aprendi a ler as notas musicais antes mesmo de aprender a ler a cartilha. E entendi que essa é a idade ideal de uma criança começar a aprender música. 
Você estudava música e quando chegou na época da faculdade, seus pais quiseram opinar em uma carreira, certo?
EL: Sim. Eu estudava música clássica e pop. Adoro os Beatles e fui tremendamente mordido pelo bichinho da MPB. Segui com o clássico, que curto e toco até hoje. Pra mim, sempre foram muito sedutores a MPB, o Rock, o Twist. Me dedicava muito como aluno, tocava em festas e esse amor cresceu junto comigo. Na época ser músico, a profissão de músico,  era muito complicado e meus pais, preocupados, queriam que eu entrasse na faculdade. Meu pai queria que eu fosse médico, como ele.  Tentei ver alguma carreira que gostasse e prestei vestibular para Engenharia. Passei e cursei por um tempo, mas vi que tinha de parar e partir mesmo para a música.
OF: Ainda na adolescência você tocou em lugares bem distintos, um pouco na igreja, um pouco nas chamadas ‘zonas’, além de participar dos festivais como compositor. De tudo isso, qual foi o trabalho que você pode pontuar como o que te lançou para todo esse sucesso?
EL: Ah, lembrar isso é muito bom (risos).  Naquela época, não existiam as grandes casas de shows em São Paulo, como o Credicard Hall, o extinto Olympia.  Os grandes músicos e cantores se apresentavam nas boates, em casas de dança, a tal zona. Naquela época a coisa era organizada, musica boa e artistas famosos estavam sempre nesses lugares. Não era demérito nenhum tocar em uma boate. O melhor conjunto de Niterói  tocava na zona e eu ia lá para ouvir, apreciar e dar a famosa canja, ou seja, pedia para tocar um pouquinho com eles e tal. Daí, sempre acontece de você ter uma noite em que falta um músico e você substitui e aí, depois de um tempinho, fui contratado. Aí que vem sua resposta (risos), pois eu tocava na igreja também. Sempre fui católico e, aos domingos, tinha de fazer o impossível para estar nos dois lugares, pois a missa de domingo acontecia às 19h30 e na boate eu tinha de chegar às 21h, então o horário ficava bem apertado, levando em consideração que naquela época eu não tinha carro. Não dava tempo de tocar até o final da missa e, quando o padre me chamava atenção eu dizia a ele  que tinha aula e não podia faltar (risos).  Ia correndo, de ônibus e levava cerca de 20 minutos pra chegar à zona.  Então, sempre digo que levava 20 minutos para ir do céu ao inferno (risos). Então de tudo um pouco fui chegando aos lugares e trabalhando com a música.
OF: Você foi produtor musical da Rede Globo por um bom tempo.  Como começou sua história com Roberto Carlos?
EL: Eu trabalhei 18 anos na TV Globo como produtor musical de dois programas, o Fantástico, que na época chamava-se Fantástico, o Show da Vida  e era bem mais musical que hoje, que traz mais a parte de jornalismo. E também no Globo de Ouro, mostrando todas as paradas de sucesso da época. Roberto estava por lá, no Globo de Ouro, praticamente toda a semana . Eu fazia os arranjos do programa, geralmente copiando do disco do artista. O programa era ao vivo e eu tinha algum contato com ele. Além disso, eu trabalhava numa casa noturna, a Chiko’s Bar, muito frequentada na época por cantores brasileiros e internacionais também, como Julio Iglecias, Burt Bacharach que, quando estavam no Rio de Janeiro, se apresentavam por lá. O Roberto chegou a ir lá umas vezes. Eu tocava piano. Ele disse que passaria a fazer shows com uma grande orquestra e achou que eu tinha  o perfil que ele queria. Eu tinha uns 30 anos . Ele me convidou, fiquei assustado, pois trabalhava na Globo  e à noite no Chiko’s, tinha meu dia bastante preenchido e ele viajava muito. Me preocupei com a TV, pois tinha obrigações e responsabilidades. Eu assinava até ponto. Ele era contratado pela Globo também. Chegou num ponto que eu disse a ele para conversar com a direção da emissora, nos dias de viagens de shows, para que eu pudesse ir. Daí, chegou um momento que ele estava com muitas viagens e eu tive de optar. Acho que foi uma boa opção e uma grande honra estar ao lado do Roberto nesses 37 anos.
OF: Como é o retorno do público ao Maestro Eduardo Lages?
EL: Na rua me chamam de Maestro do Rei. Muitas pessoas me encontram, me abraçam e não sabem meu nome. Eu tenho orgulho disso. Brinco que eu queria tanto ser um maestro, que me tornei o Maestro do Rei (risos). As pessoas me querem muito bem. E Roberto Carlos é muito querido, então, não tem como não me associar a ele. Eu gosto disso. Muito.
OF: Você é muito assediado pelas mulheres mais românticas?
EL: Olha, já teve muito mais assédio (risos). Primeiro porque o assediado vai envelhecendo e quem assedia também. Mas é um assédio comportado. Sempre muito ligado ao fato de trabalhar com Roberto. As pessoas se aproximam e querem tocar numa pessoa próxima do Roberto. Vez ou outra vem uma tentativa mais de perto. Mas esse assédio vem pelo carinho, pelo clima de romance das músicas do Roberto. Sempre foi tudo muito respeitoso.
OF: Com sua elegância e charme, juntos à sua simpatia, não é só o fato de tocar com Roberto Carlos que causa esse assédio, certo? Isso incomoda?
EL: (risos) Olha, teve sim algumas insinuações. Mas quando isso acontece a gente disfarça, finge que não entendeu.  Isso não me incomoda de maneira alguma e não é em excesso. Mas não sou estrela nem ídolo. Quando saio, as pessoas se aproximam e gostam de conversar. Tenho prazer em conversar com todos. Acho que aí é um conjunto de coisas. A música do Roberto é envolvente, as pessoas assistem, a luz no palco é bonita e deixa todo mundo bonito. De alguma forma isso passa para o lado de fora do palco. Não tenho nada de galã. Claro que me cuido de alguma forma, mas nunca fui ligado a isso não. Todos têm vaidades. Faço questão de ser uma pessoa boa e saber que as pessoas reconhecem que sou do bem.
OF: Quantos discos solos já lançou?
EL: São ao todo 6, todos pela Som Livre.
OF: Hoje, além do trabalho com Roberto Carlos, dá para conciliar outros trabalhos solos?
EL: É muito difícil. Faço uma correria danada. A minha prioridade é Roberto e procuro me encaixar na agenda dele, pois estou em todos shows e discos dele. Como hoje ele é mais seletivo na quantidade de shows, me possibilita fazer algumas outras coisas. Só de seis anos para cá consegui fazer algo mais, pois a agenda dele melhorou. Isso mantém a gente ativo. É bom que ele sabe que estou na rua e levo informações a ele de fora do mundo artístico. É bom que não sou exclusivo. Na teoria, não sou nem tenho que ser. Posso fazer o que quiser e onde quiser, na prática tenho de me adequar à agenda dele. Marco um show às vezes e preciso desmarcar para estar com ele em uma apresentação.
OF: São 50 anos de estrada e sucesso. O que mais marcou nesse tempo todo?
EL: Puxa, tive momentos... Acho que algumas marcas importantes são meu primeiro show com Roberto, isso foi demais. E um trabalho que fiz junto à Orquestra Sinfônica de São Paulo, na visita do Papa João Paulo ao Brasil. Sempre gostei muito da figura do Papa João Paulo e tive a oportunidade de chegar perto e tocar uma musica para ele. Foi muito importante. Ah, também fui ver um show do Frank Sinatra no Rio de Janeiro e tinha a orquestra que ele trouxe dos Estados Unidos. Eu disse pra mim mesmo que um dia iria tocar com aquela orquestra. Daí, uma vez fui aos Estados Unidos com um show do Roberto, e sempre que viajamos assim levamos poucos músicos para contratar os demais no local. Chegando lá, fomos contratar 30 músicos. Quando conversei com o representante das pessoas que integrariam nossa orquestra, ele me disse que conhecia o Brasil, pois já havia tocado aqui com Frank Sinatra. E que era a mesma orquestra que ele estava cedendo para nós naquele momento. Eu quase não acreditei. Foi a realização de um sonho.
OF: No Musical, Eduardo Lages & Orquestra – o Maestro do Rei, Toda Brasileira é uma Diva, o que o público vai ver?
EL: É um show da orquestra, de músicas. Toco músicas. O Brasil não tem a cultura da música instrumental, é um pais de cantores. Claro que salvo o Teatro Municipal, os recitais... A MPB instrumental tende a virar música para acompanhar conversa. Nos shows sempre gosto de ter a participação do público. A forma que tenho de que não conversem no show é fazer com que participem, tocando músicas que eles conhecem e que cantem com a gente. Que sejam eles os cantores em participem. Isso é bom para nós e para eles. É um espetáculo bem descontraído, gosto de manter as pessoas descontraídas. A gente não está de smoking e gravata borboleta e sim, nos divertindo tocando música bonita que as pessoas esperam. Ali estamos querendo emocionar e envolver. Tudo muito família e tocamos até algumas coisas infantis. Temos a participação de Ivete Sangalo no telão e creio que em algumas das nossas apresentações ela deva vir ao vivo.
OF: Quem escolheu o titulo “Toda Brasileira é uma Diva”?
EL: Isso é uma campanha do patrocinador. O show é patrocinado pela Bombril , que estreia sua campanha homenageando o Dia Internacional da Mulher. Essa parte do título é baseada na campanha deles.
OF: Como se sente protagonizando um musical?
EL: Não vou mentir, me deixa muito orgulhoso. Mas é orgulhoso sem aspas de nessa idade, num país tão complicado em todos sentidos, onde todos tem problemas, ter esse prestígio muito grande não só para mim mas para orquestra também. No meu show não tem estrela. São os vinte, trinta músicos a quem peço que sintam-se em casa e toquem da melhor maneira. A intenção é se divertir e divertir o público. Sempre peço que toquem com prazer, como se estivessem na casa deles. Eu pontuo: ‘ Quero tirar de vocês todo o amor que há para assar ao público que fica feliz em ver tanto amor’. Tenho que confessar que quem acreditou nisso foi a Bombril. Só mesmo uma empresa faria um espetáculo como esse, eu sozinho não faria. É um dos momentos mais importantes da minha carreira. No mesmo nível de importância de quando consegui começar a trabalhar com Roberto Carlos. A vida me proporcionou grandes oportunidades. Espero aproveitar mais essa e quero me sair bem nisso.
OF: Como foi a escolha do elenco, você opinou?
EL: A direção do espetáculo é do Ulysses Cruz. Ele cuida da parte teatralizada no show, da escolha do elenco de atores que é uma trupe de sete atores, três rapazes e quatro moças e um grupo vocal (Cluster Sisters, grupo revelado ao país durante o programa Superstar da Rede Globo). A direção traz o Ulysses e Ravel Cabral. Me envolvi nas ideias, mas a escolha do elenco não palpitei.
OF: O espetáculo fará uma apresentação única em cada cidade?
EL: Por enquanto faremos as apresentações únicas em  São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte. Estreando em São Paulo neste domingo (8), Dia da Mulher.
OF: Pretende sair do país com este musical?
EL: Nossa, menina, você é a primeira pessoa que me pergunta isso. Tenho isso na cabeça. Esse show representaria bastante o Brasil lá fora. Tem 4 ou 5 musicas estrangeiras, que formaram a personalidade do povo. Vamos ter as Olimpíadas no ano que vem e esse show seria uma coisa bem bonita do Brasil a se mostrar, além do esporte, da natureza deste país. Mostrar a música brasileira. Não tenho nenhuma proposta. Se vier vai ser muito bacana. O que veio e recebi até agora está de muito bom tamanho. Queria fazer isso para pessoas que chegam ao Brasil para curtir o Carnaval, o Réveillon. Essas pessoas aqui conheceriam a nossa MPB, desde o Sertanejo, a Bossa Nova, a música Nordestina. Tocamos um pouco de cada coisa.
OF: Quais os próximos planos de Eduardo Lages?
EL: (Risos) Não sou maluco de começar uma coisa nesse país aos 67 anos. Dizem que a gente tem que se manter ativo pra envelhecer e estou tentando fazer isso. Mas está de bom tamanho tudo. Vou curtir o que estou fazendo. Talvez daqui uns vinte anos pense em outro.  
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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