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23 de dezembro de 2017

Don L lança seu primeiro disco, “Roteiro Pra Aïnouz vol.3”, em show no Sesc Pompeia


Apresentação na comedoria conta com Guilherme Held (guitarra), DJ Roger e Terra Preta e participações de Diomedes Chinaski, Nego Gallo e Lay

Rapper inaugura narrativa cinematográfica de sua saga em trilogia musical reversa com co-produção de Deryck Cabrera (Emicida, Criolo e Rashid), participações de Fernando Catatau, Nego Gallo, Thiago França, Lay e Diomedes Chinaski e beats de nomes como Leo Justi (M.I.A. e Karol Conká) e
Sants

Vindo de Fortaleza e radicado em São Paulo há 4 anos, o rapper Don L lança seu primeiro disco, “Roteiro Pra Aïnouz vol.3”, em show na comedoria do Sesc Pompeia, dia 18 de janeiro, às 21h. Com o lançamento, Don se firma como um dos mais inovadores, ousados e provocadores artistas do rap e da música brasileira atual. No palco, o rapper apresenta-se ao lado de Guilherme Held (guitarra), DJ Roger e Terra Preta (vocais). O show tem participações especiais de Diomedes Chinaski, Nego Gallo e Lay.

Produzido por ele, juntamente com Deryck Cabrera, a obra conta também com pós-produção e mixagem de Luiz Café. Com  9 faixas, o volume inaugura uma trilogia reversa que conta a história da vinda do artista de Fortaleza para São Paulo e homenageia o cineasta Karim Aïnouz. A capa é novamente feita pelo artista gráfico Felipe Felippo com fotos de Autumn Sonnichsen. A direção artística é assinada por André Maleronka, editor-chefe da VICE Brasil.

Pelo que se escuta aqui, foi um percurso bruto, mas também terno e reflexivo, como prenunciava a já clássica mixtape “Caro Vapor: Vida e Veneno de Don L”, de 2013. “RPA3” ainda é o champanhe derramado misturado com sangue no chão, mas hoje a brisa marítima e as ruas que lhe deram seu primeiro flow, no Conjunto São Pedro, em Fortaleza, dão lugar a uma camada de fuligem que, pousada sobre a densidade de suas criações, faz a essência do rapper e produtor vibrar e soar de forma diferente.

Entre estas cinzas de uma São Paulo depressiva, a mesma sede que ganhou projeção nacional com a mixtape “Dinheiro Sexo Drogas e Violência de Costa a Costa” (2007) pulsa em veias e artérias de leão, mas é o coração de gelo que determina a temperatura do brinde. Esse é o cenário da terceira parte do roteiro autobiográfico que Don L constrói como um personagem que sai das telas de um filme do cineasta Karim Aïnouz. Conterrâneo do rapper, o diretor de obras como “O Céu de Suely” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, que reside hoje em Berlim, também aborda temas como o êxodo e a sensação de descoberta e de não-pertencimento a um lugar.

O disco abre com a parageusia de “Eu Não te Amo”, onde o arranjo progressivo de ambições sinfônicas ganha camadas vocais com o apoio do rapper Terra Preta e atinge um ápice de desilusão, para abrir caminho da participação angustiante de Diomedes Chinaski, seu protegido, um jovem rapper em ascensão vindo das periferias de Recife.

Como se o desconforto virasse alimento para raiva, a acelerada “Fazia Sentido” reflete raivosamente sobre o hip hop brasileiro n, e desemboca numa negação do niilismo, procurando de novo o brilho de seus olhos jovens em “Aquela Fé”, já aclamada pelo público como um dos hits do disco. A terceira faixa tem beat de DJ Caíque e se apresenta dividida em duas partes, à primeira vista aparentemente distintas. O tema da desilusão adulta é destrinchado primeiro por Don, depois por Nego Gallo, seu parceiro dos tempos de Costa a Costa, em batidas diferentes.

Ambiciosamente, a conclusão musical alinhava tudo: som, ideia, sentimento – afinal de contas, “uma frase muda o fim do filme”.

Daí Don L grita eletrificado pelas ruas como Belchior, outro conterrâneo famoso, para buscar sua sanidade analógica num mundo tão digital – é “Cocaína”, uma tour de force que se espraia amplamente pelas guitarras distorcidas de seu também conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado). É uma improvável canção de amor, ou talvez apenas verse sobre o real poder libertador de se desligar numa época em que todos são tão dependentes da rapidez viciante das redes sociais. No interlúdio free-jazzístico que vem, “Cocainterlúdio”, Don atua só e plenamente como produtor, alistando músicos que traduzem sua visão de caos, destruição e reconstrução. Ali brilha o saxofonista Thiago França (Metá Metá), acompanhado por Maurício Fleury (Bixiga 70) no teclado, bateria de Thomas Harres (Jards Macalé/Curumin) e baixos de Gustavo Portela e Maurício Coei. O som denso é o ponto de inflexão do disco.

O sexo vem em uma cama de sons sintéticos feita por Don e Deryck em cima de um beat de Sants, destaque da cena Bass e Future Beats no Brasil e um dos criadores do Beatwise Recordings. O diálogo entre Don e a rapper revelação Lay não vem sem uma tristeza latente, como se fosse indissociável o hedonismo de suas causas e consequências. É uma ode sobre a entrega e também um hino anti-revenge porn (também chamado no Brasil de “caiu na net”) – sua sonoridade eletrônica não é uma coincidência. Ainda sobre causas e consequências, eletrônica e densidades, chega “Ferramentas”, que conta com o mesmo time de produção da faixa anterior. O áudio do rapper Gato Preto, integrante do clássico grupo de rap A Família e amigo de Don que foi assassinado em 2016, no final da faixa, dá a dimensão das escolhas e de qual é a busca por aquela fé mencionada no início da jornada. É a liberdade do conhecimento adulto, por mais duro que isso possa ser.

Com a produção do carioca Luiz Café, considerado o melhor engenheiro de som em atividade no rap brasileiro, “Se Num For Demais” é formada por loops nas batidas e letras, um som circular, cíclico. É aceitar a queda, o rolê no inferno, e falar “OK, era só isso memo? Pode ficar com o troco”. E parte pra uma nova reconstrução, uma redescoberta de si mesmo. Com batida do também carioca Leo Justi (Heavy Baile/ M.I.A.), “Laje das Ilusões” fecha o disco e traz o renascimento das ilusões. É como um apanhado geral de imagens dos três volumes do RPA, em velocidade ultra-rápida, como as imagens de uma vida na mente de alguém passando por uma EQM (experiência de quase-morte). É o momento de olhar pra trás e observa o quanto se andou, é sobre o tempo, e o quanto ele custa. A canção ganhou um clipe assinado pela fotógrafa Autumn Sonnichsen, que também é responsável pela foto da capa de “RPA3”.

Sob um céu de nuvens carregadas de informações, em meio a distrações de de Youtube, colecionando cicatrizes, Don L carrega as marcas de um flow único e proprietário e de um estilo sofisticado de composição. É um rapper intelectual que expõe insatisfações, triunfos e análises como quem escreve um ensaio assertivo artístico e marginal sobre beats ora sinuosos e melancólicos, ora furiosos, como sua forma de cantar.

O show de RPA3 é um esforço coletivo de fugir das fórmulas convencionais dos shows de rap. Com apoio de Terra Preta (vocais), Dj Roger e Guilherme Held na guitarra, Don L recebe Diomedes Chinaski, Nego Gallo e Lay. A interpretação visual do disco vem num cenário com estrutura de andaimes assinado por Camila Schmidt, luzes de Mirella Brandi e representa a desconstrução e construção propostas na obra. Idealização e roteiro por André Maleronka e Mateus Potumati.

SERVIÇO:
Dia 18 de janeiro, às 21h
Sesc Pompéia - São Paulo - SP

Alba Maria Fraga Bittencourt

Sobre a autora

Alba Bittencourt - Doutorada em Robertologia Aplicada e Ciências Afins. Redatora do Portal Splish Splash e Administradora/Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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