Uruguai recebe o XXIX Encontro das Comunidades Portuguesas do Cone Sul

DO TEXTO:

Ana Grácio Pinto

Este ano realiza-se de 3 a 5 de novembro, em Colonia do Sacramento, numa organização de Casa de Portugal de Montevidéu. O Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-descendentes do Cone Sul tem dado voz aos que integram a diáspora lusa no Uruguai, Argentina e Brasil.

Desde a sua primeira edição, em 1988, o Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-descendentes do Cone Sul tem dado voz a clubes e associações comunitárias, a portugueses e luso-descendentes que integram a diáspora lusa no Uruguai, Argentina e Brasil.

E se o primeiro Encontro aconteceu em Montevidéu, esta XXIX edição, que decorre de 3 a 5 de novembro, regressa ao Uruguai, para ter lugar numa cidade que simboliza a presença portuguesa naquele país: Colónia do Sacramento.

“A realização do Encontro em Colónia do Sacramento tem uma simbologia especial, da mesma forma que terá também especial simbologia o desfile, no domingo (dia 5), das delegações participantes dos três países até à basílica do Santíssimo Sacramento, como forma de lembrar que os portugueses também ‘estão’ naquela cidade”, sublinha Luís Viriato Panasco, da Casa de Portugal de Montevideu, associação à qual coube este ano, a organização do Encontro.

De um torneio a um Encontro de gerações

A história do Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-descendentes do Cone Sul, que neste ano prevê reunir mais de 300 participantes, começou, na verdade, antes de 1988. “Talvez ninguém esperasse que de um simples torneio de sueca, realizado no ano de 1973, resultasse o que hoje denominamos ‘Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-descendentes do Cone Sul’, lê-se numa publicação sobre o evento, elaborada pela Casa de Portugal de Montevideu. Catorze anos depois, em 1987, o torneio realizou-se em Pelotas, cidade do sul do Brasil, e a Casa de Portugal de Montevideu foi convidada a participar, cabendo-lhe, no ano seguinte, a incumbência de receber na capital uruguaia, todas as associações interessadas em participar no torneio. Com a adesão à iniciativa, de instituições lusas da Argentina, 1988 marcou assim o nascimento dos Encontros das Comunidades Portuguesas e Luso-descendentes do Cone Sul. “Incentivou-se, então, a criação de Ranchos Folclóricos e Etnográficos que contribuíssem para a difusão da nossa música, das nossas danças, dos nossos trajes e da nossa mais genuína cultura popular”, refere-se ainda na publicação.

Com o crescimento dos participantes, outras atividades foram sendo incorporadas nos programas e assim, em 2004, surgiram os seminários culturais, que passaram a ser um dos pontos altos da agenda e se traduzem num momento de partilha e desenvolvimento de temas e questões relacionadas com o património, a história e cultura portuguesas e o modo como cada associação tem conseguido manter as pontes entre a vivência portuguesa e as diferentes culturas dos países que acolhem as comunidades portuguesas no Cone Sul do continente americano.

“Estes encontros são particularmente importantes para comunidades portuguesas radicadas em países particularmente distantes de Portugal. São comunidades  bem integradas nos países de acolhimento (Sul do Brasil, Uruguai e Argentina)”, elogia o Embaixador de Portugal no Uruguai, país onde, sublinha, essa integração é “plena”. Um enraizamento que tem, porém, um “outro lado da moeda”, como disse Nuno de Mello Bello ao Mundo Português: “o da sua pouca visibilidade e da perca crescente das suas referências culturais e afetivas, com o país de nascimento dos seus antepassados”. Por esse motivo, o embaixador considera que estes encontros são uma importante oportunidade para as comunidades do Uruguai, mas também de Argentina e Brasil partilharem experiências e conjugarem esforços. 
    
Nuno de Mello Bello também considera simbólica a realização da edição deste ano em Colónia do Sacramento, lembrando que a cidade “é um lugar historicamente ligado a Portugal”. “O simbolismo do local, a ótima colaboração que tivemos da Intendência de Colónia acrescenta muito a um Encontro que é sobretudo de luso descendentes que ainda se esforçam por manter as suas ligações a Portugal, vivas”, refere. 
   
Na Embaixada de Portugal no Uruguai estão inscritas cerca de duas mil pessoas, revela o Embaixador, reforçando que integram uma comunidade “muito bem integrada” num país que se construiu de “várias ondas de imigração” no século XIX e XX.

“Qualquer uruguaio sabe que as suas origens familiares vêm de fora”, sublinha. Sobre as relações bilaterais entre Portugal e o Uruguai, o Embaixador português afirma que são muito boas e têm “muito espaço de crescimento”.

Património, Cultura e Herança

Segundo Luís Viriato Panasco, são aguardadas cerca de 350 pessoas para o Encontro deste ano, entre participantes associativos e autoridades portuguesas e uruguaias. À delegação da Casa de Portugal de Montevidéu, juntam-se os representantes da Casa de Portugal de Salto e da Casa de Azores de San Carlos ‘Los Azoreños’, ambas do Uruguai.

Do Brasil irão membros do Centro Portugués de Rio Grande (RS), do Centro  Portugues de Ijuí, do Centro Portugués de Pelotas e da Casa de Portugal de Porto Alegre. A diáspora lusa na Argentina far-se-á representar pelo Conselho das Comunidades Portuguesas naquele país.

A agenda do Encontro inclui a inauguração da Mostra das Comunidades Portuguesas e de uma exposição fotográfica, a realização do seminário cultural ‘Diáspora e Associativismo: Património, Cultura e Herança’ (ver caixa ao lado) e um desfile de todas as delegações participantes até à Basília do Santíssimo Sacramento.

O dia 4 de novembro será preenchido quase na totalidade pelo seminário cultural. O debate terá como objetivos reforçar o espaço de discussão e de práticas com potencial de desenvolvimento comunitário e de preservação da cultura e do património portugueses; fortalecer o intercâmbio entre as comunidades portuguesas do Cone Sul; promover a partilha de projetos das diferentes comunidades e associações, incentivando a criação de grupos de trabalho regionais; reforçar vínculos de pertença à cultura portuguesa; estimular a participação de jovens e adultos, desenvolvendo as bases para a criação de uma plataforma de jovens líderes das comunidades da diáspora, procurando desenvolver as suas capacidades de liderança; difundir o património cultural e artístico, material e imaterial, de Portugal através da partilha de projetos comunitários; reforçar os laços históricos e afetivos entre a comunidade portuguesa e Colónia do Sacramento, colaborando com a sua dinamização cultural.

Visitantes ilustres

Outro ponto alto do evento é aquele que marca o seu início. No salão de Atos do Palácio do Governo Departamental, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães e os deputados da Assembleia da República de Portugal que participam no Encontro, vão receber das autoridades departamentais a distinção de ‘Visitante Ilustre’.

Em declarações ao ‘Mundo Português, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas contou que a distinção reveste-se de uma simbologia “muito forte”, por Colónia do Sacramento estar “intrinsecamente ligada” à história da presença de Portugal na América do Sul. “A sua fundação em 1680, por Manuel Lobo, representa um marco muito significativo da nossa presença nesta região e a traça arquitetónica da cidade, em particular do Centro Histórico, é um testemunho da nossa herança cultural”, acrescentou José Luís Carneiro, que deixou ainda a vontade de conhecer o Museu Português de Sacramento, por ter a indicação de ser “um bom exemplo de preservação das marcas identitárias associadas ao nosso país”.

Para além da participação no Encontro, José Luís Carneiro terá um encontro de cortesia com o Vice Ministro das Relações Exteriores do Uruguai, uma reunião para constatar “o bom relacionamento entre os dois países” e para explorar “formas de o incrementar”, afirmou.

Sobre o Encontro, defende que “são em primeiro lugar uma celebração e convívio de três comunidades fortemente implantadas no sul do continente americano”. “São comunidades muito bem integradas numa região distante de Portugal. Esse fato justifica a presença do Governo para conhecer os principais desafios das mesmas e das associações que as representam”, destacou ainda o governante.

À organização do evento, elogiou “o esforço organizativo” para a sua preparação, tendo em conta a sua “dimensão assinalável”, com centenas de pessoas “e um número significativo” de instituições portuguesas dos três países - Brasil, Argentina e Uruguai.

Um esforço que a Casa de Portugal de Montevidéu realiza - à semelhança das anteriores associação que o fizeram – com a perceção de que para além de outros objetivos, há o da manutenção da ligação dos luso-descendentes ao país de origem dos seus país e avós.“Este Encontro vai reunir muitos descendentes de portugueses. A eles queremos ajudar a transmitir o orgulho nas suas raízes, para que mantenham a sua ligação a Portugal, mesmo estando tão distantes. Mas também para que se apercebam do Portugal de hoje, um país que tem evoluído a muitos níveis. E que saibam manter em si os dois ‘corações’: o de origem e o de herança”, afirma Luís Panasco.

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