Um recuo estratégico na batalha das biografias


André Miranda 
Cleide Carvalho

RIO e SÃO PAULO — Como foi sugerido pelo depoimento de Roberto Carlos no “Fantástico” e pelo vídeo divulgado na noite de terça-feira com participação do Rei, de Erasmo Carlos e de Gilberto Gil, a estratégia da associação Procure Saber na chamada batalha das biografias mudou. Aos poucos, o grupo formado por algumas das principais estrelas da MPB vem adotando uma postura mais conciliadora, sugerindo um meio termo entre o direito à privacidade e as liberdades de expressão e informação. 

Esse tom será mantido até os dias 21 e 22 de novembro, quando será realizada, no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, uma audiência pública para debater o tema, e para a qual novos vídeos de artistas podem ser gravados. A estratégia tem sido preparada por advogados de Roberto, que tomaram a frente do debate na semana passada após discordância de como o assunto vinha sendo tratado pela empresária Paula Lavigne e também após uma pressão de Caetano Veloso sobre o Rei.

Caetano teria ficado insatisfeito porque ele, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan se expuseram publicamente em artigos no GLOBO manifestando-se contrários a mudanças no Código Civil brasileiro, cujo artigo 20 permite que biografados proíbam a publicação de biografias na Justiça em casos que “lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Já Roberto Carlos, justamente o integrante do Procure Saber que há mais tempo levanta a bandeira contra as biografias não autorizadas, vinha se mantendo em silêncio até a semana passada.

As cobranças de Caetano por um depoimento do Rei fizeram, então, que a corte de Roberto Carlos exigisse para si a condução do caso, levando a críticas a Paula Lavigne, empresária de Caetano, que vinha assumindo o papel de porta-voz do grupo. Hoje, Paula continua no Procure Saber, mas se comprometeu a não se manifestar mais sobre as biografias em nome da associação.

Os próximos passos do Procure Saber estão sendo planejados pelo advogado do Rei, Antonio Carlos de Almeida Castro. Para atuar no caso, ele pediu ajuda, conforme informou Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO, ao consultor Mario Rosa, autor do livro “A era do escândalo” (Geração Editorial) e especialista em gerenciamento de crises. Teriam sido eles, em conversa com os artistas, que prepararam o texto gravado por Roberto, Gil e Erasmo Carlos com o novo posicionamento do Procure Saber: no vídeo, eles assumem que tinham adotado “uma posição mais radical” contras as biografias não autorizadas, e falam sobre um novo rumo para o debate, na busca de “um ponto de equilíbrio”.

O vídeo do Procure Saber foi gravado com equipamento e por técnicos da produtora paulista Mixer. Diferentemente do que saiu na imprensa, a Mixer nega que seu diretor-executivo e fundador, João Daniel Tikhomiroff, tenha participado da produção do vídeo. Tikhomiroff, porém, fará a direção do especial de Roberto Carlos para a TV Globo pelo terceiro ano consecutivo.

A posição do Procure Saber, grupo criado este ano e ainda sem organização formal e jurídica, veio em resposta a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pela Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) no STF contra os artigos do Código Civil que abordam a necessidade de autorização para as biografias. Alguns de seus artistas chegaram, até, a defender que se pagassem royalties para os biografados em nome de se liberar os livros, mas a proposta foi logo abandonada, deixando como foco apenas a defesa da privacidade.

— Nos EUA, por exemplo, a liberdade de expressão é superior. Mas no Brasil, não. Liberdade e privacidade estão no mesmo patamar, então considero ideal uma solução intermediária, como me parece ter sugerido o Roberto Carlos — diz Anderson Schreiber, professor de Direito Civil da Uerj e autor de “Direitos da personalidade” (editora Atlas).
A mudança de posição do Procure Saber é vista como um avanço por Gustavo Binenbojm, advogado da Anel. Mas com ressalvas.

— Talvez tenham se convencido de que é censura privada. Eles agora falam em privacidade de outra maneira, a ser decidida pelo Poder Judiciário. Mas parece algo como “mudar para tudo permanecer como está”. Ou seja, biógrafos e historiadores continuarão sob a mira da “espada de Dâmocles”, com a possibilidade de a qualquer momento biografados e seus familiares irem a juízo por algum detalhe que eles consideram privado — afirma. — Acho que o Procure Saber mudou de posição porque foi derrotado no debate público.

Já Antonio Carlos Morato, professor de Direito Civil e Direito de Autor da Universidade de São Paulo, acredita que o erro dos integrantes do Procure Saber não está no conteúdo do que pregam, mas na forma. Morato observa que há diferença entre o que é “interesse público” e o que é “interesse do público”, o que transforma relacionamentos pessoais ou traições de A ou B passíveis de ser questionados na Justiça caso sejam publicados. O professor afirma, porém, que é inadmissível o grupo argumentar que o biógrafo está “ganhando à sua custa”:

— Seria o mesmo se Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema, recebesse direitos pela música — explica Morato, que diz ter lido o livro “Roberto Carlos em detalhes”, biografia escrita por Paulo Cesar de Araújo que foi tirada das livrarias em 2007 por ação do cantor. — O Araújo contou na Ordem dos Advogados do Brasil que o Roberto Carlos disse a ele: “Você roubou a minha história”. 

Mas numa biografia dele é natural que se fale de amor, assunto comum nas músicas. Mas houve o caso de um mordomo que escreveu para contar sobre como era feito o curativo na perna do Roberto Carlos (Nichollas Mariano, que lançou nos anos 70 o livro “O rei e eu”, proibido na Justiça). Isso, sim, não faz sentido. Por isso, é preciso discutir caso a caso, porque a liberdade de expressão tem limite sim. Não se trata de censura, mas de limites de uma sociedade democrática.


Enviar um comentário

Comentários