Viver
é muito perigoso... Assim escreveu, com reticências que multiplicam essas poucas
palavras, o maior romancista moderno brasileiro, botando a filosofar e a contar
sua história o maior personagem da nossa literatura moderna. Guimarães Rosa, em
Grande Sertão: Veredas, juntou nessa fala dois conceitos — vida e perigo — para
induzir uma verdade de bilhões de anos: sem vida não há perigos.Por estarem
vivos, perigam todos os seres, nadantes, rastejantes, voantes, vegetantes,
pensantes e até os invisíveis.
Não
chego a entender por que algumas pessoas escalam escarpas altíssimas e geladas,
correm num carro a 300 quilômetros por hora, pulam de aviões para surfar no ar,
saltam de pontes amarrados num elástico, caminham sobre um cabo de aço a 120
metros de altura, provocam um touro de 700 quilos, atravessam o Atlântico num
barquinho a remo.
Admiro
a coragem dos heróis, mas não compreendo a loucura dos temerários. O herói tem
uma relação positivacom a vida, não com a morte; dá tanto valor à vida alheiaque
se envolve numa situação de perigo para salvá-la. O temerário, que se expõe
constantemente à morte sem o propósito romântico dos heróis, tem coragem, por
certo, mas é um viciado em adrenalina e outras substâncias associadas ao
perigo.
O
simples ofício de viver já é tão perigoso nas metrópoles de países socialmente
desarrumados e legalmente frouxos, como o nosso, que qualquer acréscimo nos
riscos é insensato.Um pouco por brincadeira, e misturando humor com coisas
sérias, fiz uma lista básica dos cuidados que as pessoas deveriam ter para não
correr mais riscos do que o necessário no mundo nosso.
Quem
não quer viver perigosamente não deve olhar de maneira insinuante para mulher
acompanhada, dirigir a mais de 120 por hora, comer camarão em espelunca, nadar
em rio de piranha, surfar em mar de tubarão, internar-se em certos hospitais,
trabalhar no alvo do atirador de facas, mesmo em situação de desemprego, fazer
lipo, atravessar trechos urbanos de rodovias, encarar bandido, encarar polícia,
encarar lutador de MMA, discutir com flanelinha, negligenciar exames preventivos
de câncer, sobrevoar de helicóptero lugares como o Afeganistão e as favelas
cariocas, voar de asa-delta e semelhados, transar sem camisinha, viajar sem
cinto de segurança, assistir a jogos de futebol nos estádios entre torcidas
rivais, entrar numa de drogas, buscar fumo e outros bagulhos nas bocas, andar de
bicicleta em ruas de ônibus, trabalhar como motoqueiro, fumar, beber mais do que
o outro, dormir com o inimigo, comer dois hambúrgueres por dia, entrar em
brinquedos de parques de diversões periféricos, embrenhar-se em matos que não se
conhece, furar sinal vermelhona madrugada, pular de cabeça em qualquer água, ter
arma de fogo em casa, testemunhar contra bandido, porque não há garantias,
entrar na própria casa sem olhar em volta, entrar de calouro em trote
universitário, fazer um programa de sexo, viver com alcoólatra e outros
viciados, rodar de madrugada, sair de casa sem levar no bolso os 50 reais do
ladrão, colocar-se numa situação em que falha mecânica mata,misturar álcool,
limão, gelo e volante.
Dirão:
se for pensar assim, a pessoa nem sai de casa. Estamos chegando a isso.
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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