O
Brasil sofre uma onda de obscurantismo. Ela é liderada por cantores como Roberto
Carlos, desportistas como o lutador Anderson
Silva e pelos herdeiros de
personalidades mortas, como o escritor Guimarães Rosa, o jogador Garrincha e o
músico Noel Rosa. As celebridades e suas famílias defendem a censura prévia a
livros biográficos – e foram bem-sucedidos em seus objetivos. Dezenas de biografias foram recolhidas ao longo dos últimos dez
anos. Contra isso, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) entrou em
2012 com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para que seja declarada
inconstitucional a exigência de autorização de personagens ou de seus herdeiros
em livros ou obras audiovisuais em que são citados. No Congresso, o deputado
federal Newton Lima Neto (PT-SP) apresentou na Comissão de Constituição e
Justiça da Câmara dos Deputados um projeto de lei que dispõe sobre um artigo do
Código Civil, revisto em 2002. Se a lei passar, livros recolhidos das
prateleiras – como as biografias de Roberto Carlos, Garrincha e Noel Rosa –
voltariam a circular livremente, como é normal nos países democráticos, onde a
liberdade de expressão e o direito à privacidade são garantidos pela Justiça sem
que a censura seja exercida.
O
projeto de Lima Neto quer corrigir uma ambiguidade do Artigo 20 do Código Civil,
que dispõe sobre o uso da imagem de uma pessoa. A forma como o artigo foi
redigido dá vazão a interpretações ambíguas. Diz ele: “Salvo se autorizadas, ou
se necessárias à administração da Justiça ou à manutenção da ordem pública, a
divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição
ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu
requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra,
a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.
Segundo Lima Neto, esse artigo gerou uma “fábrica de processos de dano moral,
organizada pelos escritórios de advocacia”. “Essas ações legitimam a censura
prévia no país, permitem a retirada de circulação de livros e ferem o direito à
informação”, diz Lima Neto. “Elas tornam obrigatórias no país as biografias
chapa-branca.”
O
coro obscurantista pretende agora se insurgir contra o projeto de lei. A
jornalista Mônica Bergamo, da Folha
de S.Paulo, divulgou, na semana passada, que um grupo de artistas pretende
fazer um abaixo-assinado contra a proposta, num movimento cujo símbolo maior é
Roberto Carlos. Nada mais apropriado, pois Roberto monitora o uso de sua imagem
e censura publicações sobre sua vida com o mesmo virtuosismo com que interpreta
seus sucessos. “O projeto fala em acesso à cultura”, disse Dody Sirena,
empresário de Roberto e líder do grupo. “Mas desde quando um oportunista ganhar
dinheiro à custa de um artista é cultura?”
Expurgando
a frase de seu teor ofensivo – fica implícito que todo escritor que se dedica ao
gênero biográfico é um oportunista –, vale refletir sobre ela. Essa reflexão
parte da história e dos propósitos das biografias. Desde que os fenícios criaram
o alfabeto, antes do século XII a.C., a humanidade é fascinada pela vida dos
autores de façanhas exemplares. De alguma forma, os poemas épicos, como Ilíada e Odisseia, tratam de biografias
idealizadas de heróis. Foi o escritor grego Plutarco (c. 46-120 d.C.) que
estabeleceu o critério de biografar vultos pátrios a partir de fatos, não
lendas. Em Vidas paralelas, ele narrou a vida dos
governantes gregos e romanos a partir de pesquisas nos arquivos – e criou um
gênero até hoje popular. Biografias são textos de cultura. Fazem os leitores
refletir sobre o exemplo dos grandes homens, seus fracassos e proezas. Como
afirmou Plutarco, as biografias estimulam o conhecimento e a reflexão sobre os
atos dos outros: “O ser humano não pode deixar de cometer erros; é com os erros
que os homens de bom-senso aprendem a sabedoria para o futuro”.
A
biografia lida com o homem em sua complexidade. Por isso, é um exercício
intrigante e complexo. Grandes textos biográficos iluminam a contribuição do
personagem biografado. São os casos da biografia do escritor irlandês James
Joyce, publicada pelo crítico literário Richard Ellman, ou a do psicanalista
Sigmund Freud, pelo historiador Peter Gay. A biografia do dramaturgo Nélson
Rodrigues, O
anjo pornográfico, do jornalista Ruy Castro, reavivou o interesse pela obra
de Rodrigues.
Nova
biografia de Frank Sinatra conta os anos de formação do cantor
Seriam
essas biografias fruto da ambição de oportunistas? Certamente, existem
aproveitadores entre biógrafos, como em outras profissões. Mas não são os casos
dos autores citados. Os autores das biografias de Roberto Carlos e Garrincha
dedicaram anos de pesquisa para fazer jus ao conselho de Plutarco. Criaram obras
relevantes sobre personalidades públicas – e não indivíduos comuns.
Retirar
livros de circulação é uma atitude bárbara que desencoraja o ofício dos
escritores e dos editores e a própria possibilidade do conhecimento. Para
impedir isso, o Sindicato Nacional dos Escritores movimenta-se para pressionar o
Congresso Nacional a aprovar a proposta de Lima Neto. Na semana passada, sua
tramitação foi embargada por solicitação do deputado Marcos Rogério (PDT-RO).
Isso obriga que o projeto seja rediscutido em plenário... sabe-se lá quando.
“Vamos lutar contra os oportunistas do dano moral”, diz Roberto Feith, diretor
da editora Objetiva. “Roberto Carlos faz parte da história cultural do Brasil.
Ele não pode impedir que se escreva a verdade sobre ele. Temos de derrubar o
sofisma de que a personalidade pública tem o mesmo direito do cidadão comum. Não
tem. Suas ações servem de exemplo aos outros. Do jeito como está, o Brasil
continuará o único país democrático do mundo que permite a censura prévia.” E
que incentiva os obscurantistas a impedir que a verdade apareça.
(Foto: Marcos de Paula
Estadão Conteúdo)
http://revistaepoca.globo.com
DEBATES
E PROVOCAÇÕES - 17/05/2013
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COLABOROU NINA FINCO
O projeto de Lima Neto quer corrigir uma ambiguidade do Artigo 20 do Código Civil, que dispõe sobre o uso da imagem de uma pessoa. A forma como o artigo foi redigido dá vazão a interpretações ambíguas. Diz ele: “Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da Justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Segundo Lima Neto, esse artigo gerou uma “fábrica de processos de dano moral, organizada pelos escritórios de advocacia”. “Essas ações legitimam a censura prévia no país, permitem a retirada de circulação de livros e ferem o direito à informação”, diz Lima Neto. “Elas tornam obrigatórias no país as biografias chapa-branca.”
A biografia lida com o homem em sua complexidade. Por isso, é um exercício intrigante e complexo. Grandes textos biográficos iluminam a contribuição do personagem biografado. São os casos da biografia do escritor irlandês James Joyce, publicada pelo crítico literário Richard Ellman, ou a do psicanalista Sigmund Freud, pelo historiador Peter Gay. A biografia do dramaturgo Nélson Rodrigues, O anjo pornográfico, do jornalista Ruy Castro, reavivou o interesse pela obra de Rodrigues.
Seriam essas biografias fruto da ambição de oportunistas? Certamente, existem aproveitadores entre biógrafos, como em outras profissões. Mas não são os casos dos autores citados. Os autores das biografias de Roberto Carlos e Garrincha dedicaram anos de pesquisa para fazer jus ao conselho de Plutarco. Criaram obras relevantes sobre personalidades públicas – e não indivíduos comuns.
Retirar livros de circulação é uma atitude bárbara que desencoraja o ofício dos escritores e dos editores e a própria possibilidade do conhecimento. Para impedir isso, o Sindicato Nacional dos Escritores movimenta-se para pressionar o Congresso Nacional a aprovar a proposta de Lima Neto. Na semana passada, sua tramitação foi embargada por solicitação do deputado Marcos Rogério (PDT-RO). Isso obriga que o projeto seja rediscutido em plenário... sabe-se lá quando. “Vamos lutar contra os oportunistas do dano moral”, diz Roberto Feith, diretor da editora Objetiva. “Roberto Carlos faz parte da história cultural do Brasil. Ele não pode impedir que se escreva a verdade sobre ele. Temos de derrubar o sofisma de que a personalidade pública tem o mesmo direito do cidadão comum. Não tem. Suas ações servem de exemplo aos outros. Do jeito como está, o Brasil continuará o único país democrático do mundo que permite a censura prévia.” E que incentiva os obscurantistas a impedir que a verdade apareça.
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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