Em clima de despedida de Santa Catarina, o rei da música
brasileira embalou 20 mil fãs
Marcos Espíndola
Uma longa espera de 30 anos separam a primeira da segunda visita de Roberto
Carlos ao Estádio Orlando Scarpelli. No jargão futebolístico, ele jogou em casa.
O rei reuniu cerca de 20 mil pessoas na Capital sob uma noite estrelada e
agradável de sábado, no último show da sua turnê pelo Estado — passou por
Joinville, na quarta-feira, e Blumenau, na quinta. Algo similar para um artista
em tempos recentes, só o show do beatle Paul McCartney, ano passado, na
Ressacada. Roberto ascendeu ao
grande palco às 21h40, vestindo branco. Em véspera de clássico de futebol na
capital, o Rei preferiu deixar o tradicional azul de lado, em respeito aos
anfitriões, o Figueirense e a torcida alvinegra.
— Que prazer é ver vocês
mais uma vez aqui em Florianópolis, no estádio Orlando Scarpelli. Por via das
duvidas, vim de branco, pra não ter problema. É obrigação a gente evitar
problema. Obrigado por este amor, este carinho, estas coisas todas que recebo de
vocês desde que nasci. Gostaria de dizer muitas outras coisas, mas eu não gosto
de falar, gosto de ir cantando — afirmou ao final da primeira
canção.
Quem começou cantando, porém, não foi Roberto. Antes do cantor
pisar no palco, o regente da banda deu os primeiros acordes e logo foi seguido
por um coral de 20 mil vozes. Na partitura, Como é grande o meu amor por você.
Fora do estádio, moradores de prédios vizinhos, de suas sacadas, reforçaram o
coro com a mesma emoção de quem estava no Orlando Scarpelli. E quem esteve mais
perto do Rei ajudou a movimentar ainda mais o comércio local — quem garantiu
ingresso do show fez questão de garantir também o figurino. Mulheres penteadas,
maquiadas e muito bem vestidas ajudaram a reforçar o contraste de marmanjos
suados que lotam o estádio em dia de jogo.
A platéia,prédios vizinhos e três gerações assistem o show do Rei em Florianópolis
O Bairro do Estreito
preparou-se para a sua corte ao Rei. Pelo menos 10 ruas no entorno do estádio
foram interditadas para garantir o acesso seguro ao local e linhas de ônibus
especiais foram mobilizadas. Décadas de reinado conferem a Roberto uma condição
quase absoluta de devoção popular. Basta os primeiros acordes
de Emoções para colocar o
público em frisson. O êxtase que incendeia a plateia contrasta com a figura
resoluta, contida e sóbria.
Roberto é hermético e programático, do
repertório aos afagos ensaiados no público. É mais um cerimonial do que um show,
regida quase que por uma liturgia de grandes clássicos, que lhe permite exercer
a sua majestade à serviço dos súditos. E todo o seu poder emana da forma com o
qual melhor se expressa para as massas: nas canções que como poucas sabem
traduzir tão bem o sentimento de uma nação: Cama e Mesa, Eu Te Amo, Te Amo e Te Amo, Detalhes (numa gigantesca e comovente versão apenas
ao violão), Desabafo, O Portão. Foram mais de 20 canções,
em duas horas de intensidades diversas.
Roberto consegue transgredir a
própria personalidade hermética para declamar-se ao público, brincar com a
banda, mas sem fugir do seu roteiro. Se torna nu quando canta Lady Laura, a canção dedicada à sua
saudosa mãe, que o próprio já disse que jamais a cantará com a alegria de outros
tempos. De volta ao seu eixo litúrgico, reverencia alguns momentos singulares da
carreira em dois pout porri: o primeiro sensual (incluindo Café da Manhã e Cavalgada), ou a fase "motel",
segundo Erasmo Carlos, e o segundo, já no quarto final do show, dedicado ao rock
(ou à distante Jovem Guarda).
Quem vai ao show de Roberto sabe que
não verá improvisos ou transgressões. O repertório pouco mudou desde a sua
última vinda a Capital, em 2009, na comemoração dos 25 anos da RBS em Santa
Catarina. Mas foi impecável, regido magistralmente pelo escudeiro Eduardo Lage.
Exceção feita apenas ao pitoresco pianista e aos novos hits Furdúncio e Esse Cara Sou Eu — um fenômeno que desbancou os até então
imbatíveis clássicos e estabeleceu um novo clímax na plateia. Em um esforço para
se fazer "plebeu", o Rei roga que qualquer ali um pode ser o "cara". Mas todos
ali sabem que a sua majestade popular é um título indissolúvel e absoluto.
Em mais uma passagem de pompa,
Roberto não transgrede o seu rito e fecha exultando o seu "direito divino"
perante à música para fechar com Jesus Cristo e concedendo um tradicional afago aos
súditos extasiados ao distribuir rosas e cravos. Relíquias de uma corte que não
muda, por ainda parecer perfeita, "como manda a receita" de O Côncavo e o
Convexo.
Confira a setlist do show:
*
Emoções * Eu Te Amo, Te Amo, Te amo * Além do horizonte * Cama e
mesa * Detalhes * Desabafo * O Portão * Lady Laura * Nossa
Senhora * Mulher Pequena * Proposta * Pout Porri Sensual * Esse Cara
Sou Eu * Furdúncio * Pour Porri Rock * Como é grande o meu amor *
Jesus Cristo
Em clima de despedida de Santa Catarina, o rei da música brasileira embalou 20 mil fãs
Roberto ascendeu ao grande palco às 21h40, vestindo branco. Em véspera de clássico de futebol na capital, o Rei preferiu deixar o tradicional azul de lado, em respeito aos anfitriões, o Figueirense e a torcida alvinegra.
— Que prazer é ver vocês mais uma vez aqui em Florianópolis, no estádio Orlando Scarpelli. Por via das duvidas, vim de branco, pra não ter problema. É obrigação a gente evitar problema. Obrigado por este amor, este carinho, estas coisas todas que recebo de vocês desde que nasci. Gostaria de dizer muitas outras coisas, mas eu não gosto de falar, gosto de ir cantando — afirmou ao final da primeira canção.
Quem começou cantando, porém, não foi Roberto. Antes do cantor pisar no palco, o regente da banda deu os primeiros acordes e logo foi seguido por um coral de 20 mil vozes. Na partitura, Como é grande o meu amor por você. Fora do estádio, moradores de prédios vizinhos, de suas sacadas, reforçaram o coro com a mesma emoção de quem estava no Orlando Scarpelli. E quem esteve mais perto do Rei ajudou a movimentar ainda mais o comércio local — quem garantiu ingresso do show fez questão de garantir também o figurino. Mulheres penteadas, maquiadas e muito bem vestidas ajudaram a reforçar o contraste de marmanjos suados que lotam o estádio em dia de jogo.
Roberto é hermético e programático, do repertório aos afagos ensaiados no público. É mais um cerimonial do que um show, regida quase que por uma liturgia de grandes clássicos, que lhe permite exercer a sua majestade à serviço dos súditos. E todo o seu poder emana da forma com o qual melhor se expressa para as massas: nas canções que como poucas sabem traduzir tão bem o sentimento de uma nação: Cama e Mesa, Eu Te Amo, Te Amo e Te Amo, Detalhes (numa gigantesca e comovente versão apenas ao violão), Desabafo, O Portão. Foram mais de 20 canções, em duas horas de intensidades diversas.
Roberto consegue transgredir a própria personalidade hermética para declamar-se ao público, brincar com a banda, mas sem fugir do seu roteiro. Se torna nu quando canta Lady Laura, a canção dedicada à sua saudosa mãe, que o próprio já disse que jamais a cantará com a alegria de outros tempos. De volta ao seu eixo litúrgico, reverencia alguns momentos singulares da carreira em dois pout porri: o primeiro sensual (incluindo Café da Manhã e Cavalgada), ou a fase "motel", segundo Erasmo Carlos, e o segundo, já no quarto final do show, dedicado ao rock (ou à distante Jovem Guarda).
Quem vai ao show de Roberto sabe que não verá improvisos ou transgressões. O repertório pouco mudou desde a sua última vinda a Capital, em 2009, na comemoração dos 25 anos da RBS em Santa Catarina. Mas foi impecável, regido magistralmente pelo escudeiro Eduardo Lage. Exceção feita apenas ao pitoresco pianista e aos novos hits Furdúncio e Esse Cara Sou Eu — um fenômeno que desbancou os até então imbatíveis clássicos e estabeleceu um novo clímax na plateia. Em um esforço para se fazer "plebeu", o Rei roga que qualquer ali um pode ser o "cara". Mas todos ali sabem que a sua majestade popular é um título indissolúvel e absoluto.
Em mais uma passagem de pompa, Roberto não transgrede o seu rito e fecha exultando o seu "direito divino" perante à música para fechar com Jesus Cristo e concedendo um tradicional afago aos súditos extasiados ao distribuir rosas e cravos. Relíquias de uma corte que não muda, por ainda parecer perfeita, "como manda a receita" de O Côncavo e o Convexo.
Confira a setlist do show:
* Emoções
* Eu Te Amo, Te Amo, Te amo
* Além do horizonte
* Cama e mesa
* Detalhes
* Desabafo
* O Portão
* Lady Laura
* Nossa Senhora
* Mulher Pequena
* Proposta
* Pout Porri Sensual
* Esse Cara Sou Eu
* Furdúncio
* Pour Porri Rock
* Como é grande o meu amor
* Jesus Cristo
06/04/2013
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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