Berço de Roberto Carlos e Rubem Braga, Cachoeiro de Itapemirim tem a memória de seus filhos pródigos preservada graças a moradores

  • Um perfil da pacata cidade capixaba que viu nascer elenco tão sortido do folclore nacional, a ponto de receber de Vinicius de Moraes o epíteto de ‘capital secreta’

Se houvesse um concurso para eleger “a cidade brasileira com mais filhos ilustres”, a pequena Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, levaria com folga. Entre os 5.570 municípios brasileiros, difícil encontrar outro interiorano (capital é covardia, ora) que tenha gerado tantas figuras notórias para o país. Talvez Sobral, no Ceará, se aproxime em quantidade (terra do cantor Belchior, do humorista Renato Aragão, do artista plástico Zenon Barreto e do cineasta Luiz Carlos Barreto, o “Barretão”). Mas somente a pacata cidade capixaba viu nascer elenco tão sortido do folclore nacional, a ponto de receber de Vinicius de Moraes o epíteto de “capital secreta”. São cachoeirenses o cantor e compositor (e Rei) Roberto Carlos; o mais importante cronista brasileiro, Rubem Braga; o compositor Sergio Sampaio; a atriz naturista Luz del Fuego; o produtor musical e diretor Carlos Imperial; o ator Jece Valadão (que foi criado lá, apesar de ter nascido no distrito de Muqui); e a atriz Darlene Glória. Também viveram por lá as irmãs Danuza e Nara Leão.

Em meio às celebrações pelo centenário de Rubem Braga, que começaram em 12 de janeiro com o anúncio de eventos culturais pelo país, Cachoeiro de Itapemirim voltou a ser lembrada por sua importância cultural. Mas o que a torna tão especial? Será a água do Rio Itapemirim? Moradores mais antigos lembram que o fato de Cachoeiro escoar pelo porto do Rio o café produzido no Espírito Santo antes da ampliação portuária de Vitória fez com que muitas famílias mandassem os filhos estudarem direto na então capital federal, voltando mais ilustrados.

Mas não é uma tese conclusiva. Fora o fato de ser uma das principais produtoras de mármore do país, e de abrigar a única fábrica de pios de pássaros “da América Latina” — a Pios Coelho exporta para especialistas em aves de todo o mundo —, não há nada que a diferencie de qualquer povoado de 200 mil habitantes.

Cachoeiro está incrustada na Mata Atlântica, é cortada por um rio e tem uma praça com coreto e pipoqueiro. Os bancos dos jardins públicos levam propagandas de farmácia pintadas no espaldar. O doce de leite “é o melhor da região”. A lista telefônica tem 90 páginas. Uma cafeteria na frente da sede da prefeitura reúne colecionadores de cédulas antigas. Um galpão aos fundos do Jaraguá Tênis Clube serve aos praticantes de bocha. As ruas do Centro são tomadas todo fim de tarde por adolescentes skatistas. Como toda cidade do interior, Cachoeiro tem um bar chamado Coração de Estudante; uma franquia d’O Boticário na avenida principal; e uma gazeta que publica fotos de recém-nascidos na coluna social. Tem um hospital parado e “horário de verão” no serviço público, que funciona só até as 13h.

É mais fácil reparar o que Cachoeiro não tem: apesar de ser berço esplêndido do maior cantor popular brasileiro, do inventor da crônica moderna, de um dos mais instigantes parceiros de Raul Seixas, de uma das primeiras feministas do país etc., a cidade guarda poucas referências dos seus filhos ilustres. É de deixar o visitante inconformado: nenhuma das duas livrarias da cidade têm livros de Rubem Braga à venda; a Casa de Cultura Roberto Carlos, onde o cantor viveu até os 13 anos, provavelmente carrega o título secreto de museu mais pobrinho do país. Descem hordas de turistas dos ônibus para tocar o solo azul sagrado do Rei e saem de lá mal tendo visto poucas réplicas de objetos que fazem alusão à sua história. Isso, se encontrarem o local aberto: a casa funciona de quarta a domingo, pela manhã.

Não há qualquer menção a Sergio Sampaio, Luz del Fuego, Jece Valadão, Carlos Imperial ou Darlene Glória na cidade por parte do poder público. Nem aquelas plaquetas “nesta casa viveu..”. Não fossem as iniciativas de resgate empreendidas pelos moradores, Cachoeiro seria só uma produtora de mármore (e pios) de gentílico curioso.

— Cachoeiro deve muito a seus filhos, mas faz pouco por eles — resume o advogado Higner Mansur, colunista do diário “Fato”. — Parece-me que a cidade ainda não despertou para o tesouro que tem. Os administradores não sabem que cultivar os ícones culturais pode render mais que indústrias. O turismo é a fábrica sem chaminé, que movimenta bilhões no mundo. Menos aqui.

Em Cachoeiro, Rubem Braga é o filho ilustre que teve mais sorte. A casa em que a família viveu segue intacta, tal qual o pé de fruta-pão que ele eternizou nas crônicas sobre sua infância. Aberta à visitação, a chamada Casa dos Braga abriga parte do acervo da família e serve como única biblioteca pública, com dez mil livros. O nome do autor batiza uma Bienal Cultural, um teatro, um bairro e a sede do Lions Clube. Suas cinzas foram jogadas no Rio Itapemirim. Mas quem tem um busto em praça pública é seu irmão mais velho.

— Para nós, cachoeirenses, Newton Braga é um nome de maior peso para a cidade. Foi ele quem abriu os caminhos para Rubem ser quem foi. Além disso, ele criou a Festa de Cachoeiro, a premiação do Cachoeirense Ausente (espécie de honraria equivalente à carioca Medalha Pedro Ernesto). Ele foi um grande apaixonado pela cidade — justifica a psicopedagoga Maria Elvira Tavares Costa, mulher de Higner e responsável por uma ideia simples que enfeita a cidade: em 2006, ela sugeriu à prefeitura que espalhasse em locais estratégicos placas com trechos de crônicas de Rubem, que estão lá até hoje.

Maria Elvira e Higner são os guardiões não oficiais da memória de Rubem Braga em Cachoeiro. Como os herdeiros do cronista hoje vivem na capital, Vitória, e no Rio de Janeiro, são os dois que servem de referência a quem procura pistas do escritor por lá. Estão com eles, guardados numa caixa de acrílico vermelha, fotos pessoais do cronista (que integram a exposição “Rubem Braga: o fazendeiro do ar”, que passará este ano por Vitória, Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Recife); os exemplares originais do jornal “Correio do Sul”, em que Rubem estreou como cronista, bem como livros do acervo do autor, com dedicatórias de Oscar Niemeyer, Rachel de Queiroz, Mario Quintana e Mário Lago (“Rubem, um abraço sempre faz bem. Principalmente a quem o dá”, escreveu Lago).

— Se eu deixar este acervo na Casa dos Braga, corre-se o risco de o material ser roubado, como aconteceu com o relógio centenário da família. Isso se uma enchente não levar tudo, como ocorreu em 2011. Sempre quis deixar o acervo para um arquivo público decente. O material não é meu, é de Cachoeiro. Tenho esperança de entregá-lo em vida, mas em condições seguras — explica o advogado.

Citado em crônicas de Rubem, o tal relógio sumiu em 2009. O que o turista vê na Casa dos Braga, hoje, é um similar, garimpado por Maria Elvira num antiquário e doado à instituição.

Histórias de moradores arregaçando as mangas para preservar a memória cultural da cidade não faltam. A escultora paulistana Ângela Borelli, por exemplo, mudou-se para Cachoeiro há 20 anos, para facilitar o acesso ao mármore bruto, matéria-prima que usa em suas obras. Na capital extrativista, não é difícil ver grandes nacos de mármore abandonados nas esquinas. Ângela transforma o lixo em arte — e sonha em criar uma escola de escultura na periferia, para formar artistas locais.

Em 2009, quando Cachoeiro recebeu a visita de Roberto Carlos para um show em comemoração aos seus 50 anos de carreira, depois de 14 anos sem ir lá, Ângela, fã do Rei, teve uma ideia: esculpir uma estátua em tamanho natural do ídolo para presentear a cidade que a acolheu. Conseguiu um pedaço de mármore de três metros de altura e, seis mil horas de trabalho depois (ela contabiliza o tempo por horas), em julho de 2011, a escultura ficou pronta. Foi, então, assinado um termo de doação entre Ângela e o município. Mas, até hoje, o Roberto Carlos de 3.200 quilos continua no quintal do seu ateliê.

— É um descaso sem tamanho. O governo diz que há outras prioridades no momento, e que não tem como arcar com os custos de instalação — lamenta Ângela, que comprometeu as duas mãos com o trabalho exaustivo, o maior de sua carreira.

Entre os moradores da cidade, corre o boato de que a estátua não teria agradado esteticamente. Mas a prefeitura informa que “estuda uma alternativa de utilização da obra”.



Partida de bocha, uma febre na cidade:


Réplica de um rádio usado na época em que Roberto Carlos iniciou sua carreira,
 doada por fã ao acervo do museu

Fábrica  Pios Coelho, exporta apitos

Detalhe decorativo da rua  em que viveu o Rei

Placa decorativa dos pontos turísticos

Casa dos Braga, com pé de fruta-pão eternizado em suas crônicas

http://oglobo.globo.com
03/02/2013
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