Por
que derramaram não seguradas lágrimas as lindas mulheres quando o cantor Roberto
Carlos, no programa do Faustão, recebeu o prêmio Mario Lago? Elas, cara a cara
com o artista, derreteram-se, sentidas, suspirantes, compungidas. Por quê? Bom
começar o ano tentando entender aquelas lágrimas, espelho lúcido de outras
velhas lágrimas. Entender não é caminho de cura? Cura até de doença considerada
letal e crônica? É que nos rápidos minutos em que você lê estas linhas, muitas
mulheres se esvaem, derretem-se, não em lágrimas, mas em sangue? Sangue mesmo.
Consideremos este 2013 de tantas mulheres ainda submetidas aos urros, aos
horrores, a paralisias e balas de embrutecidos machos pré-históricos dentro da
propalada pós-modernidade.
As lágrimas das lindas, cara a cara com o Roberto,
decorreram da consciência geral feminina sobre a dor histórica das mulheres,
desde outroras muito outrora, até hoje. Aí, chega de manso o Roberto Carlos
cantando, como se no ouvido de cada mulher, a música "Esse cara sou eu"; aí
chega ele sussurrando "E no meio da noite te chama/ Pra dizer que te ama/Esse
cara sou eu". Que mulher, memória das durezas amorosas da avô, da mãe, da amiga,
de outra, de outra e de outra, que mulher, paciente, assistente, sabedora da dor
de outra mulher, que mulher segura as lágrimas? As do palco dominical se põem a
chorar pelas mulheres do grande palco do mundo, pranto pelas chagas vividas e
sabidas, as dores das mulheres de todos os tempos.
Não, não se juntem todos os homens do mundo num rol de desalmados. O
próprio Roberto desfaz a burrice de se pensar neles embutidos em carcaças de
truculência. As lágrimas delas brotaram pelas seculares e pelas atuais errantes
do planeta machista cheio de machos secos, entorpecidos. Há avanços (levados
também por homens) contra os massacradores de mulheres, muito ativos no
aniquilamento do corpo físico e psíquico de mulheres. As escapes das facadas e
das balas encolhem-se aqui, aí, mudas, mirradas sombras fugazes, mortas-vivas,
como se à espera da extrema-unção. Dividem um teto, não de fato o leito, com
criaturas frias. Choram, as mal maridadas, mestras em soluços e dolências. Quem
não as vê, resignadas, pálidas de mudez?
E,
nos vem o Roberto, no vigor dos setenta e lá vãos anos, a segredar promessas,
flores de romantismo, o sonho de um cara "que depois do amor você se deita em
seu peito/ Te acaricia o cabelo, te fala de amor/ Te fala outras coisas, te
causa calor". Elas vibram, sonham, lacrimejam, sobretudo as assexuadas destes
tempos de sexo pelo sexo.
Bom começar 2013
pensando em pessoas mais amantes, não emparedadas, eles trombudos na sua. Bom
pensar neles e nelas imersos nas doçuras de uma igualdade mais igual. Mas vem o
entretanto. A questão esbarra em mas ou em porém, o que dá no mesmo, porque mas,
porém, contudo, essas conjunções aqui falam do machismo às claras, muitíssimas
vezes latejante, escondido em vãos pouco percebidos de quase todos os homens. Não há dúvida de que chegamos a um louvável cume de avanço no trânsito macho e
fêmea. Um número cada vez maior de homens as respeita mais, luta por mulheres
elevadas, ilustradas que cresçam e refuljam claridades próprias, que andem por
seus passos, que optem por ser assim ou de outro jeito. Mas nesta exata hora
homens matam impares que já foram pares. É esta a luta. Ao encontro do cara do
Roberto. http://www.orm.com.br Belém/PA/06/01/2013
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Não há dúvida de que chegamos a um louvável cume de avanço no trânsito macho e fêmea. Um número cada vez maior de homens as respeita mais, luta por mulheres elevadas, ilustradas que cresçam e refuljam claridades próprias, que andem por seus passos, que optem por ser assim ou de outro jeito. Mas nesta exata hora homens matam impares que já foram pares. É esta a luta. Ao encontro do cara do Roberto.
http://www.orm.com.br
Belém/PA/06/01/2013
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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