Porque hoje é Domingo






Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com

Esta história tem praticamente 27 anos. Quer dizer que eu, na altura, tinha 42 anos de idade e, profissionalmente falando, 20 anos de carreira - no dia 10 de Março próximo completo 48. Em 2014 chego, espero que sim, aos 50, e logo com  o Brasil a sediar a Copa do Mundo de Futebol.

Na minha primeira deslocação às Ilhas Canárias (de origem espanhola) e ali bem pertinho da “nossa” Ilha da Madeira, um dos mais bonitos postais de Portugal. Qualquer cidadão poderia entrar numa dessas ilhas espanholas (Las Palmas, Tenerife, etc., etc) apenas com o seu bilhete de identidade (aqui no Brasil diz-se carteira). Nesse dia, viajei com o meu passaporte e, obviamente, com toda a minha documentação relacionada com a profissão, ou seja, as identidades de PRESS, a internacional, a nacional, e o cartão de identidade do próprio jornal. Só não levei o Bilhete de Identidade, substituído pelo passaporte. Já o tinha feito noutras situações. Nada de anormal. Porém, sem me aperceber, o prazo de validade do passaporte tinha expirado (aqui no Brasil diz-se vencido) dois dias antes. Ao chegar ao controle de entrada do Aeroporto de Tenerife, fui interpelado pelo funcionário que me encaminhou para uma sala a fim de aguardar um superior. Fiquei surpreendido e perguntei o que se passava. O funcionário explicou-me o motivo. Tinha que declarar a entrada no país com o passaporte fora da validade e... por dois dias. Deu-me vontade de rir, de lançar fortes gargalhadas, mas sempre me contive para não agravar a situação, tendo em linha de conta, mesmo por dois dias, que a razão estava do lado deles. Dura Lex, Sed Lex. Fui esperando, esperando, fumando (naquela altura fumava bem. Hoje sou um feliz não-fumador), até que surgiu o superior (um “bigodaças”) e fomos conversando. Disse-lhe que, de fato, não tinha reparado que o passaporte estava fora do prazo há dois dias e que, como sempre fazia em viagens, não trazia o BI. Olhei para ele e sempre fui comentando que não era nada de muito grave, até porque se meteu no meio o fim-de-semana (viajei na segunda) e que as repartições públicas estavam fechadas. Ainda lhe disse: podemos seguir com este assunto para o Consulado de Portugal. O “bigodaças” estava na disposição de manter aquele pequeno “sofrimento” (confesso que eu estava prestes a explodir), mas, “lo creo”, fui mais esperto do que ele e, puxando da carteira dos documentos, exibi o meu cartão do Jornal “A Bola”. O homem não sabia que eu era jornalista e, vejam só, mudou de comportamento como da noite para o dia. Mandou-me sair e ainda me deu um forte aperto de mão. A força do (nosso) Quarto Poder. Quando cheguei ao autocarro (ônibus aqui no Brasil) que transportaria o grupo de jornalistas ao Hotel (curiosamente, inaugurado naquele dia em que chegamos), os meus colegas estavam irritados com a demora e fui recebido com palmas. Só que nunca souberam o motivo que me levou aos chamados “serviços secretos”. Como sei ser sacana quando a circunstância o impõe, comecei a fingir que estava com dor no braço direito. Logo questionaram: o que houve companheiro? Respondi muito sério: levei uma injeção para não comer nenhuma canarinha. Um dos mais novos ainda insistiu: foi mesmo verdade? Claro que foi. Disseram-me que eu fui escolhido por sorteio, como fazem aos jogadores para o controle antidoping. O argumento pegou. Só no regresso é que contei a verdade do sucedido. O Joel, que sempre lidou de perto comigo, disse em voz alta: eu acreditei porque ele é muito cobiçado pelas mulheres.

Não é verdade, atalhei. São mais as vozes do que as nozes.

A DEVIDO TEMPO – Puxa, já tenho esta fama aqui no Brasil. Será que foi um vírus que veio das Ilhas Canárias com “passaporte vencido”.

*Jornalista internacional no Brasil
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