Por: Carlos Alberto Alves jornalistaalves@hotmail.com
Capítulo XI (Conclusão)
Fechado no Orld Trade Center
Ir a NY e não visitar as torres gémeas, seria o mesmo do que ir a Roma e não ver o Papa. Em 1977, na primeira deslocação aos Estados Unidos, na companhia do Luís Pimpão e do Jorge Leandro (regressou a Portugal e, mais tarde, veio a falecer), visitei Nova Iorque, de acordo com o que havia programado em termos de reportagens. Claro que o primeiro ponto a visitar incidiu nas torres gémeas do Orld Trade Center. Do terraço, observei aquele lindo panorama. Como é linda a Estátua da Liberdade, por exemplo. Fiquei mesmo encantado. Depois, veio algum desencanto quando, no descer, o elevador parou a meio por falta de energia elétrica. Todos os acompanhantes ficaram apreensivos, mas, segundo nos disse o Pimpão, às vezes isso acontecia. Mas quarenta minutos foi muito tempo. Fomos rindo, rindo, contando anedotas, à espera da funcionalidade do elevador. Quando a energia voltou, um suspiro de alívio. Confesso que receei o pior na altura em que o elevador ficou a meio do percurso.
Dessa torre, hoje só restam as histórias para serem contadas. Já lá não estão as famosas torres gémeas. A desgraça chegou volvidos vinte e quatro anos. Recordar o 11 de Setembro de 2001 é sempre doloroso. Eu só passei um pequeno susto naquela tarde de Julho de 1977. Muitos outros, porém, nesse trágico 11 de Setembro, foram alvo de um atentado que deixou o mundo perplexo e entristecido. O terrorismo feriu o orgulho dos norte-americanos, matando muita gente inocente, muitos deles, certamente, discordantes da própria política de George W. Bush, numa guerra em que os americanos também têm sofrido. Basta analisar o registo do número de mortos. Parece que os americanos esqueceram a lição do Vietnam. Querem continuar a ser os mais poderosos, usando a força. Será que esse tal Bin Laden vai continuar a fazer das suas para ferir ainda mais o exarcebado orgulho dos norte-americanos, nomeadamente George W. Bush... 10 de Março assinalado por duas vezes
Foi a 10 de Março de 1964 que comecei a fazer jornalismo. A 10 de Março de 1981, nasceu a minha filha. Uma agradável coincidência. Esse 10 de Março foi um passo significativo da minha vida. Em 1989, assinalei as “bodas de prata” com o pessoal do jornal “A União” e, à noite, uma festa na Adega Lusitânia, festa esta que terminou na Rádio Horizonte-Açores com a presença da minha filha, vinda da ilha do Pico, e que fazia oito anos de idade. Um dia bonito, apesar de ser uma sexta-feira 13. Depois, no domingo, dia 15, um almoço com a equipa do Lusitânia. O clube, nessa altura, era presidido pelo meu grande amigo Luís Carlos de Noronha Bretão. Recebi muitas felicitações e fui entrevistado por todos os meus colegas editores da Rádio Horizonte e também pela Rádio Televisão Portuguesa-Açores, representada por Paulo Augusto. Em 2004, na ilha do Faial, alcancei os 40 anos de carreira, com outra festa significativa, organizada pelo Futebol Clube dos Flamengos, clube que servi com toda a minha dignidade. Uma festa que decorreu no polivalente da Junta de Freguesia. Não faltaram os telefonemas e os telegramas de felicitações. Comigo estiveram, mais uma vez, o Rádio Clube de Angra, a Antena 1, e a Rádio Televisão Portuguesa-Açores. Lembro-me que o repórter da televisão, José Matos, no final, terá dito que estava na hora de escrever um livro. Não levou muito tempo. Foi escrito no Brasil, como poderia ter sido em outro país qualquer onde me encontrasse. Ao Futebol Clube dos Flamengos, agradeço do fundo do coração a iniciativa. Foi gratificante o fato de terem convidado para orador o Dr. Carlos Lobão, meu antigo jogador no Sporting, na época em que fomos campeões. Carlos Lobão que, segundo ele próprio revelou, teve dificuldades em falar do meu percurso. Um agradável reconhecimento.
Brincadeiras nos colóquios
Como moderador, participei em vários colóquios, destacando, nomeadamente, nas ilhas do Pico, Terceira, Graciosa e São Miguel. Na Terceira, com o presidente da APAF, Luís Guilherme, em São Miguel, com o árbitro Vítor Pereira, no Pico com o treinador Manuel José, o atleta Domingos Castro, Rui Almeida (da Antena 1), Dr. José Raposo, João Barnabé (professor de educação física e treinador de futebol) e Alder Dante (ex-árbitro internacional). Finalmente, na Graciosa com Carlos Valente, ex-árbitro internacional, que dirigiu o jogo seleção da Graciosa – Juventude de Évora, que assinalou a inauguração do Estádio de Santa Cruz. Depois, nessa mesma ilha, com o Clube de Portugal, os veteranos de Portugal que incluiu muitos nomes sonantes, entre os quais José Rachão, José Eduardo (na altura era comentador da Rádio Televisão Portuguesa), Fernando Peres, Manuel Fernandes (já era treinador do Santa Clara e veio com autorização do clube), Celestino, etc.. Depois do jogo, José Ávila, promotor desse jogo, ofereceu um jantar, jantar esse que foi sumamente agradável, na medida em que houve piadas para todos os gostos e paladares, particular destaque para José Rachão que foi, sem sombra de dúvidas, o grande animador, logo seguido de Fernando Peres, sempre folgazão, bem ao seu estilo.
Creio que, nestes colóquios, também dei o meu desinteressado contributo, reconhecendo ainda que recolhi mais alguns ensinamentos. Em suma, valeu a pena.
Não queria deixar de assinalar a minha presença nas comemorações dos 30 anos co Clube da Imprensa Desportiva, vulgo CNID, tendo eu falado sobre a imprensa regional, na cidade de Angra do Heroísmo, nas Bodas de Diamante da Associação de Futebol de Angra, com a qual o CNID colaborou. Lá estiveram Artur Agostinho (velha glória da imprensa portuguesa), Dr. David Sequerra, Manuel da Luz Afonso (antigo selecionador nacional), Aurélio Márcio (meu companheiro de “A Bola”), Rui Tovar, Pedro Ferrari (fotógrafo de “A Bola”). Uma semana depois, o culminar das celebrações, em Lisboa, participando o Dr. Fernando Seara, ilustre figura do desporto português.
Nessa altura, o CNID era presidido pelo jornalista Rodrigo Pinto, com quem mantive sempre as melhores relações. Recorde-se que Vítor Santos foi o principal impulsionador da formação do CNID, tendo por lá passado, como presidente, alguns anos, realizando um trabalho notável, bem à sua imagem.
Ainda em relação ao Rodrigo Pinto, acresce dizer que não toquei naquele assunto dos sapatos, que já relatei num capítulo anterior. Era descabido, para mais que o Rodrigo Pinto foi gentil comigo, convidando-me para participar no aniversário do CNID (o trigésimo). Curiosamente, passados alguns anos, não muitos, representei o CNID no júri para atribuição de prémios monetários ao clube mais popular dos Açores. Comigo estiveram, para além do Diretor Regional do Desporto, José Sá, o Dr. Manuel Arruda (então presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada), Antero Gonçalves e o Dr. Fernando Silva. Presidia à direção do CNID, outro bom amigo, José Carlos Freitas, já no quadro de jornalistas de “A Bola”, concretizando ele um velho sonho, enfileirar o naipe de jornalistas do maior jornal desportivo de Portugal.
O Major Valentim Loureiro
Numa deslocação que efetuou a Angra do Heroísmo, o Boavista já tinha em mira contratar o avançado João Medeiros. O Boavista empatou com o Lusitânia a uma bola e foi o próprio João Medeiros que apontou o golo dos “leões” de Angra. Que belo cartão de visita para o presidente do clube do Bessa, Major Valentim Loureiro, e também para o treinador Mário Wilson.
No Hotel de Angra, eu, por “A Bola”, e o Jorge Barbosa, pelo Comércio do Porto (o Jorge veio para “A Bola” e, depois, “transferiu-se” para o concorrente “Record”), não dávamos tréguas ao Major, queríamos saber se, efetivamente, o Boavista iria contratar João Medeiros. O Major, só dizia calma rapazes, vão saber na altura. Não estive para meias-medidas, desloquei-me a casa do João Medeiros que me confirmou estar tudo acordado e que já se considerava jogador do Boavista. “Lixei” o Major Valentim Loureiro, dando a notícia em primeira-mão no dia seguinte. Deixei a “briga” para o Jorge Barbosa, que não ficou muito satisfeito com Valentim Loureiro, supondo que ele me tinha dado a informação por se tratar do jornal “A Bola”. O Major, no dia do regresso ao Porto, só me disse: sacanagem. Respondi-lhe: pois é, Major, cet la vie. Se somos o maior jornal, temos que dar as notícias em primeira-mão.
E fato curioso, em “A Bola”, fui eu que fiz a primeira entrevista a João Medeiros já como jogador do Boavista. Não passei cartão ao Valentim Loureiro, tendo apenas auscultado a opinião de Mário Wilson sobre o valor do novo jogador.
Passei por figurante de novelas
No dia 7 de Novembro de 2004, estava à espera da minha filha no Galeão quando, à mesa do café, onde me encontrava na companhia do Osvaldo, sua mulher Leila, e a minha amiga Marize, fui rodeado por um grupo de miúdos que me pediam autógrafos, julgando-me, pela fisionomia semelhante, um brasileiro figurante de novelas, cujo nome ainda hoje não sei. Quem será, afinal, este sósia? Só disse aos miúdos que era português, adepto do Sporting em Lisboa, e do Vasco da Gama no Brasil. Eu, figurante de novelas, quem diria. Talvez sim, porque a minha vida dava mesmo uma novela.
Mais honrosos convites
Não podia, de modo algum, aqui esquecer mais honrosos convites que recebi, relacionados com a Associação de Futebol de Angra do Heroísmo, da qual sou, por decisão de Assembléia Geral, Sócio Honorário, devidamente reconhecido pela Federação Portuguesa de Futebol. Primeiramente, três vezes seleccionador do futebol juvenil. Na primeira, com um torneio na cidade da Horta. Vencemos tudo o que havia em disputa, inclusive a disciplina. Contudo, neste torneio, fui obrigado a tomar uma decisão, afastando o dirigente associativo por quebrar a disciplina por mim imposta ao grupo de trabalho. Apresentou-se no jantar fora de horas e com a agravante de estar embriagado, nada dignificante perante um grupo de jovens.
Mais tarde, o ter participado como preletor num curso de treinadores com o cunho da Federação Portuguesa de Futebol. Deste curso, saíram bons treinadores, muitos dos quais já trabalhando com sucesso. Acresce que este curso foi encerrado pelo psicólogo Joseph Wilson, do Gabinete Técnico da Federação Portuguesa de Futebol, pessoa que muito estimo e pela qual nutre grande amizade e estimação. Acompanhei-o em dois anteriores cursos e, também, num curso para dirigismo, pelas ilhas de São Miguel, Terceira, Pico e Faial. Do naipe de preletores, também fez parte o meu companheiro de “A Bola”, Homero Serpa, que, por motivos profissionais, não se deslocou ao Pico e ao Faial, para mágoa de todos nós, uma vez que Homero Serpa completava muito bem a equipa de preletores. Aliás, escrevi esse pormenor numa das crónicas que fiz para o jornal “A Bola”.
Também aqui prestaria homenagem póstuma a Acácio Rosa, antigo e dedicado dirigente do Belenenses, mais tarde falecido. Nas suas intervenções, Acácio Rosa, muitas vezes com as lágrimas nos olhos, falava do “seu” Belenenses.
Médicos e massagistas
Já falei, no capítulo das pessoas que me marcaram, em nomes de alguns dirigentes, aqueles que sempre considerei, dentro da relatividade das coisas, de notáveis. Mas existem outras pessoas com quem mantive, ao longo dos tempos, uma saudável amizade, corolário de um entendimento recíproco.
De médicos ligados ao futebol, destaco os Drs. Almerindo Rego, Idalmiro Soares, Domingos Cunha e Fernando Artur Pimentel, este com menos tempo de convivência médico-desportiva. Como jogador, sim, até lhe chamava de Arturinho. O Arturinho que foi um bom exemplo de correção em todos os sentidos.
Relativamente a massagistas, Álvaro Coelho, Fernando Freitas, Hélder Sousa, enfermeiro Ázera (nos encontramos várias vezes na cidade da Horta, onde hoje reside) e o falecido João de Sousa Trinas (o “trinitá”, não era nada insolente, mas sim uma jóia de homem, uma bondade de enaltecer).
Obviamente que, para a pagodice, o Hélder Sousa estava sempre na primeira linha. Uma forma diferente. Os outros, em certa medida, mais comedidos. O João Trinas tinha uma interessante particularidade. Esta: adorava tirar fotografias às escondidas. Uma vez, no Canadá, apanhou-me em flagrante numa visita à ilha de Toronto. As fotos depois apareciam, algum tempo depois. Em Ponta Delgada, salvo erro em 1980, teve um revés. Formou um grupo para uma foto de posteridade (dizia ele), mas, como estava perto de um lago, a máquina escorregou-lhe da mão e caiu na água. O Trinas ficou pior do que estragado, ele que adorava aquela “máquina mágica”. Ficou para a história, debaixo de água...
Do Hélder Sousa, muitas são as histórias. Ainda hoje se fala na do cão “fox ryan”. Foi por isso que ficou alcunhado por fox. Dizem que mordeu uma loira no Centro de Estágio na Cruz Quebrada. Não vi e nada sei. Diziam as “boas línguas” que, no outro dia, a loira apareceu com o pescoço todo negro. O “fox” começava por atacar a zona da garganta para não serem escutados os gemidos. Resta agora saber, qual deles, o fox-cão ou o fox-homem?
Também tive uma... “fox ryan”
Procurei ser equilibrado no contar de histórias. Algumas das minhas (repito, algumas) também contei. E, a encerrar, vai mais esta: em 1984, acompanhei o Lusitânia numa jornada dupla, respectivamente, a Almeirim e Almada. No fim-de-semana, um grande dilúvio com chuvas torrenciais que provocaram cheias na zona de Lisboa – e não só -. Claro que, do sábado para o domingo, na noite, claro está, comecei a percorrer as minhas “capelinhas”, começando pelo Comodoro no Rossio e terminando, infalivelmente, na Cova da Onça, onde lá tinha a “minha preferida”. Por isso é que já diziam que eu era “sócio” da Cova. Sócio nunca fui, mas sim quase um familiar daquela rapaziada comandada pelo gerente Carlos Alberto (o outro, não era eu). Depois da meia-noite, fomos à vida, como era habitual. A noite ainda era uma criança. Chovia copiosamente, o temporal aumentava, mas depois, no quarto, com os motores quentes, não me apercebi que a chuva tinha provocado danos elevados em Lisboa e zonas limítrofes.
No sábado, de manhã, tinha que acompanhar a equipa para Almada, regressei ao Centro de Estágio da Cruz Quebrada. Mas, antes, passei pelas portas de Santo Antão para levantar uns óculos. Espanto meu, o proprietário e os empregados deitavam água para fora do estabelecimento. Perguntei: o que se passou aqui? Resposta imediata do proprietário: o senhor não estava em Lisboa? Sim, estava, mas não me apercebi de nada. Voltou ele à carga: não é de sono leve. Não acordou com um enorme caudal de água, trovões fortes e relâmpagos. Pois é amigo, disse-lhe, estava bem acompanhado, o temporal era outro, mais gostoso. O homem riu, entendeu a minha ironia. Que noite, que mordidela daquela... “fox-ryan-mulher”.
Mais tarde cogitei: ainda bem que não fiquei no rés-do-chão da Pousada. É que, de repente, se lá tivesse ficado, estava sujeito a que água me levasse agarrado à dita...”fox-ryan-mulher”.
O desvio do professor Mário Barros
O professor Mário Barros, pai do meu colega de “A Bola”, Pedro Barros, da delegação do jornal no norte do país, realizou, em Angra do Heroísmo, ao serviço do basquetebol do Lusitânia, um trabalho meritório, inclusive nos escalões de formação que sempre acompanhou de perto. Um treinador que marcou, sublinhe-se.
Numa das deslocações ao Algarve, para uma jornada dupla, respectivamente, em Faro e Albufeira (jornada essa cem por cento vitoriosa, adiante-se), acompanhei o Lusitânia, que ficou instalado em Armação de Pêra graças aos bons ofícios do fervoroso lusitanista João Sá Pereira, que reside em Silves. Ora, na viagem de Lisboa para Armação de Pêra, fui no carro conduzido pelo Mário Barros, uma pessoa sempre bem disposta e possuidora de um aquilatável “fair play”. Conversas e mais conversas e, de repente, o professor entra num caminho errado, atravessando uma linha férrea, perdendo assim o rasto dos outros carros que seguiam à frente e que, logicamente, acabaram por chegar primeiro a Armação de Pêra, mas certamente com os ocupantes preocupados pela ausência do Mário Barros, cujo atraso foi, sensivelmente, de quarenta e cinco minutos, em função das muitas voltas que o professor deu para entrar na estrada principal de ligação ao Algarve. Até lá, fui gozando, “pouca terra, muita terra, pouca terra, muito terra”, imitando um combóio para que, de novo, o professor não entrasse em outra linha férrea. A dada altura, Mário Barros saiu-se com esta: já sei que este meu “descuido” será motivo para notícia destacada. Respondi: meu caro professor, estas são as boas notícias, mas se ganhar os dois jogos, prometo que não falarei do assunto. E ganhou os dois jogos, comemorados no domingo à noite quando chegamos a Lisboa. Depois do jantar, eu e o Mário Barros fomos dar uma espreitadela a umas capelinhas conhecidas, acabando mesmo essas visitas na 7 de Julho. No regresso ao ISEF, onde pernoitamos, dei-lhe os parabéns, não pelas vitórias, mas pelo fato de, desta feita, ter conseguido conduzir sem desvios, quiçá porque naquelas zonas de Lisboa não existem linhas férreas. Contudo, quando passamos pelo Rossio, disse-lhe, ironicamente: professor, aqui ao lado direito temos as linhas de Sintra e, portanto, cuidado não entre pelo terminal. Mas eu estava tranquilo, visto que se ele virasse o carro não conseguia entrar ali. O carro ainda fez uma ligeira inclinação para a direita, mas depois seguiu certinho para a 7 de Julho.
Depois, nas crónicas, acabei mesmo por contar o que aconteceu naquela noite de sexta-feira, curiosamente uma sexta-feira-13. Não sou supersticioso, porque nasci num dia 13, de Outubro de 1943. Nessa altura, ainda não se falava em superstições. O tempo era de guerra e, talvez por isso, os alemães não se preocupavam com calendários. Só se aperceberam da data no dia em que perderam a guerra.
A mulher riso
Em Immenstad, Alemanha, conheci a mulher do presidente do TV Clube 1860, uma senhora simpática, mas que passava o tempo a rir. Ria, ria, com tudo o que estava à sua volta. Até tinha um riso bonito, mas era de mais. Um dia perguntei ao Carlos Borba: ela é sempre assim? Resposta do Carlos: por norma, sim. Mesmo na cama quando está no trica-trica com o marido? Aí o Carlos Borba, também foi irónico comigo: quando vieres da próxima vez, te darei a resposta que pretendes.
De tanto rir, os atletas portugueses lhe colocaram o epíteto de “mulher riso”. Nasceu a rir, pelos vistos.
Quando na recepção em sua casa me ofereceu uma cerveja, agradeci com um riso e ela sempre a rir. Pois, pois, bebi uma “cerveja riso”. Não deixou de ser gostosa. A cerveja, claro está...
A doce mania da rádio
Rui Almeida é um bom profissional da rádio, com boa dicção e muito certinho a relatar. Uma revelação da última geração de comunicadores da rádio.
Num dos colóquios realizados na ilha do Pico (ele sempre foi um “habitué”, pela sua competência e pela amizade que o liga ao António Carlos Maciel, promotor dos colóquios), o Rui Almeida, já pela noite dentro, foi para a Rádio Pico fazer emissão, bem ao seu peculiar estilo, com ritmo, com alegria. Eu, o João Barnabé e o Alder Dante, decidimos entrar na Rádio Pico naquela noite pós-colóquio. O Rui Almeida arranjou umas cadeiras para todos, com o objetivo de conversarmos um pouco. Só que o propósito da nossa conversa era bem outra. E assim concretizamos. Quando o Rui Almeida ia anunciar os convidados, afinal os seus colegas que com ele participaram no colóquio, todos os fios foram desligados e a Rádio Pico ficou sem emissão durante algum tempo. Com a sua doce mania da rádio, o Rui Almeida ficou pior que estragado e, mais tarde, na discoteca da Madalena, sempre foi dizendo: de quem foi a ideia? Claro que o Barnabé e o Alder apontaram para mim. O Rui Almeida pareceu não acreditar e abanou a cabeça, olhando de soslaio para o João Barnabé. Foi então que eu lancei a confusão: foi esse mesmo. Resposta do Rui Almeida: não podia ser outro. Mas quem pensou naquela patifaria foi mesmo o Alder Dante, colega do Rui Almeida na Antena 1. No dia seguinte, o Alder Dante se assumiu, mas sempre foi acrescentando: Ó Rui Almeida, não estavas com uns copos a mais? Mais calmo, mais ao seu próprio estilo, o Rui Almeida retorquiu: será que vocês não olharam para o espelho quando entraram no Hotel Pico?
Quando nos despedimos do hotel, a proprietária deu os parabéns ao Rui Almeida pela sua excelente prestação naquela noite na Rádio Pico. Mas ficou algum tempo sem emissão, concluiu a senhora. O Rui, desconcertantemente, desculpou-se assim: o microfone entupiu. Sempre simpática, a senhora, de nome Garcia (do marido), apressou-se a comentar: são coisas que acontecem. Os outros três malandros (eu, o Barnabé e o Alder) mantiveram-se calados, mas lá por dentro uma grande vontade de gargalhar.
Um outro Bin Laden
Bin Laden, um nome que os norte-americanos não gostam que seja mencionado. O homem que desafiou George W. Bush, lançando o terror no dia 11 de Setembro de 2001. Bin Laden acabou por ter muitos sósias espalhados pelo mundo, não em termos de fisionomia, mas tão somente por atitudes semelhantes, muitas delas apenas relacionadas com atos gestuais, sem roçarem o timbre do terror e da violência. Mas esses protagonistas eram logo rotulados de... Bin Ladens.
Em Portugal, tivemos Octávio Machado como figurante de Bin Laden, pela sua factual idade e por não ter papas-na-língua quando enfrentava os “maiorais” do futebol português, inclusive Jorge Nuno Pinto da Costa com quem trabalhou no Futebol Clube do Porto. Recorde-se que Octávio foi jogador do Porto (transferido do Vitória de Setúbal) e, também, treinador dos portistas, passando mais tarde, com o mesmo estatuto, pelo Sporting Club de Portugal, quando o clube era presidido pelo Dr. José Roquette, um verdadeiro “gentlemen”, mas que não foi poupado por Octávio Machado quando, a meio da respectiva época, foi dispensado pelo Sporting.
Em 2001, quando fiz a cobertura do Mundialito de Futebol de Praia, que decorreu na Praia da Claridade (Figueira da Foz), na final, disputada entre Portugal e Brasil (vitória do Brasil por 6-3), alguns colegas, ironicamente ou não, começaram a passar a palavra: à zona dos VIPS, chegou o Bin Laden. De fato, olhei para o local e deparei com Octávio Machado acompanhado por alguns amigos. Foi então que, bem ao meu estilo, acrescentei: o Bin trouxe muitos guarda-costas. No intervalo do jogo, vimos o Dr. Pedro Miguel de Santana Lopes (que fez um grande trabalho na Câmara Municipal da Figueira da Foz e na altura desse Mundialito já era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Mais tarde passou para primeiro-ministro e, após a sua saída, entendeu “meter férias políticas”), cumprimentar Octávio Machado. Óbvio que, da malta da imprensa, aflorou mais uma onda irónica: olha, olha, o Santana Lopes amigo do Bin Laden. Afinal, sempre foram bons amigos. Quando Santana Lopes foi presidente do Sporting, Octávio Machado andava pelo Futebol Clube do Porto, na qualidade de treinador-adjunto. Mas nessa altura, ninguém sonhava que iria aparecer um temível Bin Laden. Temos um pouco mais pacíficos.
Acresce que Octávio Machado foi das pessoas que melhor soube aproveitar a sua passagem pelo futebol (jogador e treinador), investindo na agricultura. Por altura das vindimas, em Palmela, ele convida muitos amigos para provarem o seu gostoso vinho.
Dito e feito
Quando cheguei ao aeroporto internacional do Rio de Janeiro, o conhecido Galeão, na passagem pela alfândega fui rápido a dizer ao funcionário que vinha para o Brasil escrever um livro. Identifiquei-me com o meu cartão de PRESS, do CNID. Trouxe muitas malas com roupa. O funcionário deu-me sinal para seguir, senti um alívio. Se ele me pergunta, tudo jóia, eu diria, tudo roupa. É que, segundo uma anedota, um português que chegou, nas mesmas condições, o funcionário disse-lhe tudo jóia e o português respondeu, metade jóia e metade cocaína. Eu, como disse, só trazia roupa e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Afinal, fui vero. O livro já está escrito. Não tem jóia nem cocaína.
EPÍLOGO
Podem não acreditar, mas todo o conteúdo deste livro, exceto as crónicas já publicadas, foi de memória. Não tinha, para o efeito, qualquer nota apontada em bloco. Tudo saiu da minha “caixa cerebral”.
Dedico este livro à minha família, que sempre me acompanhou, sobretudo a minha filha que não usufruiu da minha regular presença, porque, efetivamente, vivi demasiado (mas não estou nada arrependido, sublinhe-se) o “meu jornalismo”.
Penso que todos têm orgulho do que eu fiz neste percurso de quatro décadas. Fui crescendo, crescendo, até subir ao patamar superior. Não era fácil entrar no jornal “A Bola”. Agarrei a oportunidade. Como um dia escreveu Carlos Miranda (antigo diretor do jornal, já falecido) em “A Tribo” de “A Bola”, o “Carlos Alberto Alves estava sempre presente”. Obrigado, Miranda, pelo teu reconhecimento.
A seguir: Capítulo XII
Para conferir os capítulos anteriores, clique aqui
Obter link
Facebook
X
Pinterest
Email
Outras aplicações
Enviar um comentário
Comentários
DIGITE PELO MENOS 3 CARACTERES
Close
🍪 Este site usa cookies para melhorar a sua experiência.
✖
Tem curiosidade sobre um tema, um nome? Encontre aqui.
Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com
10 de Março assinalado por duas vezes
Foi a 10 de Março de 1964 que comecei a fazer jornalismo. A 10 de Março de 1981, nasceu a minha filha. Uma agradável coincidência.
Esse 10 de Março foi um passo significativo da minha vida. Em 1989, assinalei as “bodas de prata” com o pessoal do jornal “A União” e, à noite, uma festa na Adega Lusitânia, festa esta que terminou na Rádio Horizonte-Açores com a presença da minha filha, vinda da ilha do Pico, e que fazia oito anos de idade. Um dia bonito, apesar de ser uma sexta-feira 13. Depois, no domingo, dia 15, um almoço com a equipa do Lusitânia. O clube, nessa altura, era presidido pelo meu grande amigo Luís Carlos de Noronha Bretão. Recebi muitas felicitações e fui entrevistado por todos os meus colegas editores da Rádio Horizonte e também pela Rádio Televisão Portuguesa-Açores, representada por Paulo Augusto.
Em 2004, na ilha do Faial, alcancei os 40 anos de carreira, com outra festa significativa, organizada pelo Futebol Clube dos Flamengos, clube que servi com toda a minha dignidade. Uma festa que decorreu no polivalente da Junta de Freguesia. Não faltaram os telefonemas e os telegramas de felicitações. Comigo estiveram, mais uma vez, o Rádio Clube de Angra, a Antena 1, e a Rádio Televisão Portuguesa-Açores. Lembro-me que o repórter da televisão, José Matos, no final, terá dito que estava na hora de escrever um livro. Não levou muito tempo. Foi escrito no Brasil, como poderia ter sido em outro país qualquer onde me encontrasse.
Ao Futebol Clube dos Flamengos, agradeço do fundo do coração a iniciativa. Foi gratificante o fato de terem convidado para orador o Dr. Carlos Lobão, meu antigo jogador no Sporting, na época em que fomos campeões. Carlos Lobão que, segundo ele próprio revelou, teve dificuldades em falar do meu percurso. Um agradável reconhecimento.
Brincadeiras nos colóquios
A seguir: Capítulo XII
Para conferir os capítulos anteriores, clique aqui
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis