Já uma vez escrevi, num dos artigos reportados à minha
infância robertocarlística, que tinha um pequeno aparelho de rádio no qual
ouvia os relatos de futebol do Brasil, que na verdade me fascinavam, não só
pelo próprio dialeto, mas também pelos termos aplicados. Da cidadela (área ou
baliza?), banheira (fora-de-jogo), zagueiro (defesa central), goleiro
(guarda-redes), gramado (relva), tiro de meta (pontapé de baliza), escanteio
(pontapé de canto), a bola beijou o véu da noiva (rede da baliza) e por aí
fora. Minha avó paterna, que nem o seu nome sabia escrever (como tal dava, de
forma engraçada, muita calinada no português) era, no entanto, uma pessoa
atenta às coisas que a rodeavam. Num desses dias em que eu estava com o ouvido
à escuta (óbvio que tinha que ser um jogo do Vasco), a avozinha saiu-se com
esta: “tu percebes alguma coisa do que essa gente diz?”. Respondi: avozinha
eles falam a nossa língua. Ela de novo: “que língua, que carapuça, parecem
papagaios”. Voltei à carga: mas a avozinha gosta muito de, nos discos pedidos
(estes nada a ver com os tais pe(r)didos inventados por um tal AG) do nosso
Rádio Clube Face, ouvir o Agostinho dos Santos, Ângela Maria e Agnaldo Timóteo. Ela
para finalizar a conversa desse dia: “mas esses cantam, os outros correm atrás
de uma bola”. Que nada, avozinha, os jogadores é que correm, eles relatam
sentados numa cadeira.
Mal sabia eu que, já adulto, na casa dos sessenta anos,
viria até ao país que minha avozinha paterna rotulou de papagaios. Na verdade,
aqui há muitos papagaios, mas isto é outra história. Mas, de história em
história, fico quase que perplexo quando os brasileiros dizem que não percebem
nada que dizemos porque falamos muito depressa. E eu diariamente, nos meus
contatos com pessoas, deparo com esse problema e fico pensando: puxa! Falamos a
mesma língua. E eu que entendo perfeitamente o que dizem os brasileiros. É um
mistério. Ou talvez não... Nós falamos ao toque do corridinho do Algarve e eles
ao toque do samba. Acho interessante é quando eles (m e f) me dizem: pode falar
um pouco mais devagar para percebermos.
E voltando à minha avozinha, o que diria ela se escutasse o
Wanderley Luxemburgo? Era capaz de dizer que o homem falava através de um
funil. Será que o Wanderley engoliu algum?
Por: Carlos Alberto Alves
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