Linguajar pegou hábito?


Por: Carlos Alberto Alves
jornalistalves@bol.com.br

Lembra-se do seu linguajar de criança? Sem falar nos anos (ui!) que distam entre o presente e a infância de cada um, todos nós criamos palavras que, seguindo uma lógica de imitação fonética, representavam o mundo. Uma das de melhor memória era «deslarga-me». Havia logo correção, pois deslargar não era reconhecida como uma palavra propriamente dita, daquelas com chancela do dicionário e da professora primária. Deixei de dizer «deslarga-me», pelo menos em público! Mas não deveria. Porque o prefixo DES- não só significa separação ou ação contrária, mas também intensidade. E está na moda. Quantas vezes já lobrigou “desmultiplicar”? Desmultiplicam-se recursos, orçamentos, eventos e pessoas. Sem recorrer a qualquer efeito de clonagem, você pode desmultiplicar-se as vezes que aguentar. Quer dizer que se dispersa por várias atividades em simultâneo. E o deslargar? Apesar de não unanimemente reconhecido pelos dicionários, é uma forma popular de intensificar a idéia de largar. Se é mesmo para largar, sem dúvidas, verdadeiramente, pode gritar o tal «carga». Não será para se proferir em reuniões de administração ou jantares de cerimônia, mas diga-a, sem pejo, no meio da rua, entre amigos, na galhofa. Tal como pode dizer destrocar (desfazer uma troca, algo complicado, mas possível ou, se for militar e estiver a comandar a parada, para destroçar) ou destorcer. Esta última é até bastante útil, pois significa endireitar o que está torcido ou torcer para o outro lado também serve para disfarçar. E apesar de não ser sinónima de distorcer, não anda muito longe. Destorce o que puderes para distorceres o que quiseres, já dizia o velho ditado!

NOTA FINAL – Se entrarmos em todos os pormenores, essa coisa de falar de língua tem muito que se lhe diga. A língua, hoje, tem muitas funções. Antigamente, a língua não era assim tão completa. Como tudo mudou...
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