A carreira internacional de Roberto Carlos

Por Ayrton Mugnaini Jr., especial para o Yahoo! Brasil O sucesso de Roberto Carlos como cantor, compositor ou ambos não se limitou ao Brasil, e também não só aos países latino-americanos. Ao lado de Carmen Miranda, Tom Jobim, João Gilberto e Dick Farney, ele tornou-se um dos poucos e bons artistas brasileiros a terem discos lançados nos EUA com sucesso ou, pelo menos, elogios da crítica. É claro que o talento de Roberto foi bem servido por bons empresários e por uma gravadora das maiores e com maior poder de divulgação internacional - exatamente como aconteceu com os Beatles e Elvis Presley (embora este merecesse empresário melhor, mas isso é outra história). Roberto está completando 50 anos como contratado da gravadora Sony (a qual mudou de nome algumas vezes, ainda outra história), que começou a lançar seus discos também em outros países logo que ele se firmou como artista de sucesso, em 1964. Salvo engano, o primeiro disco estrangeiro de Roberto foi o compacto "É Proibido Fumar", em Portugal. Os discos de Roberto começaram a fazer sucesso pela América Latina, e em 1965, a pedido da filial argentina da gravadora, ele gravou seu primeiro LP cantado totalmente em espanhol, "Roberto Carlos Canta A La Juventud". O disco vendeu bem, e não deu outra: em outubro Roberto fez seus primeiros shows fora do Brasil, em Buenos Aires. Por sinal, a canção "O Calhambeque", originalmente "Road Hog" do estadunidense John D. Loudermilk, fez bem mais sucesso em vários países a partir da versão de Erasmo lançada pelo "Brasa" - "El Cacharrito", regravada pelo argentino Piero, os venezuelanos Los Holidays e muitos outros - é uma versão da versão gravada por Roberto! Em 1965, além de "El Cacharrito" (ou "Mi Cacharrito"), todos os países latinos estavam cantando "Es Prohibido Fumar", "Um León Se Escapó", "Me Quiero Casar Contigo"e outros sucessos de Roberto. Mais que fazer sucesso, Roberto havia se tornado o maior ídolo da juventude brasileira, e o título de seu segundo disco lançado nos EUA (após Canta A La Juventud, editado também lá), em junho de 1966, foi justamente este: "Brazil's Top Teen Star". Em abril de 1966, Roberto fez seus primeiros shows na terra de seus ancestrais, Portugal, e com muita propriedade cantou "Coimbra", de Raul Ferrão e José Galhardo, um dos maiores clássicos da canção lusa a partir da gravação de Amália Rodrigues e que voltou a fazer sucesso na versão rock-bossa de Roberto. Confira trecho de sua primeira aparição na televisão portuguesa. Enquanto isso, a filial italiana da gravadora, já atenta ao sucesso de artistas "brasiliani" no país como The Clevers, resolveu trazer Roberto para a Itália. Em 1966, saiu seu primeiro disco italiano, o compacto "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" com "Não Quero Ver Você Triste". San Remo
Bem antes de se Roberto se tornar o primeiro intérprete não-italiano a alcançar grande repercussão no Festival de San Remo, em 1968, "La bella Italia" já cantava "La Donna Di Un Amico Mio" - sem falar que Roberto já havia começado a gravar em italiano muito antes, com "Solo Per Te" de Attilio Mineo, em seu primeiro álbum lá em 1961. Assim, a Giovani, uma das maiores revistas italianas de então, elogiou em agosto de 1967 o LP "La Nostra Estate" ("O nosso verão), coletânea de vários artistas, incluindo Roberto e "La Donna di Um Amico Mio": "Os nomes reunidos neste LP são todos de relevo: [Caterina] Caselli, [Gene] Pitney, [Roberto] Carlos, [Gigliola] Cinquetti, [Andrea] Lo Vecchio, [Gino] Paoli [...]". A consagração definitiva de Roberto na Europa veio com sua interpretação de "Canzone Per Te" de Sergio Endrigo, em San Remo. O sucesso foi tamanho que muitos dizem ter sido Roberto o primeiro intérprete não-italiano a vencer o festival. Houve precedentes, como a francesa Patricia Carli (embora nascida na Itália e criada na Bélgica), cantando "Non Ho L'Età Per Amarti", e o grupo norte-americano New Christy Minstrels, com "Se Piangi, Se Ridi". Mas quantas pessoas se lembram disso? O grande sucesso de "Canzone Per Te" com Roberto quase transformou esta lenda em realidade. Os anos 1970 consolidaram Roberto como artista de sucesso mundial, com discos e shows em vários continentes (inclusive na África do Sul, onde em 1971 Roberto teve problemas com o lamentável racismo da região devido a seu conjunto, o RC-7, incluir brancos e negros). Durante décadas ele lançou dois álbuns por ano, um deles em espanhol para o mercado externo. Em 1974 a revista argentina Radiolandia definiu Roberto como "um dos astros da música que têm mais apelo popular em nosso país" e "o público argentino já o considera um dos seus". Logo, Roberto se tornou o representante brasileiro do "clube" de cantores românticos latinos, ao lado do espanhol Julio Iglesias, o venezuelano José Luis Rodrigues e o mexicano José-José. Curiosamente, embora grave em vários idiomas (inclusive um hoje raro compacto duplo em francês), Roberto costuma ser mais elogiado, inclusive fora do Brasil, por suas gravações em português (embora algumas platéias latinas prefiram ouvi-lo ao vivo em espanhol), e seus ocasionais discos em inglês têm sido os de menor sucesso. Sua gravação de "Jesus Cristo" em inglês não passou pela autocrítica dele e da gravadora, tendo sido lançada, e por engano, somente na Holanda. Em 1994, Roberto anunciou sua intenção de investir no mercado nipônico, gravando uma canção, ou mesmo um disco inteiro, em japonês, logo que se sentisse habilitado a tanto, e se divertiu ao comentar que, na ocasião, só sabia falar "domo arigato gozaimashita" (muito obrigado) e "moshi moshi" (alô ao atender telefone). Mas, enquanto este momento não chega, Roberto tem discos lançados no Japão desde 1970 (começando por "Namoradinha De Um Amigo Meu", interessante coletânea de gravações de 1964 a 1969 em português e espanhol) e seus LPs de 1969, 1971 e 1978 figuram entre as indicações de Música Locomundo, guia de música brasileira para japoneses lançado em 2000. Roberto internacionalizou-se a ponto de compor vários de seus maiores sucessos em suas viagens mundo afora, geralmente os mais confessionais, como foi o caso de "Minha Tia", "Traumas" e "Lady Laura". Esta última foi composta num quarto de hotel em Nova York em 1977 e, por coincidência, o título é o mesmo de um sucesso de 1974 com o cantor irlandês Joe Dolan, mas esta outra canção é bem diferente e, por sinal, nem de longe tão boa. O compositor
A indústria cultural pensa grande, sempre querendo transformar todo o planeta num mercadão único, e procura matéria-prima em toda parte. Nunca foi incomum artistas de um país gravarem com maestros ou repertório de outro país, por vontade própria ou sugestão de produtores e empresários. Além de ele mesmo lançar ou regravar composições de estrangeiros, Roberto logo teve sua vez de começar a ser regravado por artistas não brasileiros - sem falar em composições de outros celebrizadas por Roberto, como fizeram o grupo peruano Los Shains ("No Eres Para Mi", ou seja, "Você Não Serve Pra Mim" de Renato Barros) e o cantor estadunidense Frank Sinatra Jr. (sim, filho do homem), com "È Questa La Mia Vita" ("Só Vou Gostar de Quem Gosta de Mim" de Rossini Pinto).

Uma das composições de Roberto com mais regravações pelo mundo é "Namoradinha De Um Amigo Meu". Entre outras, há as gravações do grupo espanhol Mustang ("Enamorada de Um Amigo Mio"), o canor italiano Al Bano ("La Donna Di Um Amico Mio"), o cantor francês Hervé Vilard ("Champagne"), o grupo grego Cinquetti ("To Koritsi Toy Filoy Moy") e a cantora nipo-brasileira Rosa Miyake ("Otomodachi No Koibito"). Esta versão japonesa foi revivida pelo cantor Teruhiko Saigou e, como boa demonstração da presença internacional da obra de Roberto, um vídeo desta regravação foi premiado agora em 2010 pelo jornal New Musical Express, uma das mais antigas publicações inglesas sobre música popular. Veja aqui. Outra composição também tem sido regravada em diversos idiomas, como "Vete Al Infierno" (em espanhol), "Iru Chio Al La Infero" (em esperanto) e "Non Conta Niente" (em italiano). Vale lembrar ainda "120... 150... 20 Km Por Hora" na versão em inglês ("80-90-100 MPH") gravada pelo cantor estadunidense Garland Green em 1972. Numa outra rápida amostra da internacionalização da obra de Roberto e da própria música popular, lembremos que a italiana Rita Pavone gravou uma versão em francês de "A Distância" ("La Distance") e, por sua vez, a francesa Sylvie Vartan gravou "Desabafo" em italiano ("Notte Madrilena"), em dueto com o italiano Cristiano Malgioglio. Por sinal, "A Distância" foi incluída na trilha de um filme de Luchino Visconti, Gruppo Di Famiglia In Un Interno, de 1974, exibido no Brasil com título Violência e Paixão. "Jesus Cristo" fez sucesso pelo mundo com intérpretes como o andorrense Romuald, numa versão em francês, e o australiano Kamahl, em inglês (mas sempre com título em português). E "Amigo", décadas antes de receber uma versão psychobilly instrumental do grupo argentino A77aque, foi escolhida pelos católicos mexicanos para saudar a primeira visita do Papa João Paulo II ao país, em 1979 - antes de os brasileiros tentarem fazer o mesmo no ano seguinte (escolha preterida pela CNBB em favor de uma canção explicitamente mais religiosa, que acabou sendo "A Bênção, João de Deus" de Moacyr Geraldo Maciel e Péricles Brandão de Barros). Também há versões estrangeiras feitas e gravadas no Brasil, como a de Gilbert em francês para "É Meu, É Meu, É Meu" ("Le Mien, Le Mien, Le Mien"), a versão em alemão do Trio Montecarlo para "E Por Isso Estou Aqui" ("Schau In Meine Augen") e Bobby Mackay fazendo versões em inglês de "Eu Te Darei O Céu" ("Heaven On Earth") e "Jesus Cristo" (com o mesmo título). Ainda existe a suspeita de que, quando Roberto gravou seu primeiro LP nos EUA alguém por lá visitou o estúdio, pois "Rock And Roll Lullaby", grande sucesso lançado em fevereiro de 1972, é bem parecido com "Debaixo dos Caracóis dos Teus Cabelos", lançada dois meses antes.
Notícias Yahoo
28-04-2010
1 hora, 0 minuto atrás

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2 Comentários
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  1. Oi Maninho!

    Muito boa a reportagem.
    Sempre é bom ler sobre Roberto Carlos.

    Obrigada pelos vídeos.
    Lindos...

    Beijos,
    Carmen Augusta

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  2. Parabéns Ayrton!!!! Você sabe tuuuuuuudo hein???
    Lilu

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