Analisando o fenônemo Roberto Carlos

Entrevista com Pedro Alexandre Sanches
Autor de 'Como Dois e Dois São Cinco' (Ed. Boitempo), livro que analisa o fenômeno Roberto Carlos. 1 - Várias pessoas tentam explicar o duradouro sucesso de Roberto Carlos (RC) ressaltando um determinado aspecto de sua obra. Carisma, suas qualidades como cantor, a popularidade das canções e a capacidade de emplacar um número extenso de hits são algumas hipóteses. Na sua opinião, qual seria a causa principal do sucesso de RC?
- A minha convicção é que Roberto Carlos tem toda essa relação de empatia com o público daqui por uma razão bastante simples: ele é a cara do brasileiro médio, e, por conseqüência, a cara do Brasil. Na época da Ditadura, por exemplo, Roberto tinha a cara da Ditadura: triste, soturno, magoado, abandonado. São características mais do lado negativo, mas que ecoam profundamente em quem conheça de perto aqueles sentimentos — e quem não conhece?
2 - Muitos músicos jovens têm regravado RC e as músicas geralmente viram hits nas rádios, vide o que aconteceu com Skank, Jota Quest e Titas. O que o cantor tem a dizer para as novas gerações? Por que suas músicas ainda são tão populares?
- Bem, em primeiro lugar, ele é um romântico por excelência, e assim também são muitos, muitos, muitos brasileiros, para o bem e para o mal. O primeiro laço fortíssimo, acho, é esse do romantismo, o que gera um poder fenomenal de comunicação entre o "ídolo" e sua corte de fãs. Eu mesmo, por exemplo, comecei a gostar muito mais de Roberto Carlos lá pelos 23 anos, porque estava apaixonado... Fora isso, me parece quase indiscutível a qualidade pop das canções dele com Erasmo Carlos. Muitas são tão simples quanto sensacionais, e, juntas, formam realmente um tesouro, um castelo muito sólido que aquele cara interiorano de Cachoeiro do Itapemirim conseguiu erguer diante do Brasil.
3 - O historiador Paulo César de Araújo afirma que houve uma retomada de Roberto Carlos por músicos mais jovens após a gravação do disco "As Canções que Você fez para Mim", de Maria Bethânia. Ele cita que além desse disco, outro marco foi o Acústico MTV, produzido em 2001. Você concorda que houve essa retomada de RC por outras gerações? Concorda que o marco inicial é o disco de Bethânia?
- Não sei exatamente, viu? O marco pode ser um ou outro, mas possivelmente ia acontecer de qualquer modo. O Caetano Veloso, também para o bem e para o mal, segue sendo muito influente entre gerações mais jovens, e ele chamou atenção para o Roberto cantando e contando a história de "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", em 1992 — antes, portanto, de sua irmã gravar um disco todo de Roberto e Erasmo. Mas volto a dizer, Roberto Carlos não estava em sua melhor forma naqueles anos, mas ele e sua obra estavam no ar, nunca deixaram de estar. Acho que um fenômeno parecido (mas mais intenso ainda) aconteceu mais recentemente com o Bob Dylan. Ele andou capenga nos anos 80, e discreto nos 90, e agora, nesta primeira década dos 2000, virou um boom, tem gente se influenciando por ele e cantando folk em vários lugares do mundo. Quer dizer, essas coisas são cíclicas, a memória é um dos processos que constituem a música e a indústria musical, por mais que a gente fique resmungando e reclamando que não se preserva memória, que "o Brasil não tem memória" e coisas parecidas. Na real, não é bem assim, né?
4 - Seu livro e o de Paulo César de Araújo são os únicos publicados até então que se debruçam em análises sobre o maior mito da música brasileira atual. A que você credita esse descaso de muitos teóricos quanto a RC? Acredita que a imagem dele como um cantor menor tenha sido repensada nos últimos anos?
- Olha, eu acho que é menos descaso do que essa perseguição terrível que o Roberto tem fama de fazer em cima de quem "invada" o território dele. Aconteceu isso de forma dramática com o Paulo César, e acho que não aconteceu comigo porque meu "Como Dois e Dois São Cinco" não teve uma repercussão "popular", nos moldes da locomotiva de notoriedade que é o estilo de RC. O do Paulo César teve, e infelizmente pagou um preço alto por isso. Dito isso, concordo com você, primeiro porque muito poucas pessoas interessadas em música por aqui se arriscam a tocar em temas delicados, tabu, que possam lhes render dor de cabeça. Não costumamos correr muitos riscos, não é mesmo? Em segundo lugar, também acho que o descaso em relação à RC existe, e é outro fenômeno que acho que tem uma explicação muito simples (embora terrível): RC desperta o silêncio de "estudiosos", "cultos" e "inteligentes" por... preconceito. Preconceito contra a popularidade dele, o poder de comunicação direta, a despretensão, sobretudo a simplicidade. Quem se supõe "complexo" em geral costuma desprezar e depreciar o "simples", não é mesmo? Talvez demonstre que muita "complexidade" por aí é de fachada, e, pior, fundada em preconceitos não estéticos, mas ideológicos, sociais, classistas.
In Jornal Pampulha
14-11-2008
8 Comentários

Comentários

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  1. Parabéns Guta!

    Excelente entrevista sobre o nosso mais que tudo.

    Abraços robertocarlisticos

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  2. Oi Armindo!

    Obrigada amigo. Elogios vindo de você, envaidecem...

    Abraço robertocarlístico,
    Carmen Augusta

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  3. Olá Guta!

    Muitos Parabéns, por mais um excelente trabalho.


    Beijos Amiga.

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  4. Olá, Guta!

    No meu comentário esqueci-me de te dizer que o post bem que podia ser melhorado.

    Por isso, irei postar um Comunicado sobre o assunto.

    Abraços

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  5. Olá Dina!

    Você sempre nos prestigiando.

    Obrigada amiga!

    Beijos,
    Carmen Augusta

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  6. Ai, ai, ai, ai patrãzinho, patrãzinho!

    Que será que vem por aí...

    Estou aqui a tremer...

    Mas obrigada pelo aviso, assim vou me preparando para o puxão de orelha...

    Beijos,
    Carmen Augusta

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  7. Querida Carmen!

    Gostei muito da entrevista, pois, as perguntas foram muio bem elaboradas e as respostas concedidas por Pedro Alexandre Sanches, foram muito claras e objetivas.

    Sem arrodeios e sem temor, o autor da obra " Como Dois e Dois São Cinco" , que analisa muito bem o nosso Rei de uma maneira autêntica pelo que li em suas respostas.

    Eu concordo quando ele fala das gerações atuais gostarem e até gravarem canções do Rei, levado pelo seu grande romantismo e da qualidade das canções que não precisam ser sofisticada, mas o Rei com sua simplicidade conseguiu essa solidificação em contruir um mundo onde uma legião de fãs o seguem diantes de seus valores contidos em suas canções e sua pessoa.

    Parabéns Guta pela excelente entrevista e que através dela poderá também estar divulgando o livro do Pedro Alexandre que para muitos é desconhecido.

    Beijos da amiga,

    Mazé Silva

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  8. Oi Mazé!

    Que bom que gostaste da entrevista.
    Pedro Alexandre é um bom escritor, e faz parte dos colunistas da Folha de S. Paulo.

    Eu tenho o livro,é muito bom. Ali ele analisa toda obra de Roberto e Erasmo. E conta muita coisa que no livro "proibido" também tem...

    Obrigada amiga.

    Um beijo,
    Carmen Augusta

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