Barreiras na escola, no trabalho e na saúde revelam inclusão apenas superficial
Incluir não é contratar para cumprir cotas: é criar condições reais para crescer
"Sem acessibilidade na escola, na saúde e no trabalho, o mérito começa desigual."
— Alba Fraga Bittencourt
Original do Portal Splish Splash
Por: Felipe Afonso*
A sociedade conhece pouco as reais dificuldades das pessoas com deficiência. E, porque não conhece os problemas, aceita facilmente qualquer coisa como inclusão. Essa falta de informação chega a parecer conveniente: ajuda a vender a imagem de uma sociedade acolhedora, que está fazendo a sua parte. Mas basta olhar para a vida dessas pessoas para surgirem perguntas que esse discurso não responde.
Se existe uma Lei de Cotas para incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho, por que ainda existem tantas barreiras para que elas ocupem cargos de liderança? Por que parece tão normal contratá-las para funções mal remuneradas, sem perspectiva de crescimento, como se a deficiência já determinasse até onde podem chegar? Por que aceitar isso como se elas fossem naturalmente menos capazes?
É a esse lugar que a inclusão deveria levá-las?
Antes de celebrar contratações e divulgar campanhas bonitas, que tal mostrar também o que acontece fora da propaganda?
As crianças que têm a matrícula recusada em escolas por causa da deficiência, mesmo quando a família se dispõe a ajudar. As que conseguem entrar, mas depois são expulsas porque a escola não quer se adaptar. Os alunos surdos que passam em universidades federais, mas que abandonam o curso porque a instituição não oferece os intérpretes de que precisam. As pessoas que perdem a audição e precisam escolher entre esperar anos por um aparelho auditivo pelo SUS ou pagar um valor que não cabe no orçamento.
E as pessoas com deficiência que vivem abandonadas em instituições precárias? E os números alarmantes de suicídio entre pessoas com deficiência? Onde essas pessoas aparecem nas campanhas sobre inclusão?
Talvez o problema não seja apenas a quantidade de vagas reservadas em empresas. Talvez seja também a falta do mínimo para que essas pessoas consigam cuidar da saúde no que diz respeito à deficiência, estudar, se qualificar e desenvolver autonomia, para que tenham condições reais de alcançar seus objetivos, inclusive sem depender de uma vaga reservada para elas.
Como alguém vai disputar uma oportunidade se passou a vida inteira sem acesso ao que precisava para chegar até ela? Como cobrar qualificação de quem foi deixado para trás desde a escola? E como falar em mérito sem olhar para essa diferença?
Enquanto a sociedade continuar fingindo que está tudo sob controle, esses problemas continuarão sendo empurrados para depois. Só que a vida das pessoas com deficiência está acontecendo agora. O tempo que se perde sustentando uma aparência de inclusão é o tempo que elas têm para viver.
*Autor de "Nuances do Silêncio" e "Nuances da Exclusão", Felipe Afonso utiliza a literatura como recurso para narrar suas experiências como uma pessoa com deficiência auditiva.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Este texto, da autoria de Felipe Afonso, questiona a distância entre o discurso de inclusão e as barreiras ainda enfrentadas por pessoas com deficiência na escola, no mercado de trabalho, na saúde e na vida quotidiana. Mais do que celebrar contratações ou campanhas, o artigo convida à reflexão sobre acessibilidade, autonomia, oportunidades reais e combate ao capacitismo.
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Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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