Bala perdida na noite transforma um apagão numa viagem psicológica sobre relações contemporâneas
A obra investiga o medo da rejeição e a dificuldade de comunicação numa sociedade hiperconectada
Publicado pela editora Minimalismos, o romance de estreia do escritor carioca Max Leite combina referências filosóficas, literatura e fluxo de consciência para refletir sobre o isolamento, a fragilidade dos relacionamentos contemporâneos e a dificuldade de comunicação.
“Max Leite, em sua estreia na ficção, maneja com extrema agudeza a ironia e a metaficção, marcas indeléveis da pós-modernidade. Ao discutir o fardo de ser escritor em um país de cultura literária anêmica, onde a arte disputa espaço com o utilitarismo mercantil e as performances digitais, a obra reflete sobre sua própria condição de existência.”
— Márwio Câmara, escritor, jornalista e professor, no prefácio da obra.
Um apagão transforma-se numa travessia psicológica
Em Bala perdida na noite, Max Leite — escritor, tradutor e estudante de filosofia — mergulha na mente de um jornalista e aspirante a escritor que se vê impossibilitado de enviar um e-mail depois de uma queda de energia deixar o seu apartamento às escuras.
Publicado pela editora Minimalismos, o livro começa com um poema que introduz o sentimento de desamparo presente ao longo da narrativa. Essa angústia também é sugerida pelas epígrafes, que colocam em contraste o relativismo clássico de Protágoras e o automatismo consumista de uma fila de fast food.
A justaposição resume o choque entre a profundidade da dor individual e a frieza das interações modernas — um dos eixos centrais do romance. A obra conta ainda com prefácio assinado pelo escritor, jornalista e professor Márwio Câmara.
Na narrativa, um contratempo trivial converte-se numa vertiginosa travessia física e psicológica. Diante do breu, o narrador-personagem entra num fluxo contínuo de consciência e, entre memórias comuns e acontecimentos bizarros, percebe-se sufocado pelo medo de que o silêncio de Mônica, sua companheira, signifique o fim da relação.
Construída por meio de uma montagem paralela, a história alterna a caminhada do protagonista pelo apartamento escuro com episódios marcantes do seu passado recente. Entre essas lembranças está o colapso nervoso e público do terapeuta de uma bartender, personagem que ele conhece de forma inusitada.
Entre realidade, ficção e monólogo interior
Ao confrontar os abismos do monólogo interior com referências literárias clássicas e filosóficas, Bala perdida na noite desafia as fronteiras entre aquilo que é factual e o que é projetado, interpretado ou distorcido pela mente humana.
O autor utiliza a falta de luz como metáfora para o isolamento contemporâneo e para a incapacidade crónica de estabelecer uma comunicação verdadeiramente significativa numa sociedade hiperconectada pelas redes sociais.
Nas palavras de Max Leite, o livro trata, “primariamente, embora não exclusivamente, dos laços fugidios das relações interpessoais no mundo contemporâneo, bem como da aparente dicotomia realidade x ficção”.
“Apesar de não ser um livro muito extenso, o género romance era o único que parecia comportar a complexidade dos temas. Deixei as minhas experiências e percalços com as aplicações de relacionamento e o que passa por romance nos nossos tempos serem sublimados na escrita”, partilha o autor.
Para este livro, Max Leite aponta Kafka e Fernando Pessoa como as suas principais influências literárias. Segundo o escritor, ambos têm, coincidentemente, “históricos bem complicados com a vivência amorosa”.
Rigor literário e curiosidade filosófica
Carioca, nascido em 1987, Max Leite é casado e reside em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Escritor, tradutor e revisor profissional, licenciou-se em Letras e concluiu uma pós-graduação em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Estácio de Sá.
Poliglota, frequenta ainda o bacharelato em Filosofia na Universidade Católica de Petrópolis (UCP), formação que se reflecte directamente na escolha dos temas e na construção da sua literatura.
“Considero-me um minimalista, inclusive e talvez principalmente na escrita. Por vir da poesia, sou atraído pelo adensamento na experiência de leitura: dizer mais com menos”, reflecte.
Antes de publicar Bala perdida na noite, Max Leite lançou o conto “Antes do pôr do sol” na plataforma Amazon e teve um dos seus sonetos seleccionado para a colectânea Sonetos do Selo Off Flip.
A sua experiência inclui também a escrita de resenhas para o antigo portal HomoLiteratus, actividade que evidencia a sua atenção à produção literária contemporânea brasileira.
“Bala perdida na noite” apresenta-se como uma estreia literária centrada na inquietação, no isolamento e na dificuldade de comunicação que marcam muitas relações contemporâneas. A partir de uma situação quotidiana — uma falha de energia —, Max Leite constrói uma narrativa de forte dimensão psicológica, em que o espaço físico se confunde progressivamente com os labirintos da consciência. A combinação de referências filosóficas, fluxo de consciência e reflexão sobre realidade e ficção poderá interessar especialmente aos leitores de literatura contemporânea, romances psicológicos e narrativas de matriz existencial.
Bala perdida na noite transforma um apagão numa viagem psicológica sobre relações contemporâneas
Um apagão transforma-se numa travessia psicológica
Entre realidade, ficção e monólogo interior
Rigor literário e curiosidade filosófica
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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