Fome atinge 645 milhões e desperdício agrava crise alimentar mundial
No Brasil, 18,9 milhões de domicílios conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024
O Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, é mais um alerta para os altos índices de fome e insegurança alimentar no mundo. A data reforça que garantir comida suficiente, segura e nutritiva é um desafio simultaneamente sanitário, econômico, social e ambiental.
Dados globais revelam desigualdade no acesso aos alimentos
Segundo o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI 2026), elaborado pela FAO e por outras agências das Nações Unidas, 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome no mundo em 2025, o equivalente a 7,8% da população mundial. Além disso, 2,1 mil milhões de pessoas viveram insegurança alimentar moderada ou grave, correspondendo a 25,8% da população.
O relatório indica ainda que 2,69 mil milhões de pessoas — 32,7% da população mundial — não tinham condições financeiras para pagar uma alimentação saudável. Os números evidenciam as desigualdades e os obstáculos económicos no acesso a uma dieta adequada, mesmo num contexto de ligeira melhoria global.
Brasil ainda enfrenta insegurança alimentar em milhões de lares
No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2024, apontam que 18,9 milhões de domicílios enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a 24,2% dos lares brasileiros. Desse total, cerca de 6,5 milhões de pessoas viviam em domicílios com insegurança alimentar grave.
Embora tenha havido melhoria face a 2023, quando 21,1 milhões de domicílios se encontravam nessa situação, os números continuam a preocupar. Entre 2023 e 2024, o total de domicílios em insegurança alimentar diminuiu em cerca de 2,2 milhões, e aproximadamente 2 milhões de pessoas deixaram a situação de insegurança alimentar grave.
Inovação para nutrir o amanhã
Como acontece todos os anos, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) promove uma campanha global de mobilização que, em 2026, tem como tema “Inovar hoje para nutrir o amanhã”. A iniciativa destaca como a inovação, a ciência, a tecnologia e os conhecimentos tradicionais podem contribuir para combater a fome, melhorar a nutrição e construir sistemas alimentares mais sustentáveis, sem comprometer os recursos naturais das futuras gerações.
Entre as principais mensagens estão o combate à fome e à insegurança alimentar e a ampliação do acesso a alimentos suficientes, seguros, nutritivos e diversificados. A FAO sublinha que soluções inclusivas, combinadas com saberes tradicionais, são essenciais para proteger o planeta e assegurar alimentação de qualidade.
“A fome e a desnutrição têm ocupado espaço na vida de milhões de pessoas em todo o mundo. O acesso ao alimento, considerando disponibilidade e saudabilidade, afeta todas as faixas etárias, e os mais pobres são os mais impactados. O problema ultrapassa os aspetos nutricionais e envolve questões políticas, económicas, sociais e ambientais. É quando atingimos a chamada insegurança alimentar, uma situação crítica que pode comprometer a saúde individual e coletiva e afetar até o desenvolvimento do país”, alerta o Prof. Dr. Durval Ribas Filho, médico nutrólogo, Fellow da The Obesity Society (TOS), dos Estados Unidos, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e palestrante do CBN 26 – Congresso Brasileiro de Nutrologia.
O especialista explica que a insegurança alimentar está associada à falta de acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes para atender às necessidades das pessoas.
“A má alimentação pode causar danos em todas as etapas da vida, desde o desenvolvimento ainda no útero materno até ao envelhecimento. Uma nutrição adequada está atrelada ao desempenho do nosso sistema imunológico, enquanto a privação de macro e micronutrientes aumenta a probabilidade de doenças relacionadas com a redução das defesas do organismo.”
Desperdício de alimentos é problema de saúde e sustentabilidade
Outro ponto destacado pela campanha da ONU neste ano é a necessidade de reduzir o desperdício e estimular escolhas conscientes no consumo e na distribuição dos alimentos. O desperdício agrava a pressão sobre recursos como água, solo e biodiversidade, ao mesmo tempo que alimentos ainda próprios para consumo deixam de chegar a quem precisa.
“Este aspeto é extremamente relevante em todo o mundo. Frutas e hortaliças, seguidas por raízes e tubérculos, estão entre os alimentos descartados, mesmo quando ainda estão próprios para o consumo e poderiam contribuir para alimentar milhares de pessoas. O primeiro passo para evitar deitar comida fora é comprar a quantidade adequada às próprias necessidades. Também é importante difundir informações sobre o aproveitamento integral dos alimentos. Folhas, talos e sementes são ricos em nutrientes e podem ser incorporados em diversas receitas”, explica o presidente da ABRAN.
E completa: “A insegurança alimentar é um problema de todos nós. Milhões são gastos na produção de alimentos que acabam no lixo, enquanto milhões de pessoas passam fome e chegam a morrer.”
A campanha também chama a atenção para a importância da inovação na produção de alimentos, valorizando tanto as soluções tecnológicas quanto as práticas tradicionais da agricultura, da pesca e de outros setores alimentares. Estas iniciativas convergem para um objetivo comum: incentivar o uso responsável da água, do solo e da biodiversidade, além de valorizar os agricultores e as comunidades, reconhecendo o papel de quem produz e garante o abastecimento alimentar.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A fome e o desperdício de alimentos são faces opostas da mesma crise: enquanto milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, grandes quantidades de comida ainda própria para consumo são descartadas. Os dados mais recentes da FAO e do IBGE mostram avanços, mas também revelam que o acesso a uma alimentação saudável continua fora do alcance de uma parte significativa da população. Reduzir desperdícios, apoiar a produção sustentável e valorizar políticas de segurança alimentar são passos essenciais para construir um futuro mais justo, saudável e sustentável.
Fome atinge 645 milhões e desperdício agrava crise alimentar mundial
Dados globais revelam desigualdade no acesso aos alimentos
Brasil ainda enfrenta insegurança alimentar em milhões de lares
Inovação para nutrir o amanhã
Desperdício de alimentos é problema de saúde e sustentabilidade
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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