Estudo na Nature relaciona síndrome metabólica a maior risco de morte
Estudo aponta maior risco de morte em casos de câncer de mama e próstata
Os tratamentos mais comuns para o câncer incluem quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, mas para alguns pacientes, além do oncologista, é necessário visitar médicos e nutricionistas. Isso por que a síndrome metabólica já é apontada como um fator de piora do câncer, reduzindo a sobrevida de pacientes. É o que aponta um artigo recente, publicado na revista Nature, que mostrou que a síndrome metabólica piora a sobrevida ao câncer de mama e de próstata. “A síndrome metabólica não é uma doença isolada, mas um conjunto de alterações que tendem a ocorrer simultaneamente, como aumento da circunferência abdominal, pressão arterial elevada, alterações na glicemia e nos níveis de triglicerídeos e HDL-colesterol. Quando esses fatores estão presentes, o organismo passa a operar em um contexto de maior resistência à insulina e alterações metabólicas que podem afetar diferentes sistemas do corpo”, explica a endocrinologista Dra. Deborah Beranger*, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ). “Em pacientes com câncer, esse cenário pode ser particularmente relevante porque as alterações metabólicas podem influenciar o microambiente tumoral, a resposta ao tratamento e a capacidade do organismo de lidar com a própria doença, contribuindo para um pior prognóstico em determinados tipos de tumor”, acrescenta o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello*, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia.
O estudo mostra que, na população dos Estados Unidos, quase metade dos adultos com mais de 60 anos são afetados pela síndrome metabólica, o que a torna uma preocupação de saúde pública cada vez mais importante, juntamente com o câncer. “A síndrome metabólica é clinicamente definida como a coexistência de pelo menos três anormalidades metabólicas, incluindo hipertensão, hiperlipidemia, tolerância anormal à glicose, níveis elevados de triglicerídeos, adiposidade central e baixos níveis de colesterol HDL (lipoproteína de alta densidade), ocorrendo simultaneamente”, explica o Dr. Ramon. “Em conjunto, essas anormalidades estão associadas à inflamação crônica, à alteração da sinalização hormonal e à resistência à insulina, que podem estar relacionadas ao desenvolvimento e à progressão do câncer. Os cânceres de mama e de próstata são particularmente relevantes, pois muitos tumores são influenciados por vias hormonais que se interconectam com processos metabólicos”, comenta a Dra. Deborah.
Segundo a Dra. Marcella Garcez*, médica nutróloga, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), para entender as doenças metabólicas, é preciso entender o que é metabolismo. “O metabolismo é o conjunto de reações químicas e processos mecânicos responsáveis pelo funcionamento do organismo. As doenças metabólicas estão relacionadas à inadequação dessas reações e processos, causadas por excesso ou deficiência de determinadas substâncias no corpo ou alterações no funcionamento de alguns órgãos. Elas podem ter diversas causas, e entre as principais estão os fatores que determinam o estilo de vida, principalmente os hábitos alimentares, além do sedentarismo, maus hábitos de sono, alcoolismo, tabagismo, envelhecimento, exposição a toxinas e fatores genéticos. Entre as principais doenças metabólicas estão obesidade, diabetes, dislipidemias, hipertensão, esteatose hepática e insuficiência renal”, destaca a Dra. Marcella.
O estudo incluiu 104.599 pacientes com câncer de mama e 96.005 pacientes com câncer de próstata que atendiam aos critérios de elegibilidade. A síndrome metabólica foi identificada em 29.562 pacientes (28%) com câncer de mama e 29.504 pacientes (31%) com câncer de próstata. “A maioria dos participantes em ambos os grupos apresentava doença localizada ou regional no momento do diagnóstico. As pacientes com câncer de mama foram diagnosticadas com uma mediana de idade de 74 anos, enquanto os pacientes com câncer de próstata foram diagnosticados com uma mediana de idade de 73 anos. O estudo constatou que a síndrome metabólica estava associada a um risco ajustado substancialmente maior de morte por qualquer causa em ambos os tipos de câncer. Entre as pacientes com câncer de mama, aquelas com síndrome metabólica apresentaram um risco ajustado de morte por todas as causas aproximadamente duas vezes maior em comparação com aquelas sem síndrome metabólica”, comenta o Dr. Ramon.
Uma associação igualmente elevada foi observada entre pacientes com câncer de próstata. “Os resultados também revelaram que a síndrome metabólica estava associada a um risco maior de morte por câncer. Pacientes com câncer de mama e síndrome metabólica apresentaram um risco ajustado 30% maior de morte por câncer de mama. Enquanto isso, pacientes diagnosticados com câncer de próstata e síndrome metabólica apresentaram um risco ajustado 32% maior de morte por câncer de próstata”, afirma o Dr. Ramon. “A síndrome metabólica também foi associada a um risco maior de mortalidade cardiovascular em pacientes com câncer. Pacientes com câncer de mama e síndrome metabólica apresentaram mais que o dobro do risco ajustado de morte por problemas cardiovasculares específicos em comparação com aqueles sem síndrome metabólica”, acrescenta a Dra. Deborah. Da mesma forma, pacientes com câncer de próstata apresentaram um risco ajustado significativamente maior de morte por causas cardiovasculares e por insuficiência hepática.
Por conta desse e de outros estudos, o médico oncologista defende que o tratamento para o câncer insira mudanças no estilo de vida. “Tornar-se metabolicamente saudável por meio de estratégias de estilo de vida pode melhorar as chances de sobrevivência para quem já tem câncer. Com inúmeras maneiras de melhorar os fatores de risco metabólicos, os pacientes podem assumir o controle de sua saúde, pelo menos até certo ponto”, explica o Dr. Ramon. “Controlar a pressão arterial, a glicemia, os lipídios e o excesso de gordura visceral não substitui o tratamento oncológico, mas pode contribuir para que o paciente tenha melhores condições clínicas para enfrentá-lo. O cuidado precisa ser integrado, porque o organismo não funciona em compartimentos isolados”, acrescenta a Dra. Deborah. E, por fim, a Dra. Marcella Garcez reforça a importância do exercício físico: “Na prevenção e tratamento da síndrome metabólica, o exercício físico é considerado de grande importância. Tal intervenção, comprovadamente, melhora à tolerância à glicose e reduz a resistência à insulina. A prática moderada tanto de exercícios aeróbicos como de força é indicada para os portadores, desde que seja frequente e obedeça a uma periodicidade. Atividades de flexibilidade e relaxamento associadas às de força e aeróbicas, também trazem impactos positivos”, finaliza a médica nutróloga.
*DRA. DEBORAH BERANGER: Endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB. Com cursos de extensão em Obesidade, Transtornos Alimentares e Transgêneros pela Harvard Medical School, a médica tem MBAs de Saúde e Qualidade de Vida, de Marketing e Branding Médico e de Mindset, todos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e curso de Obesidade e de imersão em Medicina Culinária pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Fez Fellowship pela European Association for the Study of Obesity, em Portugal; é speaker dos laboratórios Servier, Novo Nordisk, Novartis, Merck, AstraZeneca, Lilly e Boehringer. CRM 52753912 | Instagram: @deborahberanger
*PROF. DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor visitante da Kent and Medway Medical School, University of Kent (Inglaterra), doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. É pesquisador e professor do doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em São Paulo, e membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 120 artigos científicos publicados, é editor de quatro livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, publicado pela Elsevier em 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru (SP). CRMSP 181245 | RQE 67356 | Instagram: @dr.ramondemello
*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. CRMPR 12559 | RQE 16019 | Instagram: @dra.marcellagarcez
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