Campanha reforça a importância da prevenção, do acolhimento e do apoio especializado
Falar sobre suicídio não incentiva o comportamento suicida: pode abrir caminho para a prevenção
Durante muito tempo, falar sobre suicídio foi um tabu na sociedade. A campanha Setembro Amarelo procura contrariar esse silêncio e reforçar a importância da consciencialização, da prevenção e do acolhimento em torno de um problema que afecta milhares de pessoas em todo o mundo.
Mais do que procurar respostas simples para uma realidade complexa, a prevenção do suicídio passa por reconhecer sinais de sofrimento, aproximar quem precisa de ajuda dos serviços especializados e fortalecer as redes de apoio familiar e social.
Suicídio continua a ser um importante problema de saúde pública
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 727 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Entre os jovens dos 15 aos 29 anos, o suicídio encontra-se entre as principais causas de morte.
No Brasil, o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde que analisou o período entre 2010 e 2021 registou 15.507 mortes por suicídio em 2021. O documento mostrou ainda um aumento de 42% na taxa de mortalidade, que passou de 5,2 para 7,5 por 100 mil habitantes durante esse período.
Em 2021, o suicídio foi a terceira causa de morte entre os brasileiros dos 15 aos 19 anos e a quarta entre os 20 e os 29 anos.
A OMS estima também que, por cada morte resultante de suicídio, ocorram cerca de 20 tentativas, o que evidencia a dimensão do problema e a necessidade de estratégias de prevenção e acompanhamento adequadas.
Não existe um único perfil de pessoa em risco
Para a psicóloga do Grupo São Lucas Paula Carvalho (CRP: 06/99551), é importante compreender que não existe um único perfil suicida. Algumas pessoas manifestam claramente o seu sofrimento, enquanto outras podem manter uma postura mais reservada.
Por esse motivo, mais do que procurar uma lista rígida de sintomas, é fundamental prestar atenção a alterações recentes ou à intensificação de determinados comportamentos.
"Entre os sinais de alerta estão falar sobre morte, suicídio ou sobre não ter motivos para viver, demonstrar desesperança intensa, dizer que é um peso para outras pessoas, isolamento repentino, despedidas incomuns, distribuição de objectos importantes, busca por meios de morrer, alterações importantes de sono e alimentação, aumento do consumo de álcool e/ou outras drogas, comportamentos impulsivos ou arriscados, mudanças bruscas de humor e sofrimento emocional ou físico descrito como insuportável", destaca a profissional.
A presença de depressão, ansiedade ou consumo de álcool e outras drogas pode estar associada a um maior risco, mas esses diagnósticos, por si só, não significam que exista ideação ou tentativa de suicídio.
Da mesma forma, uma pessoa sem diagnóstico psiquiátrico pode atravessar uma crise suicida perante situações como perda, violência, doença, dor crónica, dificuldades financeiras, conflitos afectivos, isolamento ou outros acontecimentos marcantes.
O suicídio é multifactorial e raramente pode ser explicado por uma única causa.
Ideação suicida e tentativa de suicídio: qual a diferença?
A ideação suicida corresponde a pensamentos relacionados com a própria morte ou com a possibilidade de tirar a própria vida. Pode manifestar-se através de pensamentos mais inespecíficos, como desejar não acordar ou desaparecer, ou assumir formas mais estruturadas, envolvendo intenção e planeamento.
Já a tentativa de suicídio implica a realização de um comportamento com intenção de provocar a própria morte, ainda que o resultado não seja fatal.
É igualmente importante distinguir uma tentativa de suicídio de outros comportamentos de autolesão. Nem todo o comportamento autolesivo ocorre com intenção de morrer, embora qualquer episódio deva merecer uma avaliação cuidadosa e adequada.
O risco pode mudar ao longo do tempo
Não existe um único factor capaz de determinar quando uma pessoa passará da ideação para uma tentativa. O risco é dinâmico e pode aumentar ou diminuir de acordo com diferentes circunstâncias.
"Não existe um único factor que determine quando é que alguém passará da ideação para uma tentativa. O risco é dinâmico. Pode aumentar face à combinação de desesperança intensa, doenças psiquiátricas, planeamento mais definido, acesso a meios letais, uso de álcool ou outras drogas, agitação ou impulsividade, perdas recentes, isolamento social e, principalmente, histórico de tentativa anterior", explica Paula Carvalho.
Segundo a especialista, uma tentativa anterior constitui um dos factores de risco mais importantes para um novo comportamento suicida.
Por isso, em vez de tentar prever com certeza quem poderá realizar uma tentativa, a abordagem actual procura reconhecer alterações no estado da pessoa e identificar os factores que, naquele momento, estão a aumentar ou a diminuir a sua segurança.
Acolhimento e escuta são fundamentais na prevenção
Perante sinais preocupantes, o acolhimento por parte de familiares, amigos e outras pessoas próximas pode ser determinante. É importante não desvalorizar aquilo que a pessoa está a sentir nem considerar que os seus problemas são insignificantes.
Também é fundamental combater o preconceito de que falar sobre suicídio pode incentivar alguém a atentar contra a própria vida. Uma abordagem responsável e acolhedora permite abrir espaço para que a pessoa fale sobre o seu sofrimento e procure ajuda.
Durante uma crise, algumas medidas podem contribuir para aumentar a segurança: permanecer com a pessoa quando existe risco imediato, não prometer segredo absoluto, contactar familiares ou pessoas de confiança, facilitar o acesso a cuidados profissionais e, de forma segura e colaborativa, reduzir o acesso a meios que possam ser utilizados numa tentativa.
Aumentar o tempo e a distância entre uma pessoa em crise e um meio letal é reconhecido como uma importante estratégia de prevenção.
Quando procurar ajuda de urgência
Se existir intenção actual, planeamento, tentativa em curso ou risco iminente, a situação deve ser encarada como uma urgência em saúde.
No Brasil, a orientação é procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou contactar o SAMU através do número 192.
O período que se segue a uma tentativa de suicídio ou à alta de um internamento hospitalar merece especial atenção. As orientações internacionais recomendam avaliação psicossocial, elaboração conjunta de um plano de segurança e continuidade do acompanhamento.
A importância do acompanhamento multidisciplinar
A prevenção não termina quando uma crise diminui. O acompanhamento continuado pode ajudar a tratar sintomas, compreender os factores que contribuíram para a crise e reconstruir projectos de vida.
"Entre as estratégias contemporâneas estão os planos de segurança, construídos em conjunto com a própria pessoa. Ajudam a identificar sinais pessoais de crise, estratégias de coping, pessoas e serviços que podem ser accionados e formas de tornar o ambiente mais seguro", explica a psicóloga.
Para Paula Carvalho, o acompanhamento multidisciplinar é fundamental, envolvendo áreas como Psicologia, Psiquiatria, Medicina, Enfermagem, Serviço Social e cuidados de saúde primários. Sempre que possível e autorizado pela própria pessoa, familiares e elementos da rede de apoio também podem desempenhar um papel importante.
"Prevenir uma nova crise significa tratar os sintomas, mas também trabalhar as relações, as condições sociais, as perdas, a rotina, a autonomia, as estratégias de coping, a adesão ao tratamento e a reconstrução de projectos de vida", conclui.
CVV disponibiliza apoio emocional gratuito no Brasil
No Brasil, para além dos serviços de saúde, o CVV – Centro de Valorização da Vida disponibiliza apoio emocional gratuito e sigiloso através do telefone 188, 24 horas por dia.
Em 2025, o serviço realizou cerca de 2 milhões de atendimentos.
O CVV constitui uma importante rede de escuta e apoio emocional, mas não substitui o atendimento de urgência quando existe risco iminente. Nessas situações, deve procurar-se uma UPA, hospital ou serviço de urgência, ou contactar o SAMU através do número 192.
Sobre o Grupo São Lucas
O Grupo São Lucas de Ribeirão Preto (SP) é uma marca com mais de 50 anos de tradição na área da saúde, apostando em medicina de excelência, médicos especialistas, atendimento humanizado e estrutura própria com tecnologia avançada.
O grupo é constituído pelo Hospital São Lucas, Hospital São Lucas Ribeirania e São Lucas Medicina Diagnóstica.
Localizado em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, o Grupo São Lucas é gerido pela Hospital Care, uma holding de serviços de saúde formada por mais de 30 unidades, entre hospitais e clínicas, em sete cidades brasileiras.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
O Setembro Amarelo reforça todos os anos a importância de falar sobre saúde mental, prevenção do suicídio e acesso a cuidados especializados. Perante sinais de sofrimento ou risco, ouvir sem julgamentos, não desvalorizar o que a pessoa está a sentir e facilitar o acesso a ajuda profissional pode ser decisivo. Em situações de risco iminente, deve ser procurado imediatamente um serviço de urgência. No Brasil, o SAMU pode ser contactado através do 192 e o CVV disponibiliza apoio emocional através do 188, 24 horas por dia.
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