Obra de Ely Carneiro de Paiva relaciona política, imprensa e polarização
O Brasil de 1897 enfrentou instabilidade política, violência e desinformação
1897 foi um dos anos mais conturbados da história do Brasil. A Guerra de Canudos, a morte de Antônio Conselheiro, a decretação do estado de sítio, a cisão do Partido Republicano Federal e a tentativa de assassinato do presidente Prudente de Morais marcaram um período de forte instabilidade política e social.
É esse cenário que o escritor, pesquisador e professor universitário Ely Carneiro de Paiva revisita no livro 1897: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, publicado pela Editora Ayran. Com endosso do escritor Laurentino Gomes, a obra apresenta os bastidores do primeiro governo civil da República brasileira, marcado por ameaças de golpes militares, fake news, escândalos de corrupção, atentados e discursos de ódio.
O atentado contra Prudente de Morais ocorreu em 5 de novembro de 1897, durante uma cerimónia de recepção às tropas que regressavam vitoriosas de Canudos. O episódio, que se tornou um dos acontecimentos mais graves do início da República, é analisado no livro ao lado das disputas políticas e das tensões ideológicas daquele período.jornal.unicamp+1
Um retrato dos primeiros anos da República
Ao recuperar os acontecimentos de 1897, Ely Carneiro de Paiva mostra que a construção de um ideal republicano foi um processo lento, marcado por avanços, retrocessos e conflitos permanentes.
“O mundo era muito diferente no final do século XIX. As mulheres não tinham direitos, e o racismo era algo natural e incentivado. A evolução da nossa República ficou mais evidente somente depois da Constituição de 1988. Apesar disso, os discursos de ódio, a defesa do militarismo e a ditadura, que são marcas do início dos governos republicanos, têm voltado a nos assombrar nos últimos 10 anos”, explica o escritor.
A relação entre o passado e o presente é um dos eixos da publicação. Ao abordar a polarização política, a defesa do militarismo e a circulação de informações falsas, o autor evidencia como determinados conflitos da Primeira República continuam a encontrar ecos na sociedade contemporânea.
Com endosso de Laurentino Gomes, que classifica a obra como um “livro bem escrito, de narrativa fluida, e fácil de entender mesmo para leitores mais leigos no tema”, o trabalho resulta de mais de uma década de pesquisa e reúne mais de 600 referências.
Entre as fontes consultadas estão documentos oficiais dos anais da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, além de notícias publicadas em jornais como Jornal da Manhã, Jornal do Brasil e Jornal do Comércio.
Fake news e imprensa no século XIX
Dividido em 27 capítulos curtos, o livro não se limita à análise dos acontecimentos políticos. Ely Carneiro de Paiva também descreve aspectos da vida social do Rio de Janeiro no final do século XIX, quando a cidade era a capital do país.
Entre os episódios retratados estão a inauguração do Palácio do Catete, uma confraternização no Itamaraty para celebrar a relação entre o Brasil e o Chile, a visita de grupos indígenas à metrópole e os relatos sobre um suposto fantasma na rua das Laranjeiras.
A história do fantasma, que chegou às manchetes e se tornou tema de carnaval, é apresentada como um exemplo da força da imprensa na criação e disseminação de narrativas fantasiosas.
O mais provável é que o caso tenha sido inventado pela própria imprensa, como acreditava Olavo Bilac. Mesmo que os jornais da capital não tenham iniciado os rumores, contribuíram para ampliar as fantasias por meio de textos sensacionalistas, relatos suspeitos e depoimentos fictícios.
Naquele período, os jornais nem sempre distinguiam com clareza o editorial da notícia ou a crónica do relato. Dessa forma, informações fantasiosas — verdadeiras fake news, conhecidas na época como blagues — misturavam-se com o noticiário diário.
Como escreve o autor:
“Naqueles tempos, para aumentar a audiência popular, os jornais não se preocupavam em distinguir a linha que separa o editorial da notícia, ou a crónica do relato, permitindo que notícias fantasiosas, verdadeiras fake news — conhecidas na época como blagues — se misturassem ao noticiário do dia a dia.”
Um julgamento simbólico para 1897
O ambiente caótico que atravessa o livro é levado a julgamento no prólogo, a única parte da obra em que o autor recorre à ficção.
Na passagem, um tribunal popular reúne-se no Natal, na rua do Ouvidor, para avaliar os acontecimentos daquele ano. A sentença final é simbólica: pena de morte para 1897.
O promotor resume o período com uma acusação contundente:
“Minhas senhoras e meus senhores, senhor juiz e senhores jurados: poucas vezes temos tido, na curta história da nossa vida independente, anos tão calamitosos como foi 1897! Ano assassino, ano conspirador, ano fanático, ano bêbado, ano gatuno, que roubou vidas preciosíssimas.”
A escolha de um julgamento ficcional permite ao autor condensar as contradições de um ano marcado por guerras, conspirações, violência política, desinformação e instabilidade institucional.
Ficha Técnica
Título: 1897
Subtítulo: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais
Autor: Ely Carneiro de Paiva
Editora: Ayran
ISBN: 978-65-89177-20-3
Páginas: 291
Preço: R$ 72 (físico)
Onde comprar: Editora Ayran
Sobre o autor:
Ely Carneiro de Paiva é graduado em Engenharia Elétrica, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e correspondente associado do Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso do Sul (IHGMS). Como escritor, publicou três livros: “O Homem do Cavalo Branco” (2012), sobre o maior estelionatário do Brasil na República Velha; “Jean Serrou Camy – Um francês dos Pirineus no coração do Brasil” (2018), sobre um importante imigrante francês no interior do país, no século XIX; e 1897: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais. Instagram - Site.
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Nota do Editor: Revisitar 1897 é também revisitar os primeiros anos da República brasileira, num período em que conflitos políticos, violência, imprensa sensacionalista e informações falsas se cruzavam de forma particularmente intensa. O livro de Ely Carneiro de Paiva recupera esse contexto a partir do atentado contra Prudente de Morais e de uma investigação documental que procura aproximar o leitor dos acontecimentos e das mentalidades da época. Mais de um século depois, algumas dessas questões continuam a merecer reflexão, sobretudo quando a História ajuda a compreender como se formam e propagam narrativas em tempos de forte polarização.
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