A ficção científica transforma a crise climática em alerta para a humanidade
Quando a ficção imita a realidade, ignorar os avisos torna-se ainda mais perigoso
Com o planeta se aproximando do limite climático, as ecodistopias assumem o papel político-social de alertar a humanidade. Em sua nova obra, o autor projeta um cenário onde a Terra recorre a eventos meteorológicos extremos para se curar de séculos de degradação ambiental.
Por: Eduardo Magela Rodrigues*
O propósito da ficção científica ao desenhar cenários drásticos e pouco encorajadores talvez seja emitir alertas pedagógicos sobre os dias em que vivemos e viveremos, bem como sobre as decisões que nós — como Humanidade — tomamos ou não.
Nesse sentido, há tempos as distopias têm especulado sobre nosso futuro e, de certa forma, antecipado alguns fatos e tendências. Certamente, não convivemos (ainda) com os estados totalitários de “1984” ou de “O Conto da Aia”, nem com a manipulação genética extrema de “Admirável Mundo Novo”, ou mesmo com o robô revoltoso de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Todavia, também não é possível afirmar que estamos muito distantes destes cenários sombrios.
Assim sendo, considerando o aspecto quase ‘premonitório’ das distopias, é mais do que esperado o aparecimento das ‘ecodistopias’. Elementos reais nos quais se basear não faltam: inundações históricas — como as que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 —; ondas de calor extremo — semelhantes às que se abateram sobre a Europa e o Brasil em 2025 —; ciclones tropicais — nos moldes dos que castigaram o sul do Brasil em 2025 —; e incêndios florestais devastadores — que consumiram o Pantanal entre 2024 e 2025.
Com nosso planeta se encaminhando para o fatídico ponto de não retorno climático, a Literatura precisa exercer seu papel político-social e não se limitar a ser meramente uma expressão artística. As letras devem se unir ao coro que alerta a raça humana sobre o caminho perigoso que trilha no que diz respeito ao uso dos recursos naturais da Terra.
Uma alternativa é a criação de obras que dialoguem com esse sentimento de urgência climática, especulando cenários nos quais o ponto de inflexão foi atingido e pouco — ou nada mais — possa ser feito.
E se, do mesmo modo que um organismo se utiliza da febre e de outros mecanismos biológicos de autodefesa para se recuperar de uma infecção grave, a Terra recorresse a eventos meteorológicos extremos para se curar dos três séculos de degradação ambiental causada por nós desde o início da Revolução Industrial e por nosso desenfreado consumo dos recursos naturais?
O que aconteceria com nossa civilização diante de cataclismos globais que atingem a todos, independentemente de geração, país, classe social ou posição ideológica?
Minha tentativa de contribuir com essa discussão se encontra em meu novo livro, intitulado “V4T3R — Parte I: O Basilar e o Padre”. Nele, nós exaurimos nossos recursos naturais e falhamos em solucionar a questão da crise climática.
Em resposta, a própria Natureza desencadeia um severo processo de reequilíbrio do ecossistema global por meio de eventos extremos que convulsionam o planeta por quase 15 anos. O resultado é a destruição quase completa de cidades, obras de infraestrutura e plantações, bem como da drástica redução de nossa população para apenas um vigésimo de outrora.
Vivemos em pequenos grupos e habitamos ruínas, sobrevivendo com pouquíssimos recursos, tanto tecnológicos quanto naturais.
Observando tudo isso, encontra-se o protagonista da trilogia: V4T3R, o basilar. Trata-se de um alienígena — cujo comportamento se baseia exclusivamente na racionalidade e lógica — que, atraído pelas atitudes erráticas cometidas pelos autodenominados “homens sábios”, constrói um dispositivo capaz de projetá-lo numa consciência humana para poder, de uma perspectiva única, acompanhar todas as sensações de seus hospedeiros.
E uma das questões que mais o fascinam é nossa persistência em destruir os recursos que sustentam a nossa própria existência e agredir o planeta que é nosso único lar.
Sendo incapaz de tomar atitudes ilógicas, o basilar fica intrigado com nosso comportamento predatório, que não pode ser meramente atribuído à ignorância. Os sinais já existiam, os alertas foram emitidos, os alarmes foram soados e nós continuamos nossa marcha da insensatez até não ser mais possível retroceder.
Espero que o cenário que criei continue sendo apenas ficção. No entanto, confesso que me sinto desencorajado às vezes.
O grande motivo é a insistência — mais notadamente de alguns dos grandes líderes nacionais, bem como de indivíduos poderosos e influentes — em contestar as evidências científicas que apontam para a causa humana dos eventos climáticos extremos.
Independentemente dos motivos — incredulidade na ciência, interesses político-econômicos, posicionamento ideológico, falta de empatia pela sensação de não ser afetado —, esse comportamento negacionista adiciona ruídos ao debate e compromete a implantação de políticas que ataquem efetivamente a questão.
E, diante desse modo de pensar, mesmo a mais brilhante obra de ficção científica muito pouco pode oferecer.
*Eduardo Magela Rodrigues é engenheiro de software com mais de 20 anos de experiência em tecnologia. Sua formação acadêmica inclui graduação em Letras (FAPAM) e especializações em Engenharia de Sistemas (PUC-MG) e em Big Data e Machine Learning (XP Educação).
Na literatura, é autor da trilogia “V4T3R”, cuja segunda parte está em desenvolvimento, além de trabalhar em outros projetos de ficção científica e fantasia.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A literatura também pode ser uma forma de alerta diante dos grandes desafios do nosso tempo. Ao aproximar ficção científica e crise climática, Eduardo Magela Rodrigues propõe uma reflexão sobre as consequências de escolhas que podem comprometer o futuro do planeta. O livro V4T3R — Parte I: O Basilar e o Padre surge, assim, como uma provocação literária sobre os limites da ação humana e a urgência de repensarmos a relação com a Natureza.
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Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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