A seca expôs uma política de confinamento que marcou o Ceará em 1932
Quando a memória desaparece, os velhos mecanismos de exclusão podem voltar
Por: Rafael Caneca*
Em 1932, enquanto a seca devastava o interior do Ceará, o Estado adotou uma solução que revela bastante sua natureza: reuniu os retirantes em campos de concentração espalhados pela capital e pelos arredores, cercou-os com arame farpado e os deixou morrer de fome, doença e desamparo a céu aberto. A história costuma nomear o período como uma crise climática, mas ele foi, antes de tudo, uma crise de poder e de deliberada desumanização. Revisitar 1932 é reconhecer que as estruturas que confinaram aqueles corpos sertanejos permanecem operando, com outras roupagens, no presente. Quem não conhece o mecanismo não consegue identificá-lo quando ele retorna.
O problema, porém, é que essa história quase não foi contada — ou foi contada de longe, por vozes que ignoravam que o sertão é um lugar habitado por gente com nomes, memórias e agência e o enxergavam apenas como paisagem exótica de sofrimento. Ao escrever Não volte sem ele (ed. Mondru), meu romance de estreia, optei por outro ponto de partida: construí a narrativa a partir de dentro, tendo em mente que a literatura pode ser o espaço onde o Nordeste deixa de ser objeto de estudo para se tornar sujeito de sua própria narrativa e onde a memória coletiva resiste ao apagamento.
Campos de concentração estatais no Ceará
Os campos de concentração da seca de 1932 não foram um acidente de percurso na história do Ceará. Os chamados “currais do governo” foram uma resposta política a um problema que o Estado nunca quis resolver de verdade: a vulnerabilidade estrutural do sertanejo, produzida por séculos de concentração fundiária, abandono institucional e exploração do trabalho. Transformar a seca em catástrofe natural, em detrimento da catástrofe social que ela insiste em ser até hoje, sempre foi conveniente para quem detinha terra e poder. O confinamento dos retirantes revelou, com brutalidade impossível de ignorar, a lógica de controle que organizava as relações entre o Estado e as populações pobres do interior: isolar, vigiar, imobilizar. Os campos eram, nesse sentido, menos um gesto de assistência do que um dispositivo de contenção; foi a forma encontrada para que o problema não chegasse às ruas da capital nem perturbasse a ordem que se queria preservar. Entender o presente cearense, mais precisamente as periferias de Fortaleza, o êxodo que não cessou e a precariedade que persiste, exige passar por ali. Não se chega ao mapa sem percorrer o caminho.
O que a historiografia oficial tende a apagar é que os confinados não eram apenas vítimas passivas. Dentro dos campos, e apesar deles, havia formas de organização, solidariedade e resistência (embora essa resistência esteja ausente dos registros oficiais porque não fez barulho suficiente para assustar o poder, por mais que tenha sido responsável por manter muitas pessoas vivas); além disso, a fé funcionava como camada múltipla: era consolo genuíno, linguagem de comunidade e, em certos momentos, o único vocabulário disponível para nomear a injustiça sem ser punido por isso. Mas a fé também tinha seus limites. Sobreviver em contextos de violência estrutural raramente é heroico no sentido espetacular; é, na maioria das vezes, uma negociação cotidiana e extenuante entre a dignidade que se tenta preservar e a humilhação que o sistema impõe. A ideia de resiliência, tão cara ao discurso sobre o Nordeste, precisa ser tensionada: há algo de condescendente em admirar a capacidade de suportar o insuportável sem perguntar por que o insuportável foi imposto em primeiro lugar.
Contar a história nordestina por uma visão de dentro
Ademais, há uma diferença fundamental entre ser narrado e narrar. Durante décadas, o Nordeste foi narrado pela literatura, pelo jornalismo, pelas políticas públicas e pelo restante do País a partir de um olhar externo que precisava do sertão como símbolo de atraso, de sofrimento, de uma brasilidade primitiva que o Sul supostamente tinha superado. Esse olhar, mesmo quando bem-intencionado, carregava uma violência simbólica própria, já que, ao transformar a experiência nordestina em tipo e em metáfora, apagava sua complexidade interna. Quando um autor nordestino escreve sobre sua própria terra, o gesto se revela necessariamente político, mesmo que a intenção seja apenas literária. Com isso, é importante afirmar, não se procura atestar qualidade meramente a partir de uma autenticidade étnica, mas sim mudar a perspectiva de onde se está quando se olha. O olhar interno acessa dimensões que o externo, por mais competente e empático que seja, tende a simplificar. Narrar, nesse contexto, é também disputar o poder de definir o que existiu, como existiu e o que isso significa agora. É recusar que outros decidam o que a sua própria história quer dizer.
Não volte sem ele dialoga com uma linhagem literária que tem em Rachel de Queiroz uma das vozes fundadoras. Ao publicar O Quinze, em 1930, a escritora cearense tratou a seca com a seriedade que ela exigia, sem romantismo folclórico nem distância etnográfica, e com personagens que existem para além de sua condição de flagelados. Rachel abriu um caminho; outros vieram depois, cada um acrescentando camadas à cartografia literária do sertão. Nesse sentido, o que a ficção faz com a memória histórica não é o mesmo que o documento faz, e aí está sua força específica: o romance pode dar nome ao que o relatório oficial apagou e construir a subjetividade que o censo não registrou. Pode, inclusive, encontrar a verdade que resiste à prova documental porque é feita de outra coisa, que você pode chamar como quiser: experiência, imaginação histórica responsável ou fidelidade ao espírito do que foi vivido. Equilibrar documento e elaboração literária é uma das tensões mais produtivas da escrita histórico-ficcional, e resolvê-la bem é o que distingue o romance que ilumina o passado daquele que apenas o decora.
Portanto, uma região que esquece sua própria história não some, ela simplesmente perde a capacidade de se explicar e fica vulnerável a narrativas alheias que chegam para preenchê-la, geralmente com os mesmos estereótipos de sempre — lembrar, nesse sentido, é uma forma de autonomia. Os campos de concentração de 1932 existiram, e os mecanismos que os tornaram possíveis (a desumanização e criminalização dos miseráveis e o uso do Estado como instrumento de contenção social) não desapareceram com o fim da seca. Quem ganha quando essas narrativas somem são exatamente os que nunca tiveram interesse em que elas circulassem, e a literatura, quando está à altura de seu tempo, é um dos poucos espaços onde o apagamento pode ser revertido a partir da construção de uma memória que seja ao mesmo tempo particular e transmissível, local e legível. Contar essas histórias é, antes de tudo, garantir que as perguntas que elas levantam continuem abertas.
E perguntas abertas incomodam muito mais do que respostas prontas.
*Rafael Caneca é escritor nascido e residente em Fortaleza. É graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará, com especialização em Direito Internacional pela Universidade de Fortaleza. Atua como assessor jurídico no Ministério Público do Estado do Ceará. “Não volte sem ele”, publicado pela Editora Mondru, é seu romance de estreia.
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