A prevenção começa em casa, antes de a ameaça chegar à criança
Na chantagem, a criança precisa de encontrar proteção, não punição
Por: Cássio Mori*
O crime que mais cresce contra crianças brasileiras na internet depende de algo que não é tecnológico: o silêncio da vítima. Em 2025, a SaferNet registou 63.214 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual de crianças, a segunda marca mais elevada da sua série histórica. Cada número destes começou com uma criança que decidiu não contar em casa.
A Polícia Civil de São Paulo investiga essas redes pelo Noad, criado no fim de 2024, que já mapeou mais de 1.900 alvos e participou de mais de 600 prisões. Segundo a delegada que coordena o núcleo, cerca de 90% dos investigados têm entre 12 e 20 anos, e as vítimas mais frequentes são meninas de 6 a 14 anos. Não se trata apenas do adulto escondido atrás da tela: há adolescentes coagindo outros adolescentes.
As investigações corrigem outra imagem comum entre pais: a plataforma que aparece nas notícias costuma ser o fim da linha, não o começo. Quando a criança chega ali, foi abordada muito antes, em algum jogo ou conversa que ninguém achou que precisava olhar. Vigiamos a última porta.
Obtida a imagem, começa a etapa mais longa: transformar aquilo em silêncio. O agressor precisa de convencer a vítima de três coisas: que é culpada, que não há conserto e que contar vai piorar tudo. É mentira. Para uma menina de doze anos, parece verdade.
É aqui que entra a casa. A responsabilidade do crime é sempre de quem alicia e explora, mas a distância entre o medo e o pedido de ajuda mede-se dentro de casa. A criança regista o que acontece depois de cada erro, e mede o tamanho da reação, e não o da regra. Quando chega a chantagem, não pergunta se os pais a amam. Isso ela já sabe. Calcula quanto vai custar contar.
Há uma frase que precisa de ser dita antes da emergência: se alguém te ameaçar por causa de uma foto ou de algo que fizeste, vem ter comigo, eu fico do teu lado, mesmo que tenhas feito o que não devias, mesmo que tenhas mentido antes. A última parte é a que interessa. A alavanca da chantagem é precisamente aquilo que a criança fez e não quer que ninguém descubra.
Nada disto é argumento contra punir. Casa sem limite não protege ninguém. O que muda é o alvo da consequência, que responde ao que foi feito e nunca ao facto de ter sido contado. Quem conta por conta própria não pode acabar pior do que quem escondeu. E, na chantagem, não há nada a punir: a menina é vítima, ainda que tenha quebrado uma regra para lá chegar. Primeiro interromper o contacto, preservar as provas e procurar ajuda; regras vêm depois.
Falta a parte incómoda daqueles 90%. Algumas famílias terão de admitir que o filho pode estar do outro lado, e "o meu filho nunca faria isso" é uma reação compreensível, mas não é uma investigação. Estes rapazes encontraram naqueles grupos a pertença que não encontravam em outro lugar. Isto não os isenta, e indica onde começa a prevenção: na forma como tratam as raparigas e no tipo de poder que admiram.
Perante ameaça ou suspeita, procure a polícia, o Disque 100 ou a SaferNet. Antes disso, há algo que não depende de uma aplicação nem de uma investigação: deixar claro hoje o que o seu filho vai encontrar no seu rosto quando chegar com a pior história da sua vida. Nesse dia ele não vai perguntar se pode confiar em si. Vai olhar, e decidir.
*Cássio Mori é educador, escritor e consultor em gestão escolar, comunicação e relação entre a família e a escola. Autor de O filho que chega a casa.
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Um texto que coloca a prevenção onde ela realmente começa: na relação de confiança entre crianças e adultos. Mais do que vigiar aplicações, é essencial criar em casa um espaço onde contar o pior não se transforme num castigo ainda maior.
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A prevenção começa em casa, antes de a ameaça chegar à criança
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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