A Casa de Todos os Santos revela os conflitos das mulheres no sertão
Por detrás da tradição, podem esconder-se formas silenciosas de violência
Terceiro romance do Ciclo de Vozes do Sertão, A Casa de Todos os Santos, da escritora Lita Maria, acompanha o percurso de Maria Angelita de Todos os Santos, conhecida por Cota. Filha da lavadeira Isteobalda, cresce no meio das dificuldades do sertão, onde a pobreza, a religiosidade e os laços familiares parecem moldar o seu destino.
Resultado de uma pesquisa académica centrada nos processos de criação e na artesania da escrita ficcional, desenvolvida no âmbito da Universidade Federal do Tocantins (UFT), o romance investiga as microviolências estruturais que se escondem por detrás da moralidade, da religiosidade, das relações familiares e das convenções sociais.
Um romance sobre memória, cultura popular e transformação social
Um dos primeiros projectos de ficção seriada da literatura tocantinense, o Ciclo de Vozes do Sertão, criado pela escritora, reúne narrativas que exploram a memória, a cultura popular e as transformações sociais do sertão.
Com uma prosa memorialística que dialoga com a literatura brasileira contemporânea, a obra de Lita Maria tem conquistado reconhecimento para além dos livros. O Canto da Carpideira (Livro I) foi premiado pela Editora da UFT, nomeado em exames de admissão à universidade e adaptado para teatro.
Já Sobre Dora e Dores encontra-se em processo de adaptação ao cinema pela Cenaberta Produções. Lita Maria, que é também membro da União Brasileira de Escritores (UBE-GO), será uma das vozes actuais a ter um romance levado ao ecrã, com a participação de grandes nomes do cinema nacional, entre eles a actriz Marcélia Cartaxo.
Cota e as mulheres perante as convenções sociais
Em A Casa de Todos os Santos, Cota cresce ao lado da irmã Benigna e da prima Efigénia, observando como a honra, o casamento e a maternidade definem o lugar da mulher na sociedade.
Enquanto isso, a protagonista transita entre a simplicidade da sua casa e a convivência com a abastada família de Romeão e Gemma, revelando os contrastes de classe e as regras impostas pelas convenções sociais.
A narrativa contrapõe ainda dois universos femininos. Por um lado, a senhora Gemma enfrenta a pressão da família pela chegada de um herdeiro varão. Por outro, Isteobalda, mãe solteira que, num gesto de resistência e reinvenção, cria o apelido «de Todos os Santos» para dar identidade aos filhos.
A vida simples na casa de Isteobalda denotava quotidianos crus e, algumas vezes, raros sonhos que nunca seriam realizados. Um deles, Isteobalda alimentava só para si mesma. Ainda queria ver realizado o seu desejo. Talvez o único que se permitiu alimentar: arranjar um bom casamento para as suas duas filhas, as meninas de Todos os Santos.
«Sonhava arrumar um bom casamento para as suas duas filhas, as meninas de Todos os Santos.» — A Casa de Todos os Santos, p. 30
A violência simbólica escondida nos papéis impostos às mulheres
Segundo a autora, a obra nasce da trajectória de mulheres marcadas pelo olhar de uma sociedade que, muitas vezes, reduz o valor feminino ao cumprimento de papéis patriarcais, como os de mães, esposas e cuidadoras do lar.
O livro revela ainda como aquelas que não correspondem a essas expectativas — seja por não terem filhos homens, por não se casarem ou por desafiarem padrões estabelecidos — acabam por ser vistas como um peso ou como um desvio às normas sociais.
É precisamente nessa dimensão que o romance encontra uma das suas principais forças: mostrar que a violência nem sempre assume formas explícitas. Pode estar presente nos costumes, nas palavras, nos julgamentos familiares, nas expectativas sociais e nas regras herdadas de uma sociedade patriarcal.
Literatura brasileira contemporânea com raízes no sertão
Dirigido a leitores de romances literários e narrativas regionalistas, o enredo tem como público principal pessoas interessadas na literatura brasileira contemporânea, na ancestralidade e nos dilemas sociais do sertão.
O título dialoga também com estudantes, professores, investigadores e membros de clubes de leitura interessados nas representações do interior do Brasil, na memória, nas relações de género e nas transformações da sociedade.
Através de uma narrativa sensível e memorialística, A Casa de Todos os Santos evidencia como a violência pode estar presente em costumes, discursos familiares e julgamentos quotidianos herdados de uma sociedade patriarcal.
Para Lita Maria, o livro é, acima de tudo, uma reflexão sobre a força das mulheres e sobre um sertão que permanece vivo na memória e nas vivências das personagens, revelando a relação entre a geografia da terra e os corpos femininos que a habitam.
Ficha Técnica
Título: A Casa de Todos os Santos
Autora: Lita Maria
ISBN: 978-65-5253-451-4
Páginas: 173
Preço: R$ 24,99
Onde encontrar: Amazon
Sobre a autora
Lita Maria é escritora, mestra e doutoranda em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (PPGLetras/UFT), com concentração em Estudos Literários e ênfase em Escrita Criativa.
É licenciada em Psicologia e licenciada em Letras. É autora de três romances que compõem o mesmo universo literário: O Canto da Carpideira, Sobre Dora e Dores e A Casa de Todos os Santos.
Em processo de criação, Lita Maria trabalha actualmente no quarto romance do Ciclo, Mulher de Currutela, ainda sem editora e data de lançamento. Instagram: @litamarialiteratura - Site: www.litamaria.com.br
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A literatura regionalista continua a ser uma das formas mais poderosas de compreender realidades sociais, culturais e humanas que muitas vezes permanecem afastadas dos grandes centros. Em A Casa de Todos os Santos, Lita Maria parte do sertão para abordar questões que ultrapassam a geografia da narrativa, colocando em evidência a condição feminina, a memória, as desigualdades sociais e as formas silenciosas de violência presentes nas relações quotidianas.
O Portal Splish Splash destaca esta obra pela capacidade de transformar experiências, costumes e memórias do interior brasileiro numa reflexão sobre temas universais, demonstrando como a literatura pode preservar uma cultura e, simultaneamente, questionar as suas estruturas sociais.
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A Casa de Todos os Santos revela os conflitos das mulheres no sertão
Um romance sobre memória, cultura popular e transformação social
«Sonhava arrumar um bom casamento para as suas duas filhas, as meninas de Todos os Santos.»
— A Casa de Todos os Santos, p. 30
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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