Livro de Ely Carneiro de Paiva revisita um dos anos mais turbulentos do Brasil
O passado republicano brasileiro revela inquietantes paralelos com o presente
1897 foi um dos anos mais conturbados da história da jovem República brasileira. Enquanto o país enfrentava a Guerra de Canudos e a morte de Antônio Conselheiro, sucediam-se crises políticas, rumores de golpes militares, escândalos de corrupção, discursos de ódio e uma tentativa de assassinato do então presidente Prudente de Morais.
Foi também nesse período que o Governo decretou um estado de sítio e o Partido Republicano Federal sofreu uma cisão provocada pela intensa polarização em torno do futuro da República. No meio de um cenário marcado pela instabilidade, registaram-se, contudo, alguns acontecimentos positivos, como a diminuição dos casos de febre amarela e a fundação da Academia Brasileira de Letras.
É este período particularmente turbulento da história do Brasil que o investigador, professor universitário e escritor Ely Carneiro de Paiva revisita em 1897 – A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, obra que recupera os bastidores políticos e sociais de um país ainda a consolidar o seu regime republicano.
Um retrato da polarização política no Brasil de 1897
O livro mostra uma República atravessada por ameaças, confrontos políticos e uma crescente radicalização do discurso público. A instabilidade não se limitava aos corredores do poder: também chegava às ruas e às páginas dos jornais, contribuindo para criar um ambiente propício a rumores e versões fantasiosas dos acontecimentos.
A imprensa desempenhou, nesse contexto, um papel determinante. Como observa o autor na obra, recuperando uma ideia atribuída a Olavo Bilac, a própria imprensa poderá ter contribuído para a construção de uma realidade política frequentemente dominada pelo sensacionalismo.
Os jornais da capital publicavam textos, relatos e depoimentos de credibilidade duvidosa, misturando informação e opinião numa época em que as fronteiras entre notícia, editorial e crónica eram muito menos claras do que actualmente.
As chamadas blagues, expressão então utilizada para designar notícias fantasiosas, acabavam por integrar o noticiário quotidiano. A procura por maior audiência popular contribuía para alimentar uma espécie de ciclo de desinformação que, apesar de separado por mais de um século da realidade actual, apresenta algumas semelhanças inquietantes com o fenómeno contemporâneo das fake news.
O atentado contra Prudente de Morais
Entre os episódios centrais abordados na obra encontra-se a tentativa de assassinato de Prudente de Morais, terceiro presidente do Brasil e primeiro civil a ocupar a Presidência da República.
O atentado ocorreu num período de enorme tensão política e tornou ainda mais evidente a fragilidade das instituições republicanas. A sucessão de acontecimentos de 1897 permite compreender melhor os conflitos que marcaram os primeiros anos da República e as dificuldades enfrentadas pelo país na transição para uma nova ordem política.
Ao recuperar documentos, testemunhos e notícias da época, Ely Carneiro de Paiva procura reconstruir não apenas os acontecimentos, mas também o ambiente social e político em que estes ocorreram.
O Brasil de 1897 e os ecos do presente
Ao retratar o passado brasileiro, o autor chama igualmente a atenção para o carácter gradual e contraditório da construção do ideal republicano.
Segundo Ely Carneiro de Paiva, o Brasil do final do século XIX era muito diferente do actual. As mulheres não tinham os mesmos direitos, o racismo estava profundamente enraizado na sociedade e a consolidação democrática seria um processo longo, com avanços e recuos.
Na sua perspectiva, alguns fenómenos que marcaram os primeiros tempos republicanos — entre eles os discursos de ódio, a defesa do militarismo e as experiências ditatoriais — voltaram a ganhar visibilidade nas últimas décadas.
Esta leitura torna o livro particularmente relevante para quem procura compreender não apenas o Brasil de 1897, mas também algumas das raízes históricas da polarização política e da desinformação que continuam a marcar a sociedade brasileira.
Dez anos de investigação e mais de 600 referências
A investigação que deu origem à obra prolongou-se por cerca de uma década e reuniu mais de 600 referências documentais.
Entre as fontes utilizadas encontram-se documentos oficiais, actas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e conteúdos publicados por diferentes órgãos de comunicação da época, incluindo o Jornal da Manhã, o Jornal do Brasil e o Jornal do Comércio.
O resultado é uma reconstrução histórica sustentada por documentação diversificada, que procura aproximar o leitor dos acontecimentos políticos e sociais do final do século XIX.
O historiador e escritor Laurentino Gomes classifica a obra como um livro de narrativa fluida e de fácil compreensão, mesmo para leitores menos familiarizados com o tema.
Para além da política: o quotidiano do Rio de Janeiro
Embora a política seja um dos eixos fundamentais de 1897 – A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, o livro não se limita aos acontecimentos institucionais.
Dividida em 27 capítulos curtos, a obra apresenta também aspectos da vida social do Rio de Janeiro no final do século XIX, quando a cidade era a capital do Brasil.
Entre os episódios recuperados pelo autor estão a inauguração do Palácio do Catete, uma confraternização realizada no Itamaraty para celebrar as relações entre Brasil e Chile, num momento em que circulavam rumores sobre um possível golpe de Estado, e a visita de grupos indígenas à capital.
O livro aborda ainda um curioso episódio envolvendo relatos de um fantasma na rua das Laranjeiras. As histórias chegaram às páginas dos jornais e acabaram por ultrapassar o âmbito da imprensa, chegando inclusivamente ao Carnaval.
Um julgamento simbólico para o ano de 1897
O ambiente caótico que atravessa a obra ganha uma dimensão particularmente original no prólogo, única parte em que Ely Carneiro de Paiva recorre à ficção.
O autor imagina um tribunal popular realizado no Natal, na rua do Ouvidor, destinado a julgar o próprio ano de 1897 pelos acontecimentos que marcaram a história do país.
A sentença é simbólica: pena de morte para 1897.
O promotor apresenta o ano como um período marcado por mortes, conspirações, fanatismo e corrupção, sintetizando através da ficção a atmosfera de crise que o livro procura reconstruir a partir de documentos históricos.
Ao transformar 1897 em réu, o autor encontra uma forma original de conduzir o leitor para dentro de um período em que a jovem República brasileira parecia estar permanentemente ameaçada pela instabilidade.
Ficha técnica
Título: 1897
Subtítulo: A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais
Autor: Ely Carneiro de Paiva
Editora: Ayran
ISBN: 978-65-89177-20-3
Páginas: 291
Preço: 72 R$ (edição física)
Onde comprar: Editora Ayran
Sobre Ely Carneiro de Paiva
Ely Carneiro de Paiva é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e correspondente associado do Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso do Sul (IHGMS).
Como escritor, publicou O Homem do Cavalo Branco (2012), dedicado ao maior burlão do Brasil na República Velha, e Jean Serrou Camy – Um francês dos Pirenéus no coração do Brasil (2018), sobre um importante imigrante francês no interior do país durante o século XIX. 1897 – A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais é a sua terceira obra. Instagram: @elypaivacarneiro - Site: [separador]
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Mais do que revisitar um episódio específico da história do Brasil, o livro de Ely Carneiro de Paiva permite olhar para os primeiros anos da República através de temas que continuam surpreendentemente actuais: polarização política, desinformação, sensacionalismo, corrupção, radicalização dos discursos e instabilidade institucional. A distância de mais de um século não apaga essas semelhanças; pelo contrário, torna ainda mais interessante perceber como determinados mecanismos de conflito e manipulação da opinião pública já estavam presentes no final do século XIX. Uma obra que alia investigação documental e narrativa acessível para compreender melhor um período decisivo da história brasileira.
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Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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