Renováveis avançam em Portugal, mas gás e armazenamento continuam decisivos
A transição energética portuguesa acelera, mas a rede enfrenta novos desafios
Portugal está a avançar rapidamente na redução da dependência dos combustíveis fósseis, impulsionado pelo crescimento das energias renováveis. No entanto, a expansão da produção renovável está também a colocar maior pressão sobre a rede elétrica, levantando dúvidas sobre a capacidade do sistema para garantir estabilidade e segurança no futuro.
Apesar da esperada redução da utilização das centrais a gás, estas deverão continuar a desempenhar um papel essencial na garantia de potência firme, sobretudo em períodos de menor produção eólica e solar ou de menor disponibilidade hídrica, segundo a GlobalData, plataforma especializada em informação e análise de mercados.
De acordo com o mais recente relatório da GlobalData, Portugal Power Market Trends and Analysis by Capacity, Generation, Transmission, Distribution, Regulations, Key Players and Forecast to 2035, a procura de eletricidade em Portugal deverá aumentar de 53 TWh, em 2025, para cerca de 57,3 TWh em 2030.
Ao mesmo tempo, a capacidade renovável deverá continuar a crescer, com destaque para a energia solar fotovoltaica, a energia eólica e a hidroeletricidade.
Attaurrahman Ojindaram Saibasan, analista de energia da GlobalData, considera que Portugal está a apostar fortemente nas energias renováveis nas zonas com melhores condições solares e eólicas, mas alerta que esta evolução terá de ser acompanhada por investimentos significativos em armazenamento, interligações da rede e capacidade flexível e despachável.
Segundo o analista, sem esses investimentos, o crescimento da energia limpa poderá trazer alguns compromissos ao nível da fiabilidade do sistema elétrico.
Rede elétrica enfrenta novos constrangimentos
Entre os principais desafios identificados estão os atrasos nos processos de licenciamento e de acesso à rede, a incerteza das receitas para os projetos de armazenamento e serviços auxiliares e a exposição à volatilidade dos preços do gás importado.
Em paralelo, regiões como o Alentejo e o Algarve continuam a atrair investimentos em energia solar. Também os projetos híbridos que combinam energia eólica, solar e armazenamento estão a ganhar maior atenção.
A pressão sobre o sistema elétrico português tem aumentado à medida que a produção renovável cresce. Em meados de 2025, estavam na fila para ligação à rede de transporte projetos de produção com uma capacidade próxima dos 30 GVA. Outros 9 GVA já tinham obtido acesso à rede, mas ainda não estavam em funcionamento.
Os constrangimentos são particularmente visíveis em zonas com elevada produção solar, como o Algarve. Durante o verão, o aumento da procura associado ao turismo cria picos de consumo numa rede que não foi originalmente dimensionada para os atuais padrões de carga.
A situação é agravada pela morosidade e complexidade dos processos de licenciamento. Os acordos de ligação à rede podem ficar sujeitos a sucessivas etapas de aprovação, enquanto alguns promotores apresentam pedidos de acesso que funcionam, na prática, como reservas de capacidade, sem que os projetos avancem de imediato.
Projetos híbridos ganham espaço
Apesar destes obstáculos, Portugal está também a avançar com soluções técnicas híbridas e alterações regulamentares que poderão mudar significativamente a forma como a nova capacidade de produção é integrada na rede.
Um dos exemplos apontados pela GlobalData é o projeto Cavaleira, em Estremoz, que já se encontra em exploração comercial. A instalação combina produção solar com armazenamento em baterias e foi concebida para permitir a futura integração de energia eólica, partilhando uma única ligação à rede.
A aposta em sistemas híbridos poderá permitir uma utilização mais eficiente das infraestruturas existentes, reduzindo a necessidade de criar ligações independentes para cada tecnologia de produção.
Interligações reforçam a segurança energética
No plano europeu, o European Grids Package, adotado em dezembro de 2025, pretende reduzir os obstáculos aos processos de licenciamento, tornar mais transparentes os procedimentos de ligação à rede e aumentar as opções de flexibilidade do sistema, incluindo modelos mais adaptáveis de contratos por diferença.
Portugal conta também com o reforço das interligações com Espanha. Em julho de 2026 entrou em funcionamento uma nova interligação de 1 GW entre o norte de Portugal e a Galiza, aumentando a capacidade de transferência de eletricidade entre os dois países.
O reforço das ligações transfronteiriças contribui para a ambição portuguesa de atingir um nível de interligação elétrica de 15% até 2030, permitindo uma maior capacidade de troca de eletricidade e contribuindo para a integração de uma produção renovável cada vez mais variável.
Gás deverá continuar como reserva do sistema
Para a GlobalData, a modernização da rede deverá avançar em conjunto com a simplificação dos processos de ligação, a criação de mecanismos de remuneração de capacidade, o incentivo ao armazenamento e a modernização da hidroeletricidade e dos sistemas de bombagem.
A estratégia passa, assim, por aumentar a capacidade de armazenamento e a flexibilidade do sistema para absorver os períodos de excesso de produção renovável e responder rapidamente quando o vento, o sol ou a água deixam de assegurar a produção necessária.
Se estas medidas forem concretizadas, Portugal poderá produzir mais de 70% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis até 2035, segundo a projeção apresentada pela GlobalData.
Nesse cenário, as centrais a gás não desaparecerão necessariamente do sistema elétrico. A sua utilização deverá diminuir, mas poderão continuar a funcionar como uma espécie de rede de segurança durante períodos de maior pressão sobre o sistema, nomeadamente em situações de baixa produção renovável ou de necessidades excecionais de consumo.
A transição energética portuguesa poderá, assim, não significar simplesmente substituir o gás por renováveis. O verdadeiro desafio será construir uma rede suficientemente moderna, interligada, flexível e dotada de armazenamento para que as fontes renováveis possam assumir um papel dominante sem comprometer a segurança do abastecimento.
[separador]
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A transição energética está a alterar profundamente o sistema elétrico português. O crescimento da energia solar, eólica e hidroelétrica representa uma oportunidade para reduzir a utilização de combustíveis fósseis, mas coloca igualmente novos desafios à rede. Mais do que discutir apenas a substituição do gás pelas renováveis, importa acompanhar a evolução do armazenamento, das interligações e da capacidade de resposta do sistema. É nesse equilíbrio entre sustentabilidade e segurança energética que estará uma das principais questões do futuro da eletricidade em Portugal.
🔎 Quer explorar mais este tema?
Escreva uma palavra relacionada com o assunto e descubra outros artigos.
Renováveis avançam em Portugal, mas gás e armazenamento continuam decisivos
Rede elétrica enfrenta novos constrangimentos
Projetos híbridos ganham espaço
Interligações reforçam a segurança energética
Gás deverá continuar como reserva do sistema
Redatora Permanente do blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis