Ieda Mendes recebe Prémio Norman Borlaug 2026

Ieda Mendes, da Embrapa Cerrados, recebe o Prémio Norman Borlaug de Sustentabilidade 2026 pelo trabalho pioneiro em saúde do solo.
Ieda Mendes recebe o Prémio Norman Borlaug de Sustentabilidade 2026 durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio

Investigadora da Embrapa é distinguida pelo trabalho pioneiro em saúde do solo


A tecnologia BioAS transforma o conhecimento científico em ferramenta para o campo

A investigadora da Embrapa Cerrados Ieda Mendes foi distinguida, na segunda-feira (10), com o Prémio Norman Borlaug de Sustentabilidade 2026, atribuído pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). A homenagem ocorreu durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, em São Paulo (SP), numa cerimónia que contou com a participação do presidente da Abag, Ingo Plöger, e da presidente da Embrapa, Silvia Massruhá.

Reconhecimento à investigação sobre saúde do solo 


Ao receber o prémio, Ieda Mendes destacou a importância da distinção para dar maior visibilidade à investigação brasileira dedicada à saúde do solo, área que tem atraído uma nova geração de cientistas.

Para a investigadora, o reconhecimento representa também um importante estímulo à continuidade de estudos que procuram compreender o funcionamento dos solos e encontrar soluções para uma agricultura mais sustentável, produtiva e resiliente.

Com quatro décadas de actividade científica na Embrapa, Ieda Mendes recordou uma das principais realizações da sua carreira: o desenvolvimento da BioAS (Bioanálise de Solo), tecnologia lançada em 2020 depois de cerca de 20 anos de investigação.

A BioAS funciona, de forma simplificada, como uma espécie de “exame de sangue do solo”, permitindo avaliar a sua saúde através de indicadores biológicos associados à matéria orgânica. A análise ajuda a identificar se determinado solo se encontra saudável, em recuperação, em processo de degradação ou já afectado.

Solo saudável é sinónimo de maior resiliência 


A investigadora salientou que a qualidade biológica do solo está directamente relacionada com a produtividade e com a capacidade dos sistemas agrícolas enfrentarem situações de stress climático.

Um solo saudável consegue armazenar mais água, contribuir para o sequestro de carbono e apresentar maior resiliência perante condições adversas. Neste contexto, a saúde do solo assume uma importância crescente perante os desafios das alterações climáticas e da agricultura sustentável.

Ieda Mendes defendeu ainda a importância da investigação científica pública e do apoio das instituições de fomento para desenvolver projectos de longo prazo, sobretudo numa agricultura cada vez mais orientada para a compreensão dos processos naturais e menos dependente de soluções baseadas exclusivamente em produtos.

Rede de laboratórios e mais de 71 mil amostras 


A investigação associada à BioAS deu origem a uma rede de cerca de 30 laboratórios comerciais ligados à Embrapa, permitindo realizar análises de saúde do solo em diferentes regiões brasileiras.

Esta estrutura contribuiu para a criação de uma base de dados com mais de 71 mil amostras de solos, considerada por Ieda Mendes uma importante fonte de inteligência territorial sobre as condições dos solos brasileiros.

A informação acumulada poderá ajudar a compreender melhor a distribuição e a evolução da saúde dos solos, contribuindo para decisões mais fundamentadas na actividade agrícola e para o desenvolvimento de políticas públicas.

Uma homenagem partilhada com toda a equipa 


Ieda Mendes fez questão de sublinhar o carácter colectivo da ciência e partilhou a distinção com os colegas que participaram na construção deste trabalho, entre os quais Guilherme Chaer, Fábio Bueno, Dario Dantas, Juaci Malaquias e Djalma Martinhão Sousa, já falecido.

A investigadora estendeu ainda o reconhecimento aos analistas, assistentes de investigação, estudantes e bolseiros que contribuíram para o desenvolvimento das pesquisas, além de agradecer à Embrapa e à família pelo apoio ao longo de décadas de actividade científica.

Embrapa destaca impacto da investigação 


A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, considerou que a distinção de Ieda Mendes representa também um reconhecimento da ciência brasileira e da sua capacidade para criar soluções concretas para os desafios da agropecuária.

Segundo Massruhá, o trabalho da investigadora ajudou a colocar a dimensão biológica do solo no centro do debate sobre sustentabilidade, demonstrando que um solo saudável não significa apenas maior produtividade, mas também melhor equilíbrio ambiental, utilização mais eficiente dos recursos naturais e maior segurança para produtores e sociedade.

A presidente da Embrapa destacou igualmente o potencial da BioAS para apoiar políticas públicas relacionadas com a agricultura de baixo carbono, o crédito e o seguro rural, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e a recuperação de áreas degradadas.

Uma carreira dedicada à ciência do solo 


Ieda de Carvalho Mendes é engenheira-agrónoma, doutorada em Ciência do Solo e investigadora da Embrapa. Nascida em Brasília e neta de lavradores, foi a primeira pessoa da família a concluir o ensino superior.

Licenciou-se em Agronomia pela Universidade de Brasília (UnB), em 1987, e ingressou na Embrapa em 1989. Desde então, tem dedicado a sua carreira ao estudo da microbiologia, actividade biológica e saúde dos solos, com particular atenção à agricultura tropical.

Ao longo do percurso profissional, destacou-se pela investigação em ecologia microbiana e fixação biológica de azoto, áreas que contribuíram posteriormente para o desenvolvimento da BioAS.

A tecnologia tornou-se uma importante ferramenta para aproximar a investigação científica da realidade dos produtores rurais e reforçar a percepção de que a actividade biológica dos solos é fundamental para a produtividade agrícola, sustentabilidade, segurança alimentar e adaptação às alterações climáticas.

O legado de Norman Borlaug


O prémio atribuído a Ieda Mendes inspira-se no legado do engenheiro-agrónomo e geneticista norte-americano Norman Borlaug, uma das figuras mais importantes da chamada Revolução Verde.

Borlaug desenvolveu no México variedades de trigo de elevado rendimento e resistentes a doenças que, associadas a novas práticas agrícolas, contribuíram para aumentar significativamente a produção de alimentos e a segurança alimentar em vários países.

Pelo seu contributo para o combate à fome, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1970.

É neste legado de ciência, inovação e compromisso com a produção sustentável de alimentos que se enquadra o Prémio Norman Borlaug de Sustentabilidade, destinado a reconhecer profissionais do agronegócio que contribuem para uma agricultura mais sustentável e preparada para os desafios do futuro.

Saúde do solo como aposta para o futuro 


A distinção de Ieda Mendes coloca novamente em evidência um tema que ganha importância à medida que a agricultura enfrenta desafios relacionados com as alterações climáticas, a conservação dos recursos naturais e a necessidade de produzir alimentos de forma sustentável.

A investigação sobre a saúde do solo demonstra, assim, que a sustentabilidade agrícola começa muito antes da colheita: começa no próprio solo e na compreensão dos processos que permitem mantê-lo vivo, produtivo e resiliente.

Para conhecer o trabalho desenvolvido pela Embrapa, é possível consultar a Plataforma Saúde do Solo e acompanhar o registo integral da cerimónia e do Congresso Brasileiro do Agronegócio através dos canais oficiais.

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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
O reconhecimento de Ieda Mendes é, acima de tudo, um reconhecimento da ciência que trabalha longe dos holofotes, mas que pode produzir efeitos muito concretos na vida de todos. Falar de saúde do solo é falar de agricultura, alimentação, água, clima e futuro. E quando uma investigação desenvolvida ao longo de décadas consegue transformar conhecimento científico numa ferramenta útil para quem trabalha a terra, há razões para destacar o seu valor. O Prémio Norman Borlaug de Sustentabilidade 2026 distingue uma investigadora, mas também chama a atenção para a importância de investir numa ciência pública, persistente e capaz de transformar conhecimento em soluções.
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