Publicada por
Armindo Guimarães
Uma ronda improvável que transformou uma noite portuense num filme policial à moda antiga
Quando a imaginação é maior do que o medo, até a Rua Chã ganha outra luz
"Há contos que não são história — são memória viva."
Vímara Porto
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Estávamos em 1975 e o Porto parecia maior do que era — ou talvez fôssemos nós que ainda não tínhamos medida para ela. O orvalho anunciava a proximidade das festas em honra de São João, o santo popular que os portuenses festejam de 23 para 24 de Junho.
Tínhamos entre dezoito e vinte anos. Idade suficiente para ter juízo. O problema é que o juízo ainda andava a caminho.
Naquela noite, como era habitual, encontrávamo-nos no Café Nun’Álvares, na Rua Guedes de Azevedo, à espera dos habituais amigos de fim de semana: o Jorge, o Luís, o Toninho, o Marcos, o Segismundo (Baretta) e o Aristides. O tempo foi passando e, além de mim, só estavam o Aristides e o Baretta. Um a um, fomos percebendo que ninguém iria aparecer.
Talvez por causa do tempo. Talvez por causa de outras vidas que já começavam a acontecer noutro lado.
Foi então que o Baretta se inclinou ligeiramente sobre a mesa e anunciou a missão.
— Vamos fazer uma ronda.
Eu e o Aristides olhámos para ele.
— Ronda?
— Missão especial — respondeu com toda a naturalidade. — Há movimentações estranhas nos cafés da Rua Chã.
O Aristides, que trabalhava na ourivesaria do pai, tinha licença de porte de arma que andava sempre com ele para o que desse e viesse, quer a licença, quer a arma. Levou a mão direita à cinta para se certificar que a trazia e disse:
— Estou preparado!
Quanto a mim, mais voltado para os ETs e discos voadores do que para a temática policial, confesso que pensei para os meus botões: "Metem-me em cada uma do carago! Eu sei que isto é uma péssima ideia... mas vamos lá ver no que dá." Afinal, não havia mais planos para aquela noite.
— Estou a postos — disse eu.
Saímos para a rua, mas ainda ficámos à porta do café na esperança de que aparecessem mais reforços para a missão.
Cada um com a sua gabardina: o Aristides de castanho, eu de cinzento e o Baretta de branco, como o detetive da série que ele tanto admirava.
Antes de avançarmos, houve um gesto quase ritual. Sem combinar, levantámos todos a gola da gabardina, apertámos o cinto e enfiámos as mãos nos bolsos.
Não por frio. Mas porque, naquela lógica muito própria da nossa idade, aquilo dava um ar mais sério à missão. Mais misterioso. Mais... policial.
O Baretta levava a preparação operacional mais longe do que qualquer um de nós.
Além de ser o único dos três que, além da gabardina, usava óculos escuros e chapéu a condizer — mesmo à noite —, tinha comprado na Feira de Custóias um coldre em segunda mão. Só que, em vez de o prender ao cinto normal, usava um "cinto próprio": um grosso fio elétrico enrolado à cintura, escondido por baixo do casaco ou da gabardina, como se fosse equipamento táctico de última geração.
A arma de serviço era ainda melhor: uma pistola de fulminantes, daquelas que faziam mais barulho do que perigo, mas que ele empunhava com a convicção absoluta de quem acredita estar armado até aos dentes.
E havia o crachá. Um crachá de papelão, recortado à mão, com um brasão imaginário e letras desenhadas a esferográfica, que ele mostrava sempre que a missão — segundo ele — o exigia. Erguia-o com solenidade, como se fosse credencial oficial da Polícia Judiciária.
O Aristides, que levava uma arma verdadeira, olhava para o equipamento do Baretta com uma mistura de preocupação e resignação — como quem sabe que o perigo não estava na rua, mas ao nosso lado. Pela minha parte, pensava para os meus botões que, mais do que estar entre a espada e a parede, estava entre dois barris de pólvora — um com uma arma verdadeira e outro com uma arma de fulminantes. Já o Baretta, a avaliar pela solenidade da missão, parecia convencido de que era o chefe da brigada, talvez até receoso de que os seus subordinados não desempenhassem eficazmente, como se exigia, as funções para as quais — na cabeça dele — tinham sido nomeados.
Mas o detalhe verdadeiramente engenhoso estava na segurança.
Na parte inferior da coronha tinha uma argola. A ela estava presa uma corda de cerca de sessenta centímetros, cuja outra extremidade estava fixa ao coldre.
Assim, segundo o próprio, a arma nunca poderia ser perdida em serviço.
Era um sistema simples, eficaz e totalmente à prova de perseguições. Na cabeça dele, claro.
Quando lhe elogiei a figura de autêntico agente da PJ, foi das raras vezes que vi no Baretta um rasgado sorriso de emotiva felicidade.
Pensei que ia estragar tudo quando lhe disse que só faltava o cartão de identificação como inspector, quando ele leva a mão ao bolso interno da gabardina e da carteira retira um cartão cuidadosamente dactilografado por ele próprio: POLÍCIA JUDICIÁRIA, no topo e, entre os dois nomes, o brasão da República. No canto direito a sua fotografia tipo passe e, em letras solenes, o título: Inspector Chefe de 1.ª Classe e, por baixo, a fechar, uma assinatura ilegível do Director do Departamento.
Olhei para aquilo e comentei, em tom de brincadeira:
— Falta aí o selo branco.
Ele não hesitou.
— Tem selo branco.
— Tem?
— Claro que tem.
— Então onde está?
Ele olhou para mim com uma calma absoluta.
— Não se vê.
— Não se vê porquê?
— Porque é branco como o cartão.
Fiquei a olhar para ele. E percebi que, para ele, aquilo não era uma desculpa. Era uma explicação.
Caso encerrado.
Para o Aristides, que já tinha visto o cartão antes da saída para uma ronda que os dois tinham efectuado há dias no Café Portuense, da Rua do Bonjardim, aquilo não era novidade.
Impaciente, o Baretta, mesmo não tendo relógio, fez automaticamente o gesto com a mão sobre o pulso da mão esquerda e exclamou:
— São quase 11 horas. Vamos ao trabalho.
Quando nos estávamos a preparar para abandonar a porta do café, o Aristides fez algo que me deixou logo antever o filme: com as suas mãos barrou-nos a passagem, enquanto olhou discretamente pela porta do café, como quem confirma se a rua está limpa. Não era hábito dele. Ou talvez fosse — e eu nunca tinha reparado. Ou, então, era o seu espírito de missão a vir ao de cima. Quando nos deixou passar, o Baretta felicitou-o. Não se partia para uma missão como aquela, assim, sem mais nem menos.
Olhei para o rosto do Baretta e a seguir para o do Aristides, e impressionou-me tanto a seriedade deles que deitou automaticamente por terra alguma réstea de riso que me pudesse sair inadvertidamente por tão caricata situação.
Descemos a baixa do Porto com o passo de quem não tinha destino, mas tinha missão.
Ou pelo menos dois de nós tinham essa convicção.
O Baretta seguia à frente, como se conhecesse o mapa completo de uma operação que ninguém mais tinha visto. O Aristides mantinha-se ligeiramente atrás, desconfiando da própria sombra projetada pela luz fraca dos candeeiros da rua, atento a tudo o que mexia e a quem passava, como se qualquer pessoa pudesse ser um suspeito. Eu ia no meio, a tentar não comprometer a seriedade da formação, pese embora a vontade que tinha de me rir daquilo tudo.
A Rua Chã apareceu húmida, estreita e mal iluminada, como sempre.
O primeiro objetivo foi o Café Derby.
Entrámos.
Não houve anúncio, não houve hesitação. Apenas presença.
E a presença, naquele caso, parecia já ser suficiente para alterar o ambiente.
As conversas perderam volume. Alguns olhares fixaram-se em nós mais tempo do que o habitual. Outros clientes levantaram-se sem explicação clara e saíram.
Não aconteceu nada explícito. Mas aconteceu tudo.
O Baretta dividiu-se pelo espaço como se estivesse a fazer reconhecimento. O Aristides observava a sala como quem espera que alguém confirme uma suspeita, decidindo inspecionar o lado direito, onde se concentrava mais clientes à volta de umas quantas garinas. Eu sentei-me no balcão.
— Um fino, se faz favor.
Havia qualquer coisa difícil de explicar naquele silêncio progressivo da sala.
O tipo de silêncio que não é natural num café cheio.
Pouco depois, o Baretta aproximou-se.
Baixou a voz, embora não o suficiente para não ser ouvido a metros de distância.
— Não estão aqui. Vamos ao Royal, rapidamente.
Ao ouvir as ordens do Baretta, estive quase a estragar tudo, pois deu-me uma vontade enorme de desatar a rir e perguntar: "Quem é que não está aqui, carago?!" Mas contive-me, pois a missão era séria e para levar até ao fim.
Quando me levantei para pagar, perguntei:
— Quanto é?
O empregado olhou para mim por um segundo que pareceu mais longo do que devia.
— Já está pago.
Fiquei parado. Não questionei. Naquela noite, a lógica não parecia um critério obrigatório.
Saímos.
Cá fora, comentei, ainda a tentar encaixar a situação num raciocínio aceitável:
— O empregado nem quis que eu pagasse o fino... deve ter ficado tão contente por nos ver sair que tratou logo de despachar aquilo para não espantarmos mais ninguém.
Não terminei a frase.
Atrás de mim, ouvi a voz do Aristides, firme, sem hesitação:
— Ó MORCOM! FUI EU QUE PAGUEI O FINO, CARAGO!
Silêncio.
O comentário anterior perdeu validade imediata e desta vez, confesso, não tive vontade nenhuma de rir.
Seguimos.
O Royal ficava do outro lado da rua, na esquina, a poucos metros.
Se no Derby tinha sido uma entrada discreta que não resultou em discrição nenhuma, no Royal foi o contrário: a entrada foi suficiente para eliminar qualquer dúvida sobre a nossa presença.
A reação foi quase imediata. Cadeiras a arrastar. Movimento acelerado. Clientes a sair com pressa que ninguém se deu ao trabalho de explicar.
Não houve confronto. Não houve perguntas.
Mas houve uma conclusão geral e silenciosa: aquela não era uma noite normal.
Ficámos pouco tempo. Longo o suficiente para perceber o efeito que estávamos a provocar.
Curto o suficiente para não perceber o motivo, mas para concluirmos que aquilo podia descambar e exigir a presença dos nossos verdadeiros colegas da PJ.
Saímos.
A rua voltou a ser chuva miudinha, pedra antiga e luz fraca.
Ficámos parados um instante, como quem espera instruções que não vão chegar.
E depois continuámos a andar. Sem missão oficial. Sem confirmação de resultados. Mas com a estranha sensação de que algo tinha acontecido — mesmo sem sabermos bem o quê.
Nunca mais fomos chamados para nova missão, apesar de continuar a haver o encontro no Nun’Álvares até 1978.
A vida fez o que costuma fazer com este tipo de histórias: separou pessoas, mudou rotinas, apagou encontros.
Mas algumas imagens não desaparecem.
A gabardina branca na noite húmida. A pistola de fulminantes presa por um cordel. O crachá identificador da PJ. O cartão de Inspector de 1.ª Classe com selo branco invisível.
O olhar sempre atento do Aristides, desconfiando até da própria sombra.
E eu, em plena noite portuense, participando num filme com o famoso Baretta da série policial, acompanhado do atento Aristides.
Talvez tenha sido apenas uma noite.
Ou talvez tenha sido uma operação que nunca chegou a ser oficialmente desmentida.
Em conclusão:
A juventude tem uma característica curiosa: convence-nos de que somos muito mais inteligentes do que realmente somos. Naquela noite, os três tínhamos a certeza absoluta de que estávamos preparados para qualquer eventualidade. A prova de que não estávamos era o facto de um de nós transportar uma arma verdadeira, outro uma pistola de fulminantes e o terceiro acreditar em ETs e discos voadores.
Tínhamos entre dezoito e vinte anos. Idade suficiente para ter juízo. O problema é que o juízo ainda andava a caminho.
Naquela noite, como era habitual, encontrávamo-nos no Café Nun’Álvares, na Rua Guedes de Azevedo, à espera dos habituais amigos de fim de semana: o Jorge, o Luís, o Toninho, o Marcos, o Segismundo (Baretta) e o Aristides. O tempo foi passando e, além de mim, só estavam o Aristides e o Baretta. Um a um, fomos percebendo que ninguém iria aparecer.
Talvez por causa do tempo. Talvez por causa de outras vidas que já começavam a acontecer noutro lado.
Foi então que o Baretta se inclinou ligeiramente sobre a mesa e anunciou a missão.
— Vamos fazer uma ronda.
Eu e o Aristides olhámos para ele.
— Ronda?
— Missão especial — respondeu com toda a naturalidade. — Há movimentações estranhas nos cafés da Rua Chã.
O Aristides, que trabalhava na ourivesaria do pai, tinha licença de porte de arma que andava sempre com ele para o que desse e viesse, quer a licença, quer a arma. Levou a mão direita à cinta para se certificar que a trazia e disse:
— Estou preparado!
Quanto a mim, mais voltado para os ETs e discos voadores do que para a temática policial, confesso que pensei para os meus botões: "Metem-me em cada uma do carago! Eu sei que isto é uma péssima ideia... mas vamos lá ver no que dá." Afinal, não havia mais planos para aquela noite.
— Estou a postos — disse eu.
Saímos para a rua, mas ainda ficámos à porta do café na esperança de que aparecessem mais reforços para a missão.
Cada um com a sua gabardina: o Aristides de castanho, eu de cinzento e o Baretta de branco, como o detetive da série que ele tanto admirava.
Antes de avançarmos, houve um gesto quase ritual. Sem combinar, levantámos todos a gola da gabardina, apertámos o cinto e enfiámos as mãos nos bolsos.
Não por frio. Mas porque, naquela lógica muito própria da nossa idade, aquilo dava um ar mais sério à missão. Mais misterioso. Mais... policial.
O Baretta levava a preparação operacional mais longe do que qualquer um de nós.
Além de ser o único dos três que, além da gabardina, usava óculos escuros e chapéu a condizer — mesmo à noite —, tinha comprado na Feira de Custóias um coldre em segunda mão. Só que, em vez de o prender ao cinto normal, usava um "cinto próprio": um grosso fio elétrico enrolado à cintura, escondido por baixo do casaco ou da gabardina, como se fosse equipamento táctico de última geração.
A arma de serviço era ainda melhor: uma pistola de fulminantes, daquelas que faziam mais barulho do que perigo, mas que ele empunhava com a convicção absoluta de quem acredita estar armado até aos dentes.
E havia o crachá. Um crachá de papelão, recortado à mão, com um brasão imaginário e letras desenhadas a esferográfica, que ele mostrava sempre que a missão — segundo ele — o exigia. Erguia-o com solenidade, como se fosse credencial oficial da Polícia Judiciária.
O Aristides, que levava uma arma verdadeira, olhava para o equipamento do Baretta com uma mistura de preocupação e resignação — como quem sabe que o perigo não estava na rua, mas ao nosso lado. Pela minha parte, pensava para os meus botões que, mais do que estar entre a espada e a parede, estava entre dois barris de pólvora — um com uma arma verdadeira e outro com uma arma de fulminantes. Já o Baretta, a avaliar pela solenidade da missão, parecia convencido de que era o chefe da brigada, talvez até receoso de que os seus subordinados não desempenhassem eficazmente, como se exigia, as funções para as quais — na cabeça dele — tinham sido nomeados.
Mas o detalhe verdadeiramente engenhoso estava na segurança.
Na parte inferior da coronha tinha uma argola. A ela estava presa uma corda de cerca de sessenta centímetros, cuja outra extremidade estava fixa ao coldre.
Assim, segundo o próprio, a arma nunca poderia ser perdida em serviço.
Era um sistema simples, eficaz e totalmente à prova de perseguições. Na cabeça dele, claro.
Quando lhe elogiei a figura de autêntico agente da PJ, foi das raras vezes que vi no Baretta um rasgado sorriso de emotiva felicidade.
Pensei que ia estragar tudo quando lhe disse que só faltava o cartão de identificação como inspector, quando ele leva a mão ao bolso interno da gabardina e da carteira retira um cartão cuidadosamente dactilografado por ele próprio: POLÍCIA JUDICIÁRIA, no topo e, entre os dois nomes, o brasão da República. No canto direito a sua fotografia tipo passe e, em letras solenes, o título: Inspector Chefe de 1.ª Classe e, por baixo, a fechar, uma assinatura ilegível do Director do Departamento.
Olhei para aquilo e comentei, em tom de brincadeira:
— Falta aí o selo branco.
Ele não hesitou.
— Tem selo branco.
— Tem?
— Claro que tem.
— Então onde está?
Ele olhou para mim com uma calma absoluta.
— Não se vê.
— Não se vê porquê?
— Porque é branco como o cartão.
Fiquei a olhar para ele. E percebi que, para ele, aquilo não era uma desculpa. Era uma explicação.
Caso encerrado.
Para o Aristides, que já tinha visto o cartão antes da saída para uma ronda que os dois tinham efectuado há dias no Café Portuense, da Rua do Bonjardim, aquilo não era novidade.
Impaciente, o Baretta, mesmo não tendo relógio, fez automaticamente o gesto com a mão sobre o pulso da mão esquerda e exclamou:
— São quase 11 horas. Vamos ao trabalho.
Quando nos estávamos a preparar para abandonar a porta do café, o Aristides fez algo que me deixou logo antever o filme: com as suas mãos barrou-nos a passagem, enquanto olhou discretamente pela porta do café, como quem confirma se a rua está limpa. Não era hábito dele. Ou talvez fosse — e eu nunca tinha reparado. Ou, então, era o seu espírito de missão a vir ao de cima. Quando nos deixou passar, o Baretta felicitou-o. Não se partia para uma missão como aquela, assim, sem mais nem menos.
Olhei para o rosto do Baretta e a seguir para o do Aristides, e impressionou-me tanto a seriedade deles que deitou automaticamente por terra alguma réstea de riso que me pudesse sair inadvertidamente por tão caricata situação.
Descemos a baixa do Porto com o passo de quem não tinha destino, mas tinha missão.
Ou pelo menos dois de nós tinham essa convicção.
O Baretta seguia à frente, como se conhecesse o mapa completo de uma operação que ninguém mais tinha visto. O Aristides mantinha-se ligeiramente atrás, desconfiando da própria sombra projetada pela luz fraca dos candeeiros da rua, atento a tudo o que mexia e a quem passava, como se qualquer pessoa pudesse ser um suspeito. Eu ia no meio, a tentar não comprometer a seriedade da formação, pese embora a vontade que tinha de me rir daquilo tudo.
A Rua Chã apareceu húmida, estreita e mal iluminada, como sempre.
O primeiro objetivo foi o Café Derby.
Entrámos.
Não houve anúncio, não houve hesitação. Apenas presença.
E a presença, naquele caso, parecia já ser suficiente para alterar o ambiente.
As conversas perderam volume. Alguns olhares fixaram-se em nós mais tempo do que o habitual. Outros clientes levantaram-se sem explicação clara e saíram.
Não aconteceu nada explícito. Mas aconteceu tudo.
O Baretta dividiu-se pelo espaço como se estivesse a fazer reconhecimento. O Aristides observava a sala como quem espera que alguém confirme uma suspeita, decidindo inspecionar o lado direito, onde se concentrava mais clientes à volta de umas quantas garinas. Eu sentei-me no balcão.
— Um fino, se faz favor.
Havia qualquer coisa difícil de explicar naquele silêncio progressivo da sala.
O tipo de silêncio que não é natural num café cheio.
Pouco depois, o Baretta aproximou-se.
Baixou a voz, embora não o suficiente para não ser ouvido a metros de distância.
— Não estão aqui. Vamos ao Royal, rapidamente.
Ao ouvir as ordens do Baretta, estive quase a estragar tudo, pois deu-me uma vontade enorme de desatar a rir e perguntar: "Quem é que não está aqui, carago?!" Mas contive-me, pois a missão era séria e para levar até ao fim.
Quando me levantei para pagar, perguntei:
— Quanto é?
O empregado olhou para mim por um segundo que pareceu mais longo do que devia.
— Já está pago.
Fiquei parado. Não questionei. Naquela noite, a lógica não parecia um critério obrigatório.
Saímos.
Cá fora, comentei, ainda a tentar encaixar a situação num raciocínio aceitável:
— O empregado nem quis que eu pagasse o fino... deve ter ficado tão contente por nos ver sair que tratou logo de despachar aquilo para não espantarmos mais ninguém.
Não terminei a frase.
Atrás de mim, ouvi a voz do Aristides, firme, sem hesitação:
— Ó MORCOM! FUI EU QUE PAGUEI O FINO, CARAGO!
Silêncio.
O comentário anterior perdeu validade imediata e desta vez, confesso, não tive vontade nenhuma de rir.
Seguimos.
O Royal ficava do outro lado da rua, na esquina, a poucos metros.
Se no Derby tinha sido uma entrada discreta que não resultou em discrição nenhuma, no Royal foi o contrário: a entrada foi suficiente para eliminar qualquer dúvida sobre a nossa presença.
A reação foi quase imediata. Cadeiras a arrastar. Movimento acelerado. Clientes a sair com pressa que ninguém se deu ao trabalho de explicar.
Não houve confronto. Não houve perguntas.
Mas houve uma conclusão geral e silenciosa: aquela não era uma noite normal.
Ficámos pouco tempo. Longo o suficiente para perceber o efeito que estávamos a provocar.
Curto o suficiente para não perceber o motivo, mas para concluirmos que aquilo podia descambar e exigir a presença dos nossos verdadeiros colegas da PJ.
Saímos.
A rua voltou a ser chuva miudinha, pedra antiga e luz fraca.
Ficámos parados um instante, como quem espera instruções que não vão chegar.
E depois continuámos a andar. Sem missão oficial. Sem confirmação de resultados. Mas com a estranha sensação de que algo tinha acontecido — mesmo sem sabermos bem o quê.
Nunca mais fomos chamados para nova missão, apesar de continuar a haver o encontro no Nun’Álvares até 1978.
"Cada história verdadeira é uma peça indispensável da memória coletiva."
— Isolino Prata
A vida fez o que costuma fazer com este tipo de histórias: separou pessoas, mudou rotinas, apagou encontros.
Mas algumas imagens não desaparecem.
A gabardina branca na noite húmida. A pistola de fulminantes presa por um cordel. O crachá identificador da PJ. O cartão de Inspector de 1.ª Classe com selo branco invisível.
O olhar sempre atento do Aristides, desconfiando até da própria sombra.
E eu, em plena noite portuense, participando num filme com o famoso Baretta da série policial, acompanhado do atento Aristides.
Talvez tenha sido apenas uma noite.
Ou talvez tenha sido uma operação que nunca chegou a ser oficialmente desmentida.
Em conclusão:
A juventude tem uma característica curiosa: convence-nos de que somos muito mais inteligentes do que realmente somos. Naquela noite, os três tínhamos a certeza absoluta de que estávamos preparados para qualquer eventualidade. A prova de que não estávamos era o facto de um de nós transportar uma arma verdadeira, outro uma pistola de fulminantes e o terceiro acreditar em ETs e discos voadores.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Num Porto ainda marcado pela inquietação dos anos 70, três jovens transformam uma simples noite de Junho numa operação digna de série policial. Entre gabardinas erguidas, silêncios suspeitos e passos que talvez existissem — ou talvez não —, esta história recupera o espírito ingénuo, audaz e deliciosamente cinematográfico de uma geração que acreditava que tudo podia acontecer. E, às vezes, acontecia mesmo.
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Armindo Guimarães
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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Eheheheheheheh, menino Armindo, só imagino o que sentiste ao reviver esses fatos, detalhando tão bem cada momento dessa aventura e descrevendo detalhadamente a vestimenta de casa um, eheheheheheh...
ResponderEliminarVocês eram muito corajosos, eheheheheheh... Beijinhos 😘❤
Olá, menina Albinha, obrigadopelo comentário. De facto, assim foi, Não foi fácil escrever o conto, pois à medida que ia escrevendo do queme lembrava faltava-me de rir só de reviver cada cena e ao mesmo tempo a ver os rostos muito sérios do Baretta e do Aristides, como fosse tudo normal, ou como se estivessem a participar de um filme. O seu comentário também me fez rir, quando diz "Vocês eram muito corajosos". Na verdade, modéstia à parte, o único corajoso da história fui eu, pois enquanto os meus amigos deviam ter um parafuso a menos na cabeça, eu, apesar da mania dos discos voadores e dos ETs, só me deixei ir na missão porque não havia mais para fazer naquela noite e porque queria ver no que dava, mas depois, sabe Deus como me custou não desatar a rir nesta ou naquela parte de suspense. 😊 Beijinho. 👍
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