Um viajante de 1973 perde-se num café moderno e provoca um hilariante choque de épocas
Um cimbalino, uma mirita e um cigarro bastam para incendiar um café inteiro — sem fósforos
"Quando o passado entra pela porta,
o presente perde o equilíbrio e a graça faz o resto." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
INTRODUÇÃO
Por vezes perguntam‑me como surgem os temas que publico. A resposta é quase sempre a mesma: nascem daquilo que ouço, daquilo que leio e, muitas vezes, daquilo que anoto para tratar mais tarde — desde que sinta ter conhecimentos suficientes para o fazer, e mesmo assim pesquisando sempre o mais possível sobre a matéria.
Tem sido assim na maior parte dos textos que escrevo. O mais recente, "A voz da minha mãe morava em Penafiel", partiu precisamente do modo de falar, das pronúncias e até de certas línguas vivas que, apesar de remetidas para segundo plano, teimam em resistir — como a língua galega, que tal como a portuguesa, deriva da mesma raiz medieval: o galego‑português.
O presente texto nasceu, porém, de dois episódios muito concretos:
1 — A minha amiga Natália Pires publicou no Facebook a fotografia de uma jovem vestida com roupas de corte antigo — casaco de tecido grosso, colete abotoado e uma blusa com grande laço ao pescoço, provavelmente da época vitoriana. Acompanhava a imagem uma reflexão sobre identidade e autenticidade: "Saberemos nós quem realmente somos por detrás dos ‘casacos’ da nossa personalidade e papéis sociais?" Em resposta, o amigo Leonel Dias escreveu um pequeno grande texto que vale a pena espreitar através deste link.
2 — No mesmo dia, o meu amigo João Carlos Brito — escritor — "Porto, palavras com História" publicou um post sobre as miritas: finas fatias de pão torrado com manteiga, servidas nos cafés do Porto nos anos 70. Coisas simples, normais na época, mas que o tempo vai empurrando para o esquecimento — tal como o termo "cimbalino", que nasceu da marca das primeiras máquinas de café expresso que rivalizaram com o tradicional café de saco. Durante anos, pedia‑se "um cimbalino" para distinguir; depois, o café de saco desapareceu e, sem decreto nem aviso, todos voltaram a pedir apenas "um café".
Foi então que me ocorreu que, qualquer dia, ainda me apresentaria num café vestido como nos anos 70: cabelo pelos ombros, camisa branca de grandes colarinhos, gravata larga às florzinhas, cinto preto de couro e calças azuis à boca de sino quase a tapar os sapatos à Beatles.
Em vez disso, decidi escrever esta crónica — que espero seja do agrado dos estimados leitores.
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Quando dei por mim, estava outra vez em 1973. Ou melhor: estava em 2026, mas vestido como em 1973 — o que, para todos os efeitos, dá no mesmo. O cabelo pelos ombros, a gravata florida tão larga que podia servir de toalha de mesa, as calças à boca de sino, as meias brancas a brilhar como faróis e os sapatos à Beatle impecavelmente engraxados.
Atravessei a rua com a naturalidade de quem vai só "ali acima" e entrei num café moderno, cheio de luzes, máquinas estranhas e gente agarrada a pequenos rectângulos luminosos que pareciam máquinas fotográficas sem botão.
Sentei‑me. Tirei os meus Paco Rabanne e pousei‑os em cima da mesa, ao lado do maço Português Suave e do isqueiro Ronson. Ajeitei a gravata. Cruzei a perna com orgulho — meia branca bem à vista, como mandava a moda. O empregado aproximou‑se com ar de quem tinha acabado de ver um fantasma.
— Boa tarde. O que deseja?
— Boa tarde. Um cimbalino e uma mirita, se faz favor.
O café inteiro congelou.
O empregado piscou os olhos duas vezes, como quem tenta decifrar uma língua morta.
— Um… um quê, e uma quê?
— Um cimbalino, amigo! Um café! E uma mirita. Já vi que é novo na arte, mas não tem problema. Eu explico: uma mirita é um pão torrado cortado às fatias finas, barradas com manteiga.
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que até o ar‑condicionado pareceu parar.
O empregado afastou‑se devagar, como quem vai pedir reforços.
Enquanto esperava, peguei no maço de tabaco e saquei um Português Suave. Meti-o ao canto da boca e peguei no Ronson, que me tinha custado os olhos da cara. Carreguei no gatilho.
Clic. Nada. Clic. Nada. Clic. Tchac!
A chama ergueu‑se gloriosa — como sempre à terceira tentativa — em vez de logo à primeira, como tinha fama. Às vezes até dava jeito: chamava a atenção do chavalame que estava na mesa em frente, a cochichar, por certo atraído pelo meu estilo James Dean dos anos 70.
Entretanto, qual não é o meu espanto ao ver que não era só o catraiame a observar‑me, mas o café inteiro, horrorizado, como se eu tivesse acendido um foguete de São João no meio da sala.
— Ó amigo, não pode fumar aqui! — gritou alguém.
— Não posso? Desde quando, carago?! — respondi, muito naturalmente, enquanto dava a primeira passa.
O empregado voltou com o café e a mirita, ainda em choque.
Pousei o cigarro no cinzeiro — que, curiosamente, já não existia — e preparei‑me para pagar.
Meti a mão ao bolso das calças à boca de sino e tirei:
duas notas de 20 escudos, as famosas Santo António,
uns trocos que tilintaram como se eu estivesse a pagar o eléctrico da Rua de Santa Catarina para a Foz,
duas chicletes Pirata com sabor a framboesa,
e um bilhete antigo do eléctrico, já meio amarelecido.
O empregado olhou para aquilo tudo como se eu tivesse pousado moedas fenícias em cima da mesa.
— Ó senhor… isto não é dinheiro.
— Como não é dinheiro? Isto são escudos, amigo! Dinheiro de verdade!
Chamaram o gerente.
O gerente chamou a polícia.
A polícia chegou com ar de quem já tinha visto muita coisa, mas não isto.
— Documentos, se faz favor.
Meti a mão ao bolso outra vez.
O Bilhete de Identidade tinha ficado em casa.
Mas identidade não me faltava.
Entreguei ao agente o meu cartão de sócio nº 16.644 do Futebol Clube do Porto e o cartão "Os Bons da Moedinha", do grupo de amigos que costuma jogar à moedinha à porta do café, altas horas da noite.
O polícia olhou para os cartões. Olhou para mim.Olhou para os cartões outra vez.
— Ó amigo… isto não serve como identificação.
— Como não serve? Isto é a minha alma, carago!
E foi então que o agente, já a meio caminho entre o desespero e a resignação, largou a frase que selou o meu destino:
— Ó senhor… o problema não é o café nem a mirita. O problema é que o senhor veio do passado… e decidiu recriar 1973 aqui dentro e até a fumar onde há muito já é proibido.
E foi assim que, como nas trágico‑comédias portuguesas dos anos 40 e 50, acabei detido — não por crime, mas por anacronismo.
Levaram‑me para a esquadra, onde passei a noite a tentar explicar que tinha vindo de 1973, que só queria um cimbalino, uma mirita e um cigarro aceso à terceira tentativa.
No fim, o agente suspirou e disse:
— Ó senhor… o problema é que o senhor não veio só do passado. Trouxe-o todo consigo.
E eu, muito digno, respondi:
— Pois trouxe. E não o devolvo.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
No Portal Splish Splash celebramos a memória, o humor e a criatividade lusitana."O Cimbalino do Tempo" é um desses textos raros que nos lembram que a nostalgia não é apenas saudade — é também espanto, choque cultural e gargalhada solta.
Publicamos este conto com orgulho, por ser um retrato vivo da alma portuense e da forma como o passado insiste em sentar-se connosco à mesa... mesmo quando já ninguém sabe o que é uma mirita.
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Um viajante de 1973 perde-se num café moderno e provoca um hilariante choque de épocas
Vímara Porto
INTRODUÇÃO
Tem sido assim na maior parte dos textos que escrevo. O mais recente, "A voz da minha mãe morava em Penafiel", partiu precisamente do modo de falar, das pronúncias e até de certas línguas vivas que, apesar de remetidas para segundo plano, teimam em resistir — como a língua galega, que tal como a portuguesa, deriva da mesma raiz medieval: o galego‑português.
O presente texto nasceu, porém, de dois episódios muito concretos:
1 — A minha amiga Natália Pires publicou no Facebook a fotografia de uma jovem vestida com roupas de corte antigo — casaco de tecido grosso, colete abotoado e uma blusa com grande laço ao pescoço, provavelmente da época vitoriana.
Acompanhava a imagem uma reflexão sobre identidade e autenticidade: "Saberemos nós quem realmente somos por detrás dos ‘casacos’ da nossa personalidade e papéis sociais?"
Em resposta, o amigo Leonel Dias escreveu um pequeno grande texto que vale a pena espreitar através deste link.
2 — No mesmo dia, o meu amigo João Carlos Brito — escritor — "Porto, palavras com História" publicou um post sobre as miritas: finas fatias de pão torrado com manteiga, servidas nos cafés do Porto nos anos 70.
Coisas simples, normais na época, mas que o tempo vai empurrando para o esquecimento — tal como o termo "cimbalino", que nasceu da marca das primeiras máquinas de café expresso que rivalizaram com o tradicional café de saco. Durante anos, pedia‑se "um cimbalino" para distinguir; depois, o café de saco desapareceu e, sem decreto nem aviso, todos voltaram a pedir apenas "um café".
Foi então que me ocorreu que, qualquer dia, ainda me apresentaria num café vestido como nos anos 70: cabelo pelos ombros, camisa branca de grandes colarinhos, gravata larga às florzinhas, cinto preto de couro e calças azuis à boca de sino quase a tapar os sapatos à Beatles.
Em vez disso, decidi escrever esta crónica — que espero seja do agrado dos estimados leitores.
Atravessei a rua com a naturalidade de quem vai só "ali acima" e entrei num café moderno, cheio de luzes, máquinas estranhas e gente agarrada a pequenos rectângulos luminosos que pareciam máquinas fotográficas sem botão.
Sentei‑me. Tirei os meus Paco Rabanne e pousei‑os em cima da mesa, ao lado do maço Português Suave e do isqueiro Ronson. Ajeitei a gravata. Cruzei a perna com orgulho — meia branca bem à vista, como mandava a moda. O empregado aproximou‑se com ar de quem tinha acabado de ver um fantasma.
— Boa tarde. O que deseja?
— Boa tarde. Um cimbalino e uma mirita, se faz favor.
O café inteiro congelou.
O empregado piscou os olhos duas vezes, como quem tenta decifrar uma língua morta.
— Um… um quê, e uma quê?
— Um cimbalino, amigo! Um café! E uma mirita. Já vi que é novo na arte, mas não tem problema. Eu explico: uma mirita é um pão torrado cortado às fatias finas, barradas com manteiga.
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que até o ar‑condicionado pareceu parar.
O empregado afastou‑se devagar, como quem vai pedir reforços.
Enquanto esperava, peguei no maço de tabaco e saquei um Português Suave. Meti-o ao canto da boca e peguei no Ronson, que me tinha custado os olhos da cara. Carreguei no gatilho.
Clic.
Nada.
Clic.
Nada.
Clic.
Tchac!
A chama ergueu‑se gloriosa — como sempre à terceira tentativa — em vez de logo à primeira, como tinha fama. Às vezes até dava jeito: chamava a atenção do chavalame que estava na mesa em frente, a cochichar, por certo atraído pelo meu estilo James Dean dos anos 70.
Entretanto, qual não é o meu espanto ao ver que não era só o catraiame a observar‑me, mas o café inteiro, horrorizado, como se eu tivesse acendido um foguete de São João no meio da sala.
— Ó amigo, não pode fumar aqui! — gritou alguém.
— Não posso? Desde quando, carago?! — respondi, muito naturalmente, enquanto dava a primeira passa.
O empregado voltou com o café e a mirita, ainda em choque.
Pousei o cigarro no cinzeiro — que, curiosamente, já não existia — e preparei‑me para pagar.
Meti a mão ao bolso das calças à boca de sino e tirei:
O empregado olhou para aquilo tudo como se eu tivesse pousado moedas fenícias em cima da mesa.
— Ó senhor… isto não é dinheiro.
— Como não é dinheiro? Isto são escudos, amigo! Dinheiro de verdade!
Chamaram o gerente.
O gerente chamou a polícia.
A polícia chegou com ar de quem já tinha visto muita coisa, mas não isto.
— Documentos, se faz favor.
Meti a mão ao bolso outra vez.
O Bilhete de Identidade tinha ficado em casa.
Mas identidade não me faltava.
Entreguei ao agente o meu cartão de sócio nº 16.644 do Futebol Clube do Porto e o cartão "Os Bons da Moedinha", do grupo de amigos que costuma jogar à moedinha à porta do café, altas horas da noite.
O polícia olhou para os cartões. Olhou para mim.Olhou para os cartões outra vez.
— Ó amigo… isto não serve como identificação.
— Como não serve? Isto é a minha alma, carago!
E foi então que o agente, já a meio caminho entre o desespero e a resignação, largou a frase que selou o meu destino:
— Ó senhor… o problema não é o café nem a mirita. O problema é que o senhor veio do passado… e decidiu recriar 1973 aqui dentro e até a fumar onde há muito já é proibido.
E foi assim que, como nas trágico‑comédias portuguesas dos anos 40 e 50, acabei detido — não por crime, mas por anacronismo.
Levaram‑me para a esquadra, onde passei a noite a tentar explicar que tinha vindo de 1973, que só queria um cimbalino, uma mirita e um cigarro aceso à terceira tentativa.
No fim, o agente suspirou e disse:
— Ó senhor… o problema é que o senhor não veio só do passado. Trouxe-o todo consigo.
E eu, muito digno, respondi:
— Pois trouxe. E não o devolvo.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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