A Bingança da Mulher dos Tremoços Bai no Batalha

Conto humorístico e misterioso sobre a Sala Bebé e o renascimento do Cinema Batalha, onde a cultura portuense ganha vida em cada detalhe.
Fachada iluminada do Cinema Batalha, no Porto, destacando a arquitetura modernista.

A Sala Bebé do Cinema Batalha renasce num conto onde humor, memória e mistério se entrelaçam

No Batalha, até o silêncio tem ecos — e alguns vêm do além

"Muitas verdades foram consideradas absurdas
até eu aparecer para as inventar com sinceridade."
Vímara Porto 


Por: Armindo Guimarães


Dizem que tudo começou numa tarde luminosa de agosto, quando a Dona Rosália — célebre na freguesia pela qualidade dos seus tremoços — foi multada durante a Festa de São Bartolomeu, na Foz do Douro, onde vivia e era figura conhecida.

O motivo da multa permanece envolto em polémica.

Segundo as autoridades, os tremoços "não tinham sal suficiente".

Segundo a Dona Rosália, tinham exatamente o sal necessário para não provocar sede excessiva nem obrigar ninguém a beber três finos quando dois bastavam.

Segundo as testemunhas, ninguém percebeu ao certo o que se passou, mas todos concordaram que a discussão foi das mais animadas da década — talvez mesmo do século.

Humilhada perante o público, a mulher dos tremoços jurou vingança.

Não uma vingança violenta. Uma vingança burocrática e... misteriosa, pois, ao que parece, chegou aos nossos dias, como adiante constataremos.

Durante meses mergulhou em regulamentos, posturas municipais, decretos esquecidos e circulares emitidas por organismos que já não existiam. Quando regressou, trazia consigo uma pasta azul com 847 páginas e dois separadores que faziam tremer até o funcionário mais experiente.

Foi então que o verdadeiro pesadelo começou.

Descobriu que a bancada da comissão de festas em honra de São Bartolomeu, estava colocada sete centímetros fora do alinhamento previsto no regulamento de 1953 ainda em vigor.

Demonstrou que o sino da igreja tocava com um atraso médio de dois minutos e vinte e três segundos, por culpa do sineiro que nunca chegava a horas para dar ao badalo. 

Provou que o fontanário público tinha uma inclinação proibida por uma norma técnica que ninguém conhecia — nem queria conhecer.

Em menos de um ano, metade da freguesia recebeu notificações. A outra metade recebeu recomendações.

O caos instalou-se.

Os habitantes passaram a atravessar as ruas com receio de infringirem alguma postura municipal obscura. A Junta reuniu de emergência. O presidente tentou negociar.

— O que pretende afinal, Dona Rosália?

Ela levantou-se devagar. O silêncio caiu sobre a sala como uma tampa de ferro.

— Justiça.

— E como define justiça?

— Um mundo onde ninguém seja perseguido por causa da quantidade de sal nos tremoços.

A frase ecoou como um trovão contido.

Houve aplausos. Houve lágrimas. Houve até um homem, que nem gostava de tremoços, que pediu a palavra apenas para concordar.

Perante tamanha comoção, a multa foi anulada.

A paz regressou à freguesia.

A Dona Rosália voltou à sua banca, acrescentando a cada dose algumas azeitonas galegas em jeito de celebração. E durante anos ninguém ousou questionar o sal.

Contudo, os mais velhos ainda contam que, em certas noites de verão, quando o vento sopra de leste e a papelada municipal range nas gavetas, é possível ouvir uma voz distante murmurar: Verifiquem primeiro o regulamento, carago!

E é por isso que, ainda hoje, muitos consideram "A Bingança da Mulher dos Tremoços" uma trágico‑comédia.

Os pessimistas dizem que é ficção. Os otimistas dizem que é documentário. Outros garantem que é um caso sério.

E há ainda quem afirme que foi com base em tudo isto que os realizadores Vimara Porto, de Portugal, e Udi Álem, dos Estados Unidos, decidiram produzir um filme cuja estreia ocorreu na mítica Sala Bebé, a 31 de dezembro de 2010 — precisamente no dia em que o icónico Cinema Batalha encerrou portas.

O Batalha reabriu a 9 de dezembro de 2022, mas o espaço subterrâneo original dos anos 70 — onde ficava a Sala Bebé — não pôde ser recuperado devido a deficiências estruturais. No seu lugar recuperou‑se o antigo salão de chá, hoje Cafetaria & Bar, onde pontualmente se exibem performances e projeções especiais — entre elas, diz o povo da Invicta, o filme "A Bingança da Mulher dos Tremoços", exibido todas as noites, depois de portas fechadas, sem que alguém tenha visto viva alma entrar antes ou sair depois.

Há quem jure que, se se encostar a orelha à porta de metal, ainda se ouve o ranger das cadeiras antigas, como se a Sala Bebé continuasse lá em baixo, viva, teimosa, a funcionar num plano paralelo onde as normas de segurança não têm autoridade.

Outros dizem que a Dona Rosália aparece por vezes sentada na última fila, a comer tremoços com sal "q.b.", como ela dizia, e a apontar detalhes técnicos do filme num caderno azul igual ao da sua famosa pasta de 847 páginas.

E há ainda quem garanta que, se alguém ousar mexer na quantidade de sal dos tremoços vendidos na Cafetaria & Bar, as luzes piscam, o projetor engasga-se e uma voz distante murmura:

— Não mexam no sal, carago!

Desde então, perante histórias inacreditáveis, o povo do Porto costuma dizer: Bai no Batalha!

Porque quando uma história parece mentira, é porque provavelmente está a ser exibida na Sala Bebé, do Batalha, depois das portas fecharem, que é, por certo, o que os mais cépticos vão pensar sobre este escrito.
 
E, num daqueles acasos que só a cultura popular sabe cozinhar, descobri recentemente que alguém lançou uma música chamada "A Vingança da Mulher dos Tremoços". Talvez obra do acaso, talvez só o imaginário a circular pelo ar, mas a coincidência é tão saborosa que merecia vir aqui fechar a história. Fica então o vídeo, como quem pousa uma azeitona no topo dos tremoços só para marcar presença.

CiscoChefe - A vingança da mulher dos tremoços

NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Num tempo em que a memória cultural se cruza com o imaginário popular, "A Bingança da Mulher dos Tremoços" devolve ao Cinema Batalha a aura mítica que sempre o acompanhou. Entre humor, mistério e identidade portuense, este conto celebra a persistência dos ditos e das histórias que sobrevivem ao tempo.
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