Zila leva memória ancestral à Colômbia

Curta “Zila”, de Kaya Rodrigues, estreia em festival na Colômbia abordando Alzheimer, ancestralidade africana e identidade negra.
Ilustração promocional do curta “Zila”, de Kaya Rodrigues, exibido em festival de cinema feminino na Colômbia

Curta de Kaya Rodrigues une Alzheimer, identidade negra e mitologia bantu


Uma história sobre lembranças, perdas e raízes ancestrais


A memória como território afetivo, político e espiritual conduz “Zila”, curta-metragem dirigido por Kaya Rodrigues, que fará sua estreia mundial na mostra competitiva do Mujeres Film Festival, realizado entre os dias 11 e 26 de maio de 2026, na cidade colombiana de Circasia. A produção gaúcha chega ao evento internacional levando uma narrativa profundamente sensível sobre Alzheimer, ancestralidade africana e identidade negra feminina.

No centro da trama está Zila, interpretada por Silvia Duarte, uma senhora negra que vive sozinha, cercada pelas lembranças de uma vida inteira e pela expectativa silenciosa da visita de familiares. A rotina marcada pela saudade ganha novos contornos com a chegada da neta Ana, vivida por Cristal. O encontro entre as duas revela conflitos geracionais, distanciamentos emocionais e diferenças de visão de mundo que acabam impulsionando Zila a buscar um ritual africano de esquecimento.

A partir dessa premissa delicada e poderosa, Kaya Rodrigues constrói uma obra que vai além do drama familiar. Inspirado em uma mitologia bantu-moçambicana, o roteiro entrelaça o processo de perda de memória provocado pelo Alzheimer com elementos simbólicos ligados à ancestralidade e à espiritualidade africana. Uma árvore ancestral torna-se eixo ritualístico da narrativa, conectando passado, identidade e pertencimento.

A diretora revela que a ideia do filme nasceu de uma experiência pessoal profundamente dolorosa. Kaya conta que descobriu que sua avó estava com Alzheimer e, inicialmente, enfrentou um forte processo de negação diante da doença. O medo de perder as memórias compartilhadas e de ser esquecida por alguém tão amado transformou-se em matéria-prima emocional para o roteiro.

Em vez de abordar a doença apenas pela ótica clínica, “Zila” prefere a linguagem da poesia e da memória afetiva. O filme alterna lembranças da infância da protagonista com imagens rurais que destacam o trabalho silencioso de mãos negras no campo, trazendo também uma reflexão social sobre invisibilidade e pertencimento histórico.

As filmagens aconteceram em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, cenário escolhido para potencializar a atmosfera intimista e contemplativa da produção. A fotografia de Eduardo Rosa reforça o caráter sensorial da obra, enquanto a direção de arte assinada por Bruna Giuliatti e Richard Tavares contribui para a construção estética carregada de simbolismos.

“Zila” marca a estreia solo de Kaya Rodrigues na direção cinematográfica. Multiartista, produtora e arte-educadora, ela possui trajetória consolidada no cinema, teatro, música e carnaval popular. A realizadora também destaca o significado político de participar de um festival dedicado ao cinema produzido por mulheres.

Segundo Kaya, ser uma mulher negra atuando no sul do Brasil significa enfrentar um contexto em que a negritude muitas vezes permanece invisibilizada. A cineasta ressalta ainda a importância de ocupar espaços culturais internacionais em um momento social marcado pelo aumento da violência contra mulheres no país.

O curta foi financiado pela Lei Paulo Gustavo de Porto Alegre e representa também o primeiro lançamento da produtora Filmes de Água Doce, em coprodução com a Verte Filmes, empresa reconhecida recentemente no Festival BAFICI, na Argentina, pelo filme “Banho Maria”.

Com duração de 19 minutos, “Zila” apresenta um elenco formado por Silvia Duarte, Cristal, Álvaro Rosacosta, Cássio Nascimento, Gabriel Faryas, Giselle Rocha, Bruno Kauer e Isadora Gabrielli. A trilha original é assinada por Renan Franzen, enquanto a montagem ficou a cargo de Joana Bernardes.

Além da atuação no audiovisual, Kaya Rodrigues também é conhecida por sua pesquisa em cultura popular e por integrar movimentos culturais ligados ao carnaval e ao cinema negro. Foi fundadora do coletivo Criadoras Negras-RS e do Macumba Lab, além de atuar atualmente como curadora-geral do Festival Cinema Negro em Ação.

Paralelamente à circulação de “Zila”, a diretora finaliza seu primeiro longa-metragem documental, “Ialode”, realizado ao lado de Gabriel Faccini. O projeto aborda a música negra do Rio Grande do Sul sob a perspectiva de quatro compositoras, ampliando o compromisso artístico de Kaya com narrativas negras, femininas e ancestrais.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
“Zila” surge como uma obra de rara delicadeza ao abordar a memória não apenas como registro afetivo, mas como herança ancestral e resistência cultural. Kaya Rodrigues transforma a dor do esquecimento em um poderoso gesto de afirmação identitária, reafirmando a força do cinema negro feminino brasileiro em festivais internacionais. Em tempos de apagamentos históricos e sociais, filmes como este devolvem voz, imagem e permanência às histórias que insistem em sobreviver.
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