Exposição no Futuros revela olhares contemporâneos sobre memória, território e futuro
Arte nascida da urgência social e da invenção quotidiana
A exposição Papo Reto chega ao centro cultural Futuros - Arte e Tecnologia como um retrato potente, sensível e urgente das múltiplas realidades que atravessam os territórios periféricos do Rio de Janeiro. A mostra, que abre ao público em 15 de maio, reúne mais de 50 obras produzidas por artistas do Laboratório 2050 de Arte e Tecnologia e artistas mulheres convidadas, consolidando o encerramento da residência artística UPLOAD, iniciada em 2025.
Com curadoria de Leonardo Moraes, a exposição ocupa duas galerias do espaço cultural no Flamengo e apresenta trabalhos que transitam entre instalações, pinturas, fotografias, vídeos e impressões 3D. Mais do que uma simples reunião de obras, Papo Reto se transforma em um manifesto visual sobre identidade, comunidade, ancestralidade, criatividade e sobrevivência urbana.
A proposta nasce da experiência coletiva construída pelo Laboratório 2050, iniciativa fundada em 2022 no Morro do Santo Amaro, que articula arte, inovação e tecnologia como ferramentas de transformação social. Ao reunir jovens artistas periféricos e convidadas vindas de diferentes contextos, a mostra estabelece um diálogo poderoso entre memória, estética contemporânea e crítica social.
Leonardo Moraes define o processo da residência como uma travessia artística e humana marcada pela escuta, pela troca e pela experimentação. Segundo o curador, Papo Reto surge como um convite para enxergar o mundo a partir do olhar dos “crias”, artistas que utilizam arte e tecnologia para narrar seus territórios, afetos e experiências de vida.
Já Victor D’Almeida, gerente de cultura do Instituto Futuros, destaca a importância de criar pontes entre linguagens e comunidades, defendendo que o investimento em residências artísticas de longa duração permite o surgimento de produções sofisticadas, urgentes e plenamente contemporâneas, capazes de dialogar com qualquer circuito internacional de arte.
Entre os trabalhos de destaque está a instalação interativa Chuva de Balas, de Ronald Nascimento. A obra utiliza espelhos e impressão 3D para representar simbolicamente a violência recorrente enfrentada por populações historicamente vulnerabilizadas. Cada gota criada pelo artista funciona como memória física de vidas interrompidas, evocando desconforto, reflexão e responsabilidade coletiva diante da banalização da violência urbana.
Outro momento marcante da exposição é a fotografia O Rei da Luta, da artista Fotogracria, criada na Rocinha. A imagem mostra dois jovens diante do videogame The King of Fighters em um beco da favela, cercados por fios, cabos e soluções improvisadas. O cenário revela um território onde a tecnologia nasce da necessidade, da adaptação e da criatividade popular, criando um contraste entre inovação periférica e exclusão tecnológica institucionalizada.
Fotogracria também ressalta a importância da presença de mulheres negras, indígenas, trans e faveladas na mostra, reforçando que essas artistas representam não apenas resistência, mas também produção intelectual, inovação e futuro. A afirmação ganha ainda mais força em uma exposição que busca ampliar narrativas historicamente invisibilizadas nos espaços tradicionais da arte contemporânea.
Participam da mostra Alberto Brant (“Ottis Ots”), Bruno Aranha (“Rxbisco”), Cety Soledade, Fotogracria, Gabriel Pamplona (“GPS”), Gabriel Pego (“Gb”), Gean Guilherme, “iahra”, “Guida”, Isa Muriá, Janaína Vieira, João Victor Guimarães (“Clicbycria”), Lari Ferreira, Luan Guilherme, Osvaldo Eugênio, Panmela Castro, Priscila Nassar, Rafael Velez, Renata Santos da Silva, Ronald Nascimento, Sabine, Tayná Uràz e Thuany Ribeiro.
O projeto UPLOAD, responsável pela residência artística, promoveu ao longo do último ano visitas a dezenas de exposições e museus no Rio de Janeiro e em São Paulo, encontros formativos, debates, pesquisas e processos coletivos de criação. O programa já havia resultado na exposição Vai Tomando, apresentada anteriormente no Futuros, e agora culmina em Papo Reto, consolidando uma experiência artística profundamente conectada com os debates sociais do presente.
A exposição permanece em cartaz até 16 de agosto, com entrada gratuita, reafirmando o papel do Instituto Futuros como agente de democratização cultural e incentivo às novas linguagens artísticas.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Papo Reto evidencia como a arte periférica contemporânea deixou há muito de ocupar um espaço marginal para assumir protagonismo estético, político e tecnológico. A mostra transforma experiências sociais em linguagem artística de alcance universal, reforçando que inovação também nasce das comunidades, dos becos e das memórias colectivas frequentemente ignoradas pelos centros tradicionais de poder cultural.
Exposição no Futuros revela olhares contemporâneos sobre memória, território e futuro
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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