Um conto sobre justiça, dignidade e a força da lei
Há paredes que se erguem para prender, e há palavras que se escrevem para libertar
"Às vezes, a liberdade chega disfarçada de artigo, alínea e parágrafo." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
I — O Tempo que Não Passa
No estabelecimento prisional de Faro, Horácio Oliveira ocupava o tempo com os clássicos que sempre o atraíam.
Mas a leitura não era um refúgio perfeito: o tinir das chaves, o arrastar de botas dos guardas, o murmúrio constante dos reclusos — tudo parecia lembrá-lo que o mundo continuava a girar sem ele.
No pátio, enquanto alguns jogavam à bola e outros discutiam por ninharias, Horácio lia.
Os guardas riam-se:
— Assim a ler vamos ter doutor.
Barbosa, recluso antigo, provocava-o sempre:
— Ler não te vai tirar daqui, miúdo. Aqui só sai quem morre ou quem paga.
E havia o jovem Tavares, condenado por furtos menores, que se aproximava muitas vezes:
— Como é que consegues ler tanto? Às vezes até parece que estás noutro lugar.
Horácio sorria, fechava o livro devagar.
— É a única maneira de não esquecer que o tempo passa, mesmo quando parece que está parado.
II — A Descoberta
Um dia, ao devolver um volume, o olhar de Horácio cruzou-se com o Código de Processo Penal pousado na escrivaninha do bibliotecário.
— Isso não é leitura leve, rapaz — comentou o homem.
Horácio folheou o livro. Artigos, alíneas, notas de rodapé.
E, de repente, uma frase sublinhada a lápis: "A prova pericial deve ser apreciada segundo critérios científicos atualizados."
Foi como um estalo.
A marca de mordida. A testemunha. O julgamento apressado.
Era a mesma prova que o condenara. A mesma "certeza" que o levara à cela.
A partir desse dia, estudou como quem cava um túnel às cegas, esperando encontrar luz.
III — A Revisão do Tavares
O túnel escuro começou a ganhar contornos. Cada artigo, cada alínea, cada nota de rodapé tornou-se uma ferramenta. E, à medida que o seu próprio caso ganhava forma na sua cabeça, os outros começaram a notar.
Foi Tavares quem reparou primeiro.
— Doutor... estás a escrever naquelas folhas há três dias sem parar. O que é que estás a fazer?
Horácio levantou os olhos. O quarto estava cheio de apontamentos, fotocópias de acórdãos, códigos marcados a cores.
— Estou a tentar perceber onde é que a minha história foi mal contada.
Tavares hesitou, depois tirou do bolso um papel amarrotado.
— E... achas que isto ainda vai a tempo?
Horácio analisou a sentença. Ali, quase apagado, estava o prazo para um recurso extraordinário.
— Tavares... ainda estás dentro do prazo, mas vou ter que suspender o meu assunto para tratarmos já do teu, senão não vamos a tempo.
O jovem ficou imóvel.
— Quer dizer que... posso tentar?
— Podes. E vais.
A partir daí, a cela de Horácio deixou de ser apenas um quarto. Ganhou nome, função, vida.
Um pedaço de cartão colado à porta dizia, a lápis: Consultório. Entrada livre.
Reclusos com papéis amarrotados, sentenças antigas, dúvidas mal explicadas pelos advogados oficiosos. Ele atendia todos. Nunca cobrava nada. Ouvia, explicava, traduzia a lei para quem nunca tivera voz.
— Isto não garante nada, mas tens aqui uma brecha. Pede revisão com base no artigo 449.º, n.º 1 da alínea b).
Os homens saíam dali mais direitos, como se alguém lhes tivesse devolvido um pedaço de dignidade.
Até os guardas começaram a falar.
Um dia, no corredor administrativo, o diretor perguntou ao sargento Pereira:
— Quem é esse tal Dr. Horácio Oliveira de quem toda a gente fala?
O sargento encolheu os ombros, mas havia respeito na voz: "É só um miúdo que não desiste, senhor diretor. E pelos vistos, sabe mais da lei do que metade dos advogados que por aqui passam."
O guarda Mendes, ao ver o primeiro envelope selado, com o recurso do Tavares, comentou:
— Se isto não resultar, nada mais resulta.
Dois meses depois, o diretor chamou Tavares ao gabinete.
— Tavares… arruma as tuas coisas.
O rapaz empalideceu.
— Fiz alguma coisa?
O diretor sorriu — um sorriso raro, quase paternal.
— Fizeste tudo bem. Estás livre.
Tavares ficou parado, sem saber o que fazer com as mãos, com o corpo, com a vida.
No pavilhão, Barbosa gritou:
— Olha o miúdo! Vai ser doutor antes do doutor!
E, pela primeira vez desde que entrara ali, Tavares chorou.
Antes de sair, prometeu a Horácio:
— Se um dia precisar de mim... eu volto.
— Vais voltar pela porta da frente — respondeu Horácio.
IV — O Pedido de Revisão do Processo
O interesse de Horácio pela lei criminal cresceu como uma obsessão silenciosa. Estudou o Código Penal e o Código de Processo Penal, devorou pareceres jurídicos sobre casos análogos — aqueles que, sem fazerem lei, iluminavam falhas em julgamentos passados. Começou a questionar a tal testemunha em prisão domiciliária: teria sido aliciada para desviar atenções de outra pista? E aquela marca de mordida, tão frágil à luz da ciência moderna... Nas linhas secas da lei, Horácio via agora as brechas da defesa que nunca tivera — e o caminho para provar a inocência que carregava há anos.
Redigiu o pedido formal de revisão de processo. Invocava o artigo 449.º do Código de Processo Penal: novas provas, impossíveis à data da sentença. O ADN — técnica forense revolucionária, ainda incipiente mas irrefutável em casos estrangeiros que estudara — poderia analisar a marca de mordida e compará-la com o seu perfil genético. Anexou pareceres sobre reaberturas análogas no Reino Unido e nos EUA.
Relera a sentença dezenas de vezes. Vinte anos. Dez já cumpridos, a engolir dias iguais. Dez que lhe faltavam. Se o recurso falhasse, sairia dali com quarenta anos, a vida gasta e o nome já apagado. O tribunal designou-lhe um advogado oficioso, como manda a lei, e o juiz agendou a audiência. Pela primeira vez em uma década, sentiu o cheiro da liberdade — ou da derradeira ilusão.
V — A Audiência
A sala de audiências no Palácio da Justiça de Faro cheirava a mofo e papel velho.
O juiz entrou, e o silêncio caiu como uma pedra.
Horácio, algemado, sentou-se.
O advogado pousou a mão na mesa:
— Deixe que eu fale, Oliveira. Nos termos da lei, só o defensor pode intervir.
Mas Horácio não o ouvia.
Os olhos estavam fixos na testemunha — agora uma mulher encurvada, mãos trémulas, olhar perdido.
O perito forense levantou-se, abriu a pasta, e a sala prendeu a respiração.
— Incompatibilidade total do ADN com a marca de mordida.
Um murmúrio percorreu o público, como vento a atravessar uma porta mal fechada.
O juiz virou-se para a testemunha:
— Confirma o depoimento de 78?
Ela hesitou. Olhou para Horácio — e ele sentiu o coração bater-lhe nos ouvidos.
— Eu... vi o que me mandaram dizer. Alguém pagou para apontar o rapaz. Não era ele.
O mundo parou.
Horácio fechou os olhos.
Não era alegria — era vertigem.
VI — A Libertação e o Pacto
Na manhã da libertação, quando Horácio atravessou o corredor central, os reclusos aproximaram-se das grades.
Alguns bateram com os nós dos dedos no metal. Outros levantaram o queixo num gesto de respeito.
Barbosa disse-lhe com a voz rouca:
— Vai lá viver a vida que te roubaram. Mas não te esqueças de nós.
E Horácio sentiu algo inesperado: uma parte dele ficava ali. Não por saudade — mas por responsabilidade.
Horas antes de sair, pediu para falar com o diretor.
O homem recebeu-o com formalidade, mas com um respeito que não tentava disfarçar.
— Então, Oliveira. Está livre. O que deseja?
Horácio respirou fundo.
— Desejo... continuar a ajudar. Se me permitir, gostaria de manter um pequeno espaço aqui dentro. Onde os homens que me procuravam possam continuar a esclarecer as suas dúvidas. Não como recluso. Como... consultor.
O diretor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sabe que isto é pouco comum.
— Sei.
— E sabe que muitos aqui o admiram.
— Também sei.
O diretor levantou-se, estendeu-lhe a mão:
— Vou pensar seriamente nisso, Dr. Horácio Oliveira.
E, pela primeira vez, o título soou-lhe verdadeiro.
Quando as portas se abriram ao meio-dia, o sol de outubro queimou-lhe os olhos.
Mas não era o sol que o cegava. Era a sensação de que o mundo tinha mudado — e ele também.
Caminhou até ao mar. O vento trouxe-lhe o cheiro do sal, o mesmo que sentira no dia em que a sua vida fora destruída.
Mas agora, aquele cheiro já não era memória de dor. Era promessa.
Sentou-se na areia, tirou do bolso uma folha dobrada e escreveu: “Inocência em Alíneas — capítulo primeiro.”
E, antes de continuar, olhou para trás — não para a prisão, mas para o que deixara lá dentro: um eco de justiça, um rasto de esperança, um lugar onde, de certa forma, continuaria presente.
VII — O Regresso
Dias depois, numa reunião no gabinete do diretor, o homem perguntou-lhe porque queria voltar.
Horácio sorriu com uma serenidade nova:
— Porque, senhor diretor... se eu tivesse tido alguém que me explicasse a lei como eu explico a eles, talvez nunca tivesse entrado aqui.
O diretor ficou a olhar para ele, como quem percebe algo demasiado tarde.
— Então quer devolver o que não recebeu.
— Quero evitar que outros passem pelo que eu passei.
— Mesmo assim, tem a certeza? Podia ir para o Porto, recomeçar a vida.
Horácio respirou fundo.
— Uma parte de mim ficou aqui. E outra parte... só existe porque estes homens acreditaram em mim quando ninguém acreditava.
O diretor assentiu devagar.
— Então, Dr. Oliveira... o seu escritório está oficialmente aberto.
Naquele dia, quando Horácio entrou no estabelecimento prisional, já não havia algemas, nem guardas a empurrá-lo, nem o peso invisível da culpa alheia.
Havia apenas passos firmes, um silêncio respeitoso e dezenas de olhares que o seguiam.
Ao seu lado, caminhava Tavares — agora seu assistente, inscrito num programa de reinserção profissional.
Os reclusos aproximaram-se das grades.
— O Doutor... voltou mesmo.
— Disse que não nos esquecia e não é que voltou bem acompanhado?
O guarda Mendes, que o vira estudar à luz fraca da cela, aproximou-se.
— Bem-vindo de volta, Oliveira.
— Obrigado, sargento.
— Nunca pensei dizer isto a um ex-recluso... mas faz falta aqui.
VIII — O Escritório da Sala 3
A sala 3 tinha agora uma mesa maior, duas cadeiras e uma estante cheia de códigos.
No centro, um computador novo.
O diretor apareceu:
— Achei que iam precisar disto. Hoje em dia, requerimentos e ações não se escrevem à mão. Foi uma doação de uma associação de apoio jurídico.
Tavares brilhou:
— Senhor diretor... isto é topo de gama.
— Primeiro, um escritório sem computador é como um tribunal sem juiz. Segundo, se é topo de gama, fica a dever a quem muito bem o vai utilizar.
Horácio passou a mão pelo monitor, impressionado.
— Obrigado, senhor diretor. Isto vai ajudar muito.
O diretor piscou o olho.
— Eu sei. E já agora... instalei um programa para organizar processos. O Tavares disse que era essencial.
Tavares, orgulhoso, endireitou-se.
— É que... doutor... agora somos um escritório a sério.
Barbosa, que espreitava pelo corredor, comentou:
— Olha, olha... até computador têm. Isto já parece tribunal superior.
E desapareceu, resmungando — mas com um sorriso escondido.
IX — O Eco Final
No primeiro dia, cinco reclusos bateram à porta.
Tavares organizou uma lista. Horácio analisava processos.
O escritório ganhou vida.
— Doutor, este prazo está a terminar. É do Alfredo Mão Leves da ala 3.
— Boa, Tavares. Passa-me o processo. Manda entrar o primeiro.
Era Barbosa, envergonhado.
— Eu… não vim por mim. É pelo meu filho. Está metido em sarilhos.
— Então sente-se, Barbosa. A lei também serve para os nossos.
E assim, dia após dia, Horácio devolvia aos homens aquilo que lhe tinham roubado durante dez anos: a possibilidade de acreditar.
À noite, ao saírem juntos, o vento trazia o cheiro do mar.
— Doutor... acha que um dia posso estudar Direito a sério? — perguntou Tavares.
— Tavares... já começaste.
E, no silêncio da noite algarvia, ouviam-se vozes atrás deles:
— Boa noite, doutor.
— Boa noite, Tavares.
Horácio sorriu.
— A justiça não é um lugar onde se chega. É um lugar onde se regressa.
E regressavam — juntos.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
"Inocência em Alíneas", inspirado em mecanismos reais do direito português, celebra o poder da persistência intelectual face à injustiça. É um conto poderoso sobre redenção e justiça que nos leva às celas de Faro, onde um homem injustamente condenado descobre na lei não apenas a sua própria libertação, mas também a missão de devolver dignidade a quem a perdeu. Uma narrativa sensível e urgente sobre segundas oportunidades e o poder transformador da solidariedade.
Um conto sobre justiça, dignidade e a força da lei
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
I — O Tempo que Não Passa
No estabelecimento prisional de Faro, Horácio Oliveira ocupava o tempo com os clássicos que sempre o atraíam.
Mas a leitura não era um refúgio perfeito: o tinir das chaves, o arrastar de botas dos guardas, o murmúrio constante dos reclusos — tudo parecia lembrá-lo que o mundo continuava a girar sem ele.
No pátio, enquanto alguns jogavam à bola e outros discutiam por ninharias, Horácio lia.
Os guardas riam-se:
— Assim a ler vamos ter doutor.
Barbosa, recluso antigo, provocava-o sempre:
— Ler não te vai tirar daqui, miúdo. Aqui só sai quem morre ou quem paga.
E havia o jovem Tavares, condenado por furtos menores, que se aproximava muitas vezes:
— Como é que consegues ler tanto? Às vezes até parece que estás noutro lugar.
Horácio sorria, fechava o livro devagar.
— É a única maneira de não esquecer que o tempo passa, mesmo quando parece que está parado.
II — A Descoberta
Um dia, ao devolver um volume, o olhar de Horácio cruzou-se com o Código de Processo Penal pousado na escrivaninha do bibliotecário.
— Isso não é leitura leve, rapaz — comentou o homem.
Horácio folheou o livro. Artigos, alíneas, notas de rodapé.
E, de repente, uma frase sublinhada a lápis: "A prova pericial deve ser apreciada segundo critérios científicos atualizados."
Foi como um estalo.
A marca de mordida. A testemunha. O julgamento apressado.
Era a mesma prova que o condenara. A mesma "certeza" que o levara à cela.
A partir desse dia, estudou como quem cava um túnel às cegas, esperando encontrar luz.
III — A Revisão do Tavares
O túnel escuro começou a ganhar contornos. Cada artigo, cada alínea, cada nota de rodapé tornou-se uma ferramenta. E, à medida que o seu próprio caso ganhava forma na sua cabeça, os outros começaram a notar.
Foi Tavares quem reparou primeiro.
— Doutor... estás a escrever naquelas folhas há três dias sem parar. O que é que estás a fazer?
Horácio levantou os olhos. O quarto estava cheio de apontamentos, fotocópias de acórdãos, códigos marcados a cores.
— Estou a tentar perceber onde é que a minha história foi mal contada.
Tavares hesitou, depois tirou do bolso um papel amarrotado.
— E... achas que isto ainda vai a tempo?
Horácio analisou a sentença. Ali, quase apagado, estava o prazo para um recurso extraordinário.
— Tavares... ainda estás dentro do prazo, mas vou ter que suspender o meu assunto para tratarmos já do teu, senão não vamos a tempo.
O jovem ficou imóvel.
— Quer dizer que... posso tentar?
— Podes. E vais.
A partir daí, a cela de Horácio deixou de ser apenas um quarto. Ganhou nome, função, vida.
Um pedaço de cartão colado à porta dizia, a lápis: Consultório. Entrada livre.
Reclusos com papéis amarrotados, sentenças antigas, dúvidas mal explicadas pelos advogados oficiosos. Ele atendia todos. Nunca cobrava nada. Ouvia, explicava, traduzia a lei para quem nunca tivera voz.
— Isto não garante nada, mas tens aqui uma brecha. Pede revisão com base no artigo 449.º, n.º 1 da alínea b).
Os homens saíam dali mais direitos, como se alguém lhes tivesse devolvido um pedaço de dignidade.
Até os guardas começaram a falar.
Um dia, no corredor administrativo, o diretor perguntou ao sargento Pereira:
O sargento encolheu os ombros, mas havia respeito na voz: "É só um miúdo que não desiste, senhor diretor. E pelos vistos, sabe mais da lei do que metade dos advogados que por aqui passam."
O guarda Mendes, ao ver o primeiro envelope selado, com o recurso do Tavares, comentou:
— Se isto não resultar, nada mais resulta.
Dois meses depois, o diretor chamou Tavares ao gabinete.
— Tavares… arruma as tuas coisas.
O rapaz empalideceu.
— Fiz alguma coisa?
O diretor sorriu — um sorriso raro, quase paternal.
— Fizeste tudo bem. Estás livre.
Tavares ficou parado, sem saber o que fazer com as mãos, com o corpo, com a vida.
No pavilhão, Barbosa gritou:
— Olha o miúdo! Vai ser doutor antes do doutor!
E, pela primeira vez desde que entrara ali, Tavares chorou.
Antes de sair, prometeu a Horácio:
— Se um dia precisar de mim... eu volto.
— Vais voltar pela porta da frente — respondeu Horácio.
IV — O Pedido de Revisão do Processo
O interesse de Horácio pela lei criminal cresceu como uma obsessão silenciosa. Estudou o Código Penal e o Código de Processo Penal, devorou pareceres jurídicos sobre casos análogos — aqueles que, sem fazerem lei, iluminavam falhas em julgamentos passados. Começou a questionar a tal testemunha em prisão domiciliária: teria sido aliciada para desviar atenções de outra pista? E aquela marca de mordida, tão frágil à luz da ciência moderna... Nas linhas secas da lei, Horácio via agora as brechas da defesa que nunca tivera — e o caminho para provar a inocência que carregava há anos.
Redigiu o pedido formal de revisão de processo. Invocava o artigo 449.º do Código de Processo Penal: novas provas, impossíveis à data da sentença. O ADN — técnica forense revolucionária, ainda incipiente mas irrefutável em casos estrangeiros que estudara — poderia analisar a marca de mordida e compará-la com o seu perfil genético. Anexou pareceres sobre reaberturas análogas no Reino Unido e nos EUA.
Relera a sentença dezenas de vezes. Vinte anos. Dez já cumpridos, a engolir dias iguais. Dez que lhe faltavam. Se o recurso falhasse, sairia dali com quarenta anos, a vida gasta e o nome já apagado. O tribunal designou-lhe um advogado oficioso, como manda a lei, e o juiz agendou a audiência. Pela primeira vez em uma década, sentiu o cheiro da liberdade — ou da derradeira ilusão.
V — A Audiência
A sala de audiências no Palácio da Justiça de Faro cheirava a mofo e papel velho.
O juiz entrou, e o silêncio caiu como uma pedra.
Horácio, algemado, sentou-se.
O advogado pousou a mão na mesa:
— Deixe que eu fale, Oliveira. Nos termos da lei, só o defensor pode intervir.
Mas Horácio não o ouvia.
Os olhos estavam fixos na testemunha — agora uma mulher encurvada, mãos trémulas, olhar perdido.
O perito forense levantou-se, abriu a pasta, e a sala prendeu a respiração.
— Incompatibilidade total do ADN com a marca de mordida.
Um murmúrio percorreu o público, como vento a atravessar uma porta mal fechada.
O juiz virou-se para a testemunha:
— Confirma o depoimento de 78?
Ela hesitou. Olhou para Horácio — e ele sentiu o coração bater-lhe nos ouvidos.
— Eu... vi o que me mandaram dizer. Alguém pagou para apontar o rapaz. Não era ele.
O mundo parou.
Horácio fechou os olhos.
Não era alegria — era vertigem.
VI — A Libertação e o Pacto
Na manhã da libertação, quando Horácio atravessou o corredor central, os reclusos aproximaram-se das grades.
Alguns bateram com os nós dos dedos no metal. Outros levantaram o queixo num gesto de respeito.
Barbosa disse-lhe com a voz rouca:
— Vai lá viver a vida que te roubaram. Mas não te esqueças de nós.
E Horácio sentiu algo inesperado: uma parte dele ficava ali. Não por saudade — mas por responsabilidade.
Horas antes de sair, pediu para falar com o diretor.
O homem recebeu-o com formalidade, mas com um respeito que não tentava disfarçar.
— Então, Oliveira. Está livre. O que deseja?
Horácio respirou fundo.
— Desejo... continuar a ajudar. Se me permitir, gostaria de manter um pequeno espaço aqui dentro. Onde os homens que me procuravam possam continuar a esclarecer as suas dúvidas. Não como recluso. Como... consultor.
O diretor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sabe que isto é pouco comum.
— Sei.
— E sabe que muitos aqui o admiram.
— Também sei.
O diretor levantou-se, estendeu-lhe a mão:
— Vou pensar seriamente nisso, Dr. Horácio Oliveira.
E, pela primeira vez, o título soou-lhe verdadeiro.
Quando as portas se abriram ao meio-dia, o sol de outubro queimou-lhe os olhos.
Mas não era o sol que o cegava. Era a sensação de que o mundo tinha mudado — e ele também.
Caminhou até ao mar. O vento trouxe-lhe o cheiro do sal, o mesmo que sentira no dia em que a sua vida fora destruída.
Mas agora, aquele cheiro já não era memória de dor. Era promessa.
Sentou-se na areia, tirou do bolso uma folha dobrada e escreveu: “Inocência em Alíneas — capítulo primeiro.”
E, antes de continuar, olhou para trás — não para a prisão, mas para o que deixara lá dentro: um eco de justiça, um rasto de esperança, um lugar onde, de certa forma, continuaria presente.
VII — O Regresso
Dias depois, numa reunião no gabinete do diretor, o homem perguntou-lhe porque queria voltar.
Horácio sorriu com uma serenidade nova:
— Porque, senhor diretor... se eu tivesse tido alguém que me explicasse a lei como eu explico a eles, talvez nunca tivesse entrado aqui.
O diretor ficou a olhar para ele, como quem percebe algo demasiado tarde.
— Então quer devolver o que não recebeu.
— Quero evitar que outros passem pelo que eu passei.
— Mesmo assim, tem a certeza? Podia ir para o Porto, recomeçar a vida.
Horácio respirou fundo.
— Uma parte de mim ficou aqui. E outra parte... só existe porque estes homens acreditaram em mim quando ninguém acreditava.
O diretor assentiu devagar.
— Então, Dr. Oliveira... o seu escritório está oficialmente aberto.
Naquele dia, quando Horácio entrou no estabelecimento prisional, já não havia algemas, nem guardas a empurrá-lo, nem o peso invisível da culpa alheia.
Havia apenas passos firmes, um silêncio respeitoso e dezenas de olhares que o seguiam.
Ao seu lado, caminhava Tavares — agora seu assistente, inscrito num programa de reinserção profissional.
Os reclusos aproximaram-se das grades.
— O Doutor... voltou mesmo.
— Disse que não nos esquecia e não é que voltou bem acompanhado?
O guarda Mendes, que o vira estudar à luz fraca da cela, aproximou-se.
— Bem-vindo de volta, Oliveira.
— Obrigado, sargento.
— Nunca pensei dizer isto a um ex-recluso... mas faz falta aqui.
VIII — O Escritório da Sala 3
A sala 3 tinha agora uma mesa maior, duas cadeiras e uma estante cheia de códigos.
No centro, um computador novo.
O diretor apareceu:
— Achei que iam precisar disto. Hoje em dia, requerimentos e ações não se escrevem à mão. Foi uma doação de uma associação de apoio jurídico.
Tavares brilhou:
— Senhor diretor... isto é topo de gama.
— Primeiro, um escritório sem computador é como um tribunal sem juiz. Segundo, se é topo de gama, fica a dever a quem muito bem o vai utilizar.
Horácio passou a mão pelo monitor, impressionado.
— Obrigado, senhor diretor. Isto vai ajudar muito.
O diretor piscou o olho.
— Eu sei. E já agora... instalei um programa para organizar processos. O Tavares disse que era essencial.
Tavares, orgulhoso, endireitou-se.
— É que... doutor... agora somos um escritório a sério.
Barbosa, que espreitava pelo corredor, comentou:
— Olha, olha... até computador têm. Isto já parece tribunal superior.
E desapareceu, resmungando — mas com um sorriso escondido.
IX — O Eco Final
No primeiro dia, cinco reclusos bateram à porta.
Tavares organizou uma lista. Horácio analisava processos.
O escritório ganhou vida.
— Doutor, este prazo está a terminar. É do Alfredo Mão Leves da ala 3.
— Boa, Tavares. Passa-me o processo. Manda entrar o primeiro.
Era Barbosa, envergonhado.
— Eu… não vim por mim. É pelo meu filho. Está metido em sarilhos.
— Então sente-se, Barbosa. A lei também serve para os nossos.
E assim, dia após dia, Horácio devolvia aos homens aquilo que lhe tinham roubado durante dez anos: a possibilidade de acreditar.
À noite, ao saírem juntos, o vento trazia o cheiro do mar.
— Doutor... acha que um dia posso estudar Direito a sério? — perguntou Tavares.
— Tavares... já começaste.
E, no silêncio da noite algarvia, ouviam-se vozes atrás deles:
— Boa noite, doutor.
— Boa noite, Tavares.
Horácio sorriu.
— A justiça não é um lugar onde se chega. É um lugar onde se regressa.
E regressavam — juntos.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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