Drama premiado mistura luto, natureza e tensão familiar no litoral cearense
Um filme que não se vê — sente-se
A televisão pública brasileira aposta numa obra que não facilita nem consola. O premiado longa “A Praia do Fim do Mundo”, realizado em 2021, estreia na programação da TV Brasil neste sábado, dia 4, às 21h, integrando a sua faixa dedicada ao cinema nacional. Depois da exibição, o filme fica disponível no serviço digital TV Brasil Play, permitindo que o público o revisite — ou descubra — sem pressas.
Dirigido por Petrus Cariry, o longa não é apenas mais um título na prateleira: chegou a disputar uma vaga para representar o Brasil no Óscar de Melhor Filme Internacional, num processo seletivo que acabou por escolher “O Agente Secreto”. Ainda assim, a sua força estética e narrativa garantiu-lhe reconhecimento expressivo, com mais de 20 prémios em festivais nacionais e internacionais, incluindo distinções no Cine Ceará.
Filmado a preto e branco, o drama mergulha o espectador num ambiente denso e inquietante, onde o real e o simbólico se entrelaçam. A história decorre numa casa isolada no litoral do Ceará, castigada pelas ressacas constantes. É nesse cenário quase fantasmagórico que se desenrola o conflito central entre Alice, uma jovem ambientalista interpretada por Fátima Macedo, e a sua mãe Helena, vivida por Marcélia Cartaxo.
Alice quer partir — fugir daquele espaço que parece condenado. Helena, pelo contrário, insiste em permanecer, agarrada ao mar e à memória do marido desaparecido, que nunca regressou. A casa onde vivem, outrora uma pousada, tornou-se um esqueleto de recordações, corroído pelo tempo e pela força implacável da natureza.
A narrativa constrói-se lentamente, quase como o avanço do próprio mar. Não há pressa, mas há peso. O filme aborda temas como o luto, a negação e o apego ao passado, utilizando metáforas visuais e emocionais que intensificam a experiência do espectador. A presença de Elisa, amiga de Alice interpretada por Larissa Góes, funciona como contraponto e eco das inquietações da protagonista.
Mais do que um drama familiar, “A Praia do Fim do Mundo” é uma alegoria sobre o colapso — pessoal, social e ambiental. Gravado durante o período pandémico, o filme absorve essa atmosfera de incerteza e isolamento, transformando-a numa reflexão sobre o fim e a inevitável reconstrução. A natureza, aqui, não é cenário: é personagem ativa, que avança, ocupa e redefine.
Entre o suspense e discretos elementos de terror, a obra aposta no desconforto como linguagem. O vazio, o silêncio e a ausência de cor reforçam a sensação de um mundo em dissolução, onde cada gesto parece carregado de significado — ou da sua total ausência.
No final, não há respostas fáceis. Apenas a necessidade de enfrentar o destino, seja ele qual for.
“A Praia do Fim do Mundo” não é cinema para distrair — é cinema para inquietar. Num tempo em que tudo se consome rapidamente, esta obra exige pausa, atenção e, sobretudo, coragem emocional para encarar aquilo que evitamos: o fim, a perda e a mudança inevitável.
Drama premiado mistura luto, natureza e tensão familiar no litoral cearense
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis