Distopia de Igor Girão expõe controle, exclusão e a urgência anticapacitista
Perfeição pode significar desumanização. E progresso pode esconder violência silenciosa.
Em Ouroboros, Igor Girão constrói uma narrativa potente e inquietante ao imaginar um futuro em que a humanidade, após um desastre ambiental, é forçada a viver em uma cidade submarina rigidamente controlada. Nesse ambiente, a promessa de estabilidade e progresso vem condicionada à obediência absoluta — questionar não é uma opção, e existir passa a depender de provar constantemente a própria utilidade.
A sociedade retratada funciona como uma engrenagem precisa e opressiva. Cada indivíduo é avaliado por sua eficiência, enquanto cientistas e autoridades conduzem experimentos que buscam “aperfeiçoar” a espécie humana por meio da tecnologia e da engenharia genética. Nesse contexto, o valor humano deixa de ser intrínseco e passa a ser calculado, medido e, sobretudo, condicionado.
É nesse cenário que conhecemos Sony, uma jovem cega com inteligência extraordinária. Em um sistema profundamente capacitista, sua existência já é vista como um desvio. Pessoas que fogem do padrão físico ou cognitivo são tratadas como descartáveis, frequentemente enviadas para Findemburg — uma espécie de prisão-laboratório onde vidas humanas se tornam matéria-prima para experimentos científicos.
Em contraste, Bento representa o outro extremo desse sistema. Filho de um cientista e fruto do Projeto Engendro, ele foi geneticamente moldado para atingir o ideal de perfeição: o chamado Homo Perfectus. Sua existência, porém, não é sinônimo de liberdade. Ao contrário, carrega o peso de expectativas impostas desde antes do nascimento, revelando que até mesmo os “perfeitos” são prisioneiros de um modelo que nega autonomia.
Outro eixo fundamental da narrativa é Alex Petrov, um escritor que passa a questionar as estruturas do regime. Sua trajetória de dissidência adiciona uma camada crítica à obra, ampliando o olhar sobre os mecanismos de controle e vigilância que sustentam aquela sociedade.
À medida que essas três histórias se entrelaçam, o romance expõe com força as contradições de um sistema que sacrifica a humanidade em nome da eficiência. A luta contra o controle, a exclusão e o capacitismo emerge como fio condutor, transformando a narrativa em uma denúncia contundente contra a lógica que associa valor humano à produtividade.
“A cidade submersa se movia em ritmos próprios, engrenagens novas em motores velhos, e cada canto tinha seu som característico: ali, o ranger agudo das travessas; adiante, o ronco baixo das baterias em carga; em todos os lados, o burburinho humano, incessante.”
(Ouroboros, p. 40)
Com elementos de distopia, suspense e ficção científica, Igor Girão transforma sensações contemporâneas — pressão, vigilância, inadequação — em uma experiência narrativa intensa. O cenário extremo apenas amplifica questões que já fazem parte da realidade de muitos, especialmente no que diz respeito à exclusão e às barreiras impostas por padrões normativos.
O título da obra remete ao símbolo mitológico do Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda. No romance, essa imagem ganha novo significado: representa um sistema que, ao tentar se preservar a qualquer custo, acaba consumindo aquilo que deveria proteger — a própria humanidade. Como destaca o autor, a proposta não é apontar vilões individuais, mas revelar uma lógica estrutural que confunde desempenho com valor, controle com cuidado e sobrevivência com sucesso.
Formado em Biblioteconomia, Igor Girão coordena o Setor de Leitura Acessível da Biblioteca Pública Estadual do Ceará, atuando diretamente na promoção da acessibilidade cultural. Cadeirante e com baixa visão, tornou-se o primeiro homem com deficiência múltipla a concluir um mestrado em Ciência da Informação no Brasil. Também é mediador de leitura formado pela Fundação Demócrito Rocha. Estreou na literatura com Além do Véu e agora apresenta Ouroboros, uma obra que aprofunda o debate sobre poder, exclusão e humanidade. Instagram
Nota do Editor - Portal Splish Splash
“Ouroboros” é uma obra que transcende a ficção científica ao provocar reflexões urgentes sobre inclusão, dignidade e os limites éticos do progresso. Igor Girão apresenta uma narrativa impactante que convida o leitor a questionar os sistemas que naturalizam a exclusão e redefinem o valor da vida humana.
Distopia de Igor Girão expõe controle, exclusão e a urgência anticapacitista
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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