Disco da banda soteropolitana transforma lembranças em narrativa musical e visual imersiva
Merlô estreia propondo um cinema onde o som é protagonista
Com o lançamento de CINEMA, seu disco de estreia com 13 faixas inéditas, a banda baiana Merlô apresenta um trabalho que nasce como manifesto artístico e se projeta como experiência sensorial. Formado por Ariel Ricci, Faustino Menezes, Rugolo Dalaneza e Thiago Vinícius, o grupo soteropolitano articula uma identidade sonora que atravessa o post-indie, o rock alternativo e a inventividade tropicalista para construir um álbum que pensa a música como linguagem de memória.
Mais do que recorrer ao cinema como referência estética, o quarteto transforma a própria ideia de tela em metáfora da mente, um território onde lembranças, sonhos, afetos e expectativas se projetam como cenas fragmentadas. Em CINEMA, cada composição opera como recorte narrativo, conduzindo o ouvinte por imagens emocionais que transitam entre nitidez e abstração, entre o que permanece e o que o tempo dissolve.
O álbum chega acompanhado por uma construção audiovisual que amplia sua proposta conceitual. Já impulsionado pelos singles “Cinema” e “Amélia” — esta última com videoclipe gravado no Parque da Cidade, em Salvador — o projeto também ganhou um filme de 40 minutos disponibilizado no YouTube, em que cada faixa recebe interpretação visual, reforçando a dimensão cinematográfica da obra.
Há, no disco, um evidente cuidado em fazer convergir som e imagem. Esse diálogo se fortalece pela colaboração com Ramon Gonçalves (Aurata), responsável pela direção de arte do álbum e pela direção do clipe de “Amélia”, além das fotografias assinadas em parceria com Rafael Rodrigues. O resultado visual não aparece como complemento, mas como parte orgânica da narrativa proposta pela banda.
Musicalmente, CINEMA recusa rótulos rígidos. O vigor dos arranjos de rock convive com sutilezas rítmicas brasileiras, enquanto melodias e texturas criam um ambiente de deslocamento temporal e introspecção. Produzido por Ariel Ricci e mixado e masterizado por Zepeto, o trabalho aposta na multiplicidade como estética e discurso.
O caráter colaborativo do álbum amplia ainda mais sua densidade. Participações de Aurata, Elis Felice, Drigo, Jardim Soma, Rei Lacoste, Zepeto e Ivan Motosserra expandem os contornos sonoros do projeto, enquanto músicos convidados como Normando Mendes, José Elohim, Samara Baraúna e Yrlã Guedes adicionam novas camadas instrumentais.
Na trajetória ainda recente da Merlô, fundada em 2022, o disco surge como síntese e afirmação. Com integrantes ligados a projetos importantes da cena independente de Salvador, como Aurata, Bilic, Cartel Strip Club, Eu e Sofia, Os Jonsóns e Teenage Buzz, a banda transforma essa bagagem em repertório maduro e autoral, posicionando-se como nome relevante dentro da produção contemporânea brasileira.
A sequência de faixas — de “nem no sol” a “sol” — reforça a sensação de percurso, quase como roteiro circular em que começo e fim dialogam. Há ali um desenho narrativo que torna o álbum mais do que reunião de canções: uma obra pensada para ser atravessada.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
CINEMA confirma a força criativa da nova cena independente de Salvador e revela uma banda que compreende o álbum como obra total, integrando som, imagem e conceito com rara coerência. Merlô estreia mirando além do formato tradicional do disco e entrega um trabalho que convida à escuta demorada, ao mergulho subjetivo e à permanência. Em tempos de consumo acelerado, esse gesto artístico tem peso e merece atenção.
Disco da banda soteropolitana transforma lembranças em narrativa musical e visual imersiva
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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